Nova Teoria do Sebastiano e o Futebol Português (artigo Manuel Sérgio 22)

Ética no Desporto 30-03-2014 20:01
Por Manuel Sérgio
No âmbito das preocupações de ordem ética, deparamo-nos frequentemente com uma irreprimível pergunta, formulada mais ou menos nestes termos: estará acaso o futebol português estruturado, orientado de modo a dele poder esperar-se um comportamento ético dos seus principais agentes e uma filosofia de forte pendor ético das instituições que o governam?

Nova Teoria do Sebastianismo é o último dos livros da autoria de Miguel Real, crítico literário, verdadeiro recriador do texto que o autor criou (ao alcance tão-só dos críticos de invulgar talento), e filósofo de referência, através de escritos (livros e não só) que deverão sublinhar-se com traço forte pelo diálogo aberto, exigente e lúcido com a cultura portuguesa e com a “episteme” do tempo em que vivemos.

Miguel Real, escritor, filósofo, crítico, palestrante introduz, assim, no mundo da cultura, uma vitalidade, entre nós rara, no âmbito da apreciação literária. O seu livro Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa (Quidnovi, Matosinhos, 2008) tem cabimento plausível entre as melhores obras de crítica literária e de investigação filosófica, que podem encontrar-se na Cultura Portuguesa, ao longo das idades. Não, não exagero! Nem me preocupo, neste momento, com as opiniões, por tantos títulos respeitáveis, dos sábios que poderão polemizar as minhas ideias.

Relembro aqui, também, o seu ensaio “Padre Manuel Antunes – a filosofia como espaço do espírito”, no livro em memória/homenagem do Padre Manuel Antunes: “a filosofia consiste num saber que escapa totalmente à particularidade, ela pertence ao espírito que, brotando da circunstancialidade histórica, se eleva à globalidade universal, respondendo a inquirições que perseguem todo o homem, qualquer que seja a sua nacionalidade e o seu tempo concreto” (p. 213).

Hoje, que venho de ler Nova Teoria do Sebastianismo (D. Quixote, 2014), um livro de magistral simbiose história-filosofia, onde o talento multiforme, de primeiríssima água, de Miguel Real se revela em amplitude, variedade e profundidade – quero distinguir, nesta obra de leitura obrigatória, os quatro complexos culturais dos portugueses que Miguel Real encontra sintetizados, no sebastianismo: complexo viriatino: “Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se tevolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro, conduzindo os lusitanos a vitórias sucessivas”; complexo vieirino, ou o do Padre António Vieira, “resgatando o providencialismo de Ourique e o milenarismo judaico de Bandarra”, dando “voz majestática a este cruzado sentimento de grandeza e pequenez, recusando testemunhar a nossa real insignificância europeia, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado”; complexo pombalino, “assente na profunda convicção de que a Portugal, país em permanente estado de inferioridade civilizacional, nada lhe faltava para ser igual aos restantes, caso se alterasse drasticamente o perfil das elites, insuflando-lhes um banho de Europa”; complexo canibalista, “o tempo em que os portugueses se foram pesadamente devorando uns aos outros, cada nova doutrina emergente, destruindo e esmagando a(s) anterior(es), estatuídas estas como inimigas de vida e de morte, alvos a abater, e as suas obras como negras peçonhas a fazer desaparecer” (pp. 32 ss.).

Depois de Alexandre Herculano, com as suas três causas que tentam explicar a rápida passagem “(menos de cinquenta anos) do estatuto de Portugal de cabeça para cauda da Europa: fidalguia empobrecida, absolutismo régio (monopólio da coroa) e ferocidade inquisitorial; depois de Antero de Quental, diagnosticando as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Três Últimos Séculos: “a revolução mental europeia, operada no cristianismo pela Reforma, a que reagimos, assumindo-nos como vanguarda na luta contra qualquer alteração na ordem religiosa medieval; o estabelecimento da máxima centralização régia (…) e a grandeza espacialmente monstruosa do Império, face a um país de dimensão demográfica reduzida” - depois de Alexandre Herculano e de Antero de Quental (e doutros relevantes autores onde Miguel Real se detem), eis aí as “causas das causas” do mito sebastianista, ressuscitadas pelo autor deste livro: O complexo viriatino, o complexo vieirino, o complexo pombalino e o complexo canibalista.

Ora, os portugueses continuam do mesmo barro que singularizou o Viriato, o Padre António Vieira, o Marquês de Pombal “e o complexo canibalista, vinculado à inveja individual e à intolerância colectiva”. O futebol português assim o diz. Alguns dos seus principais dirigentes, instruídos pelas dificuldades que assolam o nosso tempo, sem poder usar o verbo de Vieira (o “imperador da língua portuguesa”, segundo Pessoa) julgam-se uma síntese do Viriato, do Marquês de Pombal e do Vieira no sonho deste jesuíta de regresso às glórias do passado e ainda com as explosões vulcânicas de antipatia, pelos clubes rivais, típicas do complexo canibalista. Julgam-se afinal o “Desejado”! Demais, porque não os rodeia um (um só) preconisador do sentimento da medida e das proporções; porque nunca leram Pierre de Coubertin - o seu ultra-romantismo impetuoso é cada vez mais ridículo, tonto, insensato, anunciando, mais tarde ou mais cedo, um qualquer Alcácer-Quibir

Os clubes, com futebol de alta competição, devem lançar, o mais depressa possível, as infra-estruturas de um novo paradigma, a que é hábito chamar-se sinergético. A natureza pode ensinar-nos, a este respeito. De facto, a vida natural define-se, sobre o mais, pela complexidade causal, pela interdependência, pela dialética incessante entre todas as criaturas que a compõem. Não há objetos que não sejam objetos-sistemas. Ora, os sistemas “são orgânicos, por natureza, e opostos a uma visão mecanicista da realidade; os componentes de um sistema existem por si, entre si e como um todo”.

Assim, numa perspetiva de desenvolvimento do futebol português, nenhum clube existe independetemente do outro. Não há progresso, sem diálogo, sem aprendizagem, sem solidariedade. Tenho diante de mim um exemplar do jornal Marca (2014/3/26). Três d ias antes, efetuara-se o Real Madrid 3 – Barcelona 4 e eram evidentes, logo na primeira página, o vigor, a truculência, uma acerba crítica à arbitragem, nas palavras de Ancelotti. Durante o jogo, nem sempre a correção imperou. No entanto, parecendo indiferentes ao que se passava no campo, os presidentes dos dois grandes clubes, como dois cavalheiros, dialogavam entre si com a razão clara de dois desportistas. Não, eu não sou o juiz togado que, em nome da Razão, interroga e admoesta a Paixão. Mas permitam-me que não preste vassalagem a um clubismo e regionalismo impulsivos e apaixonados. O futebol (como atividade humana e não só como atividade física) merece mais, muito mais.

E não se esqueçam de ler e meditar o magnífico livro de Miguel Real, Nova Teoria do Sebastianismo. Finda a leitura, estou certo, encontraram um autor de aprimorado senso crítico e, como todos os autores que fazem história, um despertador de consciências, um deflagrador de esperanças... até no futebol!
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