Os golos do Ronaldo e a ética da palavra (artigo de Manuel Sérgio 7)

Ética no Desporto 10-12-2013 00:14
Por Manuel Sérgio
Quem tiver melhores jogadores, normalmente forma uma equipa vencedora. Será de lembrar o Barcelona da última época que foi campeão de Espanha, tendo como treinadores o adjunto de Guardiola e, durante largo tempo, o adjunto do adjunto de Guardiola. Mas o Messi, o Xavi, o Iniesta, etc., etc., que podemos colocar, sem grandes problemas, entre os melhores jogadores do mundo, resolveram os problemas que a ausência do Guardiola e do Tito Vilanova certamente criaram.

O dr. José Manuel Delgado, sub-diretor deste jornal, escreveu, na manhã do dia Irlanda do Norte-Portugal: “Já se sabe que os norte-irlandeses vão correr como loucos, disputar cada bola como fanáticos e procurar fazer com o físico o que não conseguem com os pés. Há que contrariá-los. Com o futebol que Deus nos deu. Mas também com coração guerreiro e alma lusitana”. Ou seja, o que José Manuel Delgado salientou (ele que também foi futebolista profissional de muitos méritos) como “conditio sine qua non” da vitória dos portugueses, diante da combatividade incansável dos irlandeses, não foi uma determinada tática, mas um determinado estado de alma. Porque a tática não interessa? Não, porque antes da tática está o Homem! O futebol é um jogo eminentemente tático, mas quem concretiza a tática são os homens-jogadores.

O brasileiro Nelson Rodrigues, um cronista como bem poucos se conhecem na literatura portuguesa, tem a este propósito o texto seguinte: “Domingo passado, durante os primeiros vinte minutos, o Fluminense foi um Otto Lara Resende, foi um estilista. Mas, no futebol, como na literatura, convém não caprichar demais. Enquanto o Fluminense foi taticamente perfeito, não fez gol nenhum. Tudo certo, exato, irretocável, como a tática do treinador e a redação de Otto. No meu canto, eu via a hora em que perderíamos mais um ponto fatal. E vem a grande verdade: a obra-prima no futebol e na arte é do artista. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão estilista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões”. Os três golos de Cristiano Ronaldo, em Belfast, brotaram de facto de uma tática e de uma equipa, mas só ele é que os sabia marcar. Nem o Paulo Bento, que muito respeito, nem qualquer outro treinador têm nada a ver com o inato da sua genialidade.

De facto, souberam criar espaços a que ela melhor se revelasse, mas o génio (aquele génio singular) é do Ronaldo e... de mais ninguém! O espectador do jogo de Portugal, do dia 6 de Setembro de 2013, não vai lembrar a tática da “equipa de todos nós”, vai lembrar, sim, a honestidade, o espírito de sacrifício de todos os jogadores e, com admiração incontida, os três golos do Cristiano Ronaldo. O futebol é um jogo tático mas o futebol-arte, com a eficácia necessária, é muito mais do jogador do que da tática.

Assim como o vocabulário de um analfabeto se resume a poucas palavras, há pessoas que só vêem tática, ou os erros dos árbitros, no futebol – muitíssimas vezes, no meu modesto entender, o que menos conta. Não esqueço uma frase de Jorge Nuno Pinto da Costa, em conversa comigo, há um bom par de anos: “Nunca vi uma equipa perder um jogo, principalmente por causa da tática”. A demissão da palavra justa vem sendo objeto de denúncia de analistas do nosso tempo e de sociólogos da cultura. A palavra fácil, fútil e alienante é hoje comum nalguns “críticos do futebol” - uma palavra desprendida da coerência da especialização e exemplo acabado da pobreza intelectual e espiritual que subjaz a um clubismo doentio e faccioso. A retirada da preocupação da palavra precisa, porque não se estuda nem se vive (estudar não chega) o desporto, significa uma nítida decadência da crítica dita desportiva. A consciência da necessidade da linguagem correta e o zelo pela palavra percuciente apoiam-se indubitavelmente na ética, porque a palavra é tributária dos nossos critérios de referência. A análise do jogo, a dimensão e o planeamento táticos, a dominante técnica, a preparação psicológica, a motivação e a comunicação, a concentração, a autoconfiança, etc. são disciplinas, entre outras, desta especialização. Mas... qual é o paradigma científico do futebol? É o Homem não é a tática, nem outra coisa qualquer. E, se é o Homem, o método, no treino e na competição, decorre do pensamento complexo. Logicamente! E não se contenta com o vocabulário típico do analfabeto.

O grande desafio do Futuro, para os críticos e opinadores encartados, está na ética da palavra – que exige a sensibilidade a valores e às atitudes-mestras da vida. Há muito por inventar no futebol, por esta razão muito simples: o fenómeno humano é inesgotável! É a obediência ao humano que garante o progresso no futebol! Porque é nessa altura que coincidem a ética (incluindo a ética da palavra) e o conhecimento. Relembro o poeta: “Palavras são coisas amadas”.
Ler Mais
Comentários (0)

Destaques

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais