Plano Nacional de Ética no Desporto (artigo Manuel Sérgio 16)

Ética no Desporto 12-02-2014 18:50
Por Manuel Sérgio
Grande parte dos dirigentes, empresários e até um ou outro treinador já tiveram, se de facto o conhecem, uma opinião depreciativa do Plano Nacional de Ética no Desporto. “Mas, com ética ganham-se jogos?” dizem eles, amolengando-se nos cadeirões onde se combinam jogadas muito pouco desportivas e com a droga estimulante de gordas negociatas.

Gilles Lipovetsky deixa o aviso: vivemos a “era do vazio”, o “império do efémero” e Enrique Rojas assevera que é um “homem light”, de uma desencantada mediocridade, o homem do nosso tempo. Convocar a ética para um desporto que reproduz e multiplica uma sociedade onde os valores são olhados com surpresa e desdém, não parece coisa de gente com o mínimo de astúcia e originalidade. Hoje, o que o povo parece mais admirar não é o culto da inteligência pelo Homem, ou pelos valores que o humanizam, mas o culto do sentimento pelos semi-deuses que os media publicitam, semi-deuses incapazes de rebelar-se contra todo o género de alienação, exploração, superstição e crença vã. No entanto, o Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), criado por iniciativa do XIX Governo Constitucional, que tem como coordenador o Dr. José Carlos Lima, um intelectual de mente clara, minuciosa, previsora e prudentíssima, coadjuvado pelo Dr. Humberto Ricardo que exemplarmente o acompanha, não se cansa de aconselhar os desportistas, mormente os mais jovens: Move-te por valores!
E adianta, com linguagem austera, os seus objetivos: “Promover os valores éticos, associados ao desporto, junto da população em geral, especialmente crianças e jovens; dotar as organizações, de vários quadrantes da sociedade, de recursos que permitam a reflexão sobre aquela temática; promover atividades multidisciplinares, de modo a compreender e vivenciar os valores éticos, inerentes ao desporto; colocar o tema da Ética no Desporto, na agenda da comunicação social; divulgar os propósitos do Plano, em eventos desportivos nacionais e internacionais”. E revela a população-alvo das suas iniciativas: “escolas básicas e secundárias; politécnicos e universidades; população em meio prisional; população sénior; pessoas com deficiência; movimento associativo; agentes desportivos”. A primeira e mais evidente característica do nosso tempo é a globalização, a qual nos diz garantir o bem-estar pelo preço da liberdade imolada aos aspetos quantitativos e materiais da existência. E assim a apatia, o desinteresse e até mesmo a aversão pelos valores de forte caráter antropológico e humanizante é fenómeno generalizado. Pela globalização, apoderou-se do mundo (um mundo cada vez mais injusto, mais desigual) um economicismo, onde os valores são aqueles que permitem e aplaudem o domínio das hegemonias político-financeiras, do vedetismo de alguns (muito poucos) artistas e atletas e o jogo feérico e mentiroso das aparências, já que tudo parece mas não é.

Se os grandes valores, os grandes ideais sociais deixaram de polarizar e motivar as pessoas, não surpreende que elas se sintam desorientadas, radicalmente vazias, interiormente perplexas. A crise não é só do marxismo ou do cristianismo, mas também dos mais sólidos anseios da humanidade, mormente dos explorados e marginalizados, postos à margem em favor de ideais superficiais, fictícios e ao serviço da “economia que mata”, servindo-me de palavras do Papa Francisco. O PNED sabe que a fome de valores é a raiz de todas as fomes: O mal maior que aconteceu ao marxismo-leninismo foi tornar-se poder; o mal maior que aconteceu ao cristianismo foi tornar-se Igreja do Estado. E, porque não faltam motivos para dar razão à crítica ao capitalismo de Karl Marx e à doutrina salvífica de Jesus de Nazaré, foram os dirigentes dos países ditos comunistas e certos Papas e Bispos que se deixaram corromper, proibindo a crítica porque decretaram dogmas, não aceitando análises porque já tinham sínteses, porque à dinâmica da História deram preferência à estática dessa mesma História. O PNED e afinal o Instituto Português do Desporto e da Juventude têm assim funções que, na promoção do Desporto, concorrem também ao surgimento de um homem novo, onde a saúde é física porque é moral e é moral porque é física. Não há progresso desportivo, sem salvaguarda de valores fundamentais. Como já o digo há muitos anos: o Desporto não se destina a fazer ”bestas esplêndidas”, mas Homens. É o que pretende o PNED:
E termino desta forma: a educação desportiva é sempre uma forma de educar para a ética. Karl Marx afirmou, não sem razão, que cada época só põe os problemas que ela própria pode resolver. Contra a corrupção, a violência, o doping, no desporto (e até a excessiva competitividade resultante de um excessivo individualismo) e em favor de um desporto mais saudável porque mais fratermo e mais solidário, o PNED nasceu! Aquém e além do facciosismo das turbas massificadas e da orientação que norteia os dirigentes, os empresários e os políticos, o Desporto continua vivo. E será tanto mais vivo quanto mais for uma ética em movimento, designadamente no desporto escolar. Com a pujança de uma palavra nova, urgente e necessária, o PNED não deixa de clamar aos desportistas: Move-te por valores! Estou a ouvir uma pergunta de muitos dos meus pacientes leitores, que ficou a ressoar ambígua e expectante: “Mas o Ronaldo, o Messi e outros mais é pela ética que obtêm excecionais desempenhos?”. No treino visível e no invisível, ou há ética, ou não há treino. Pode dizer-se o mesmo da competição. O PNED tem razão (e aqui deixo portanto um abraço ao Dr. José Carlos Lima). Daí, a sua indispensabilidade, no sistema desportivo português. Sim, é verdade que o relativismo ético que por aí anda confere ao ter bem mais importância do que ao ser. Mas a culpa não é do PNED...

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor da Ética no Desporto

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