«O Desporto e o Desafio do Sentido» (artigo de Manuel Sérgio 3)

Ética no Desporto 18-10-2013 22:58
Por Manuel Sérgio
Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto


Já o escrevi inúmeras vezes: o desporto de alta competição reproduz e multiplica, em demasia, as taras da sociedade de mercado onde nos movimentamos. Trata-se do espectáculo que maior magia desperta entre as multidões e, por isso, onde é mais evidente o niilismo da nossa pós-modernidade. E, porque vivemos em plena globalização, o facto de todos os Estados do planeta desenvolverem tendencialmente a mesma política desportiva. Simultaneamente, os jogos tradicionais populares são murados em espaços de desinteresse, em favor dos desportos com federações internacionais.

Qualquer espectador atento e receptivo concluirá assim, facilmente, que o desporto hodierno, fervilhante de símbolos, constitui uma forma de reprodução de um determinado tipo de sociedade. A mercantilização, a burocratização, o uso e o abuso da droga, a corrupção, etc. são provas evidentes que os conceitos fundadores da prática desportiva foram nitidamente postos de lado. É o Desporto uma instância autónoma? Só o é, relativamente. Por isso, a competição desportiva se confunde com a civilização consumista. E em que o desportista também é o hiperconsumidor.

Como num livro, velho de quarenta e dois anos, Signification du Sport, já o assinalava Michel Bouet, o Desporto pode ser uma actividade saudável, que satisfaz as necessidades motoras do praticante; promove a realização pessoal, através da afirmação do eu; reveste, muitas vezes, o aspecto de compensação, face ao stress e ao labor monocórdico da vida profissional. Por outro lado, a necessidade de sentir-se em grupo; o interesse pela competição-diálogo e não da competição hostil; o desejo de vencer e de ser campeão, não tanto porque se ganhou, mas porque se é um “ganhador”; a combatividade que transmite a vontade de vencer... desportivamente, ou seja, com dignidade; o amor pela natureza, bem visível nos desportos ao ar livre; o gosto pelo risco e uma irresistível atracção pela aventura – constituem características do homem (e da mulher) que podemos designar como desportista, ou então os pontos centrais da motivação do Desporto.

Trata-se, de facto, o Desporto de uma acção, simultaneamente lúdico-agonística, institucionalizada e universal, onde se verifica uma incessante procura de superação sobre os outros e sobre nós próprios, na forma, como já vimos acima, de competição-diálogo e sem qualquer agonismo bélico. Os benefícios de ordem física, biológica e antropossociológica, que do Desporto podem resultar, são incontáveis.

Iniciámos o século XXI, o século do Desporto. Não é de espantar, portanto, que as suas virtualidades tenham chegado, com assombrosa rapidez, ao conhecimento dos nossos contemporâneos.

Mas... qual o sentido do Desporto? Tenho para mim, depois das modestas investigações que tenho realizado, ao nível da motricidade humana, que o sentido do Desporto é a transcendência, é a liberdade que procura o absoluto. Não há nele tão-só a continuidade temporal do “mundo da vida”, mas também a descontinuidade dos instantes criativos.

Praticar o Desporto tem um sentido: procurar a transcendência, através da motricidade humana (ocorre-me, neste passo, a expressão de Fernando Pessoa: “e Deus, a grande Ogiva, ao fim de tudo”). Por isso, as competições e os treinos exalam significação, aquela que resulta de um ser humano que deseja superar e superar-se, em equipa (em grupo, em comunidade) e jogando com e não contra.

Encontrar-se-á o Desporto compreendido nas categorias de futuro, de utopia, de esperança e de possível? O desportista vive, de facto, de modo próprio: ele recusa qualquer atitude resignatária, qualquer consentimento conformista, dado que se encontra em permanente movimento intencional, em direcção ao mais-ser. E, por consequência, visando a plenitude, tanto do ponto de vista ético, estético, político e gnosiológico, como ao nível da condição física, da saúde e das qualidades motoras. Costuma afirmar-se, por vezes com alguma ligeireza, que o Desporto dá saúde. Dá, de facto, quando não são evidentes, no mesmo todo social, os mecanismos económicos da exclusão e da desigualdade.

O corpo não pode percepcionar-se como simples máquina. É o corpo-sujeito a que me refiro, que é também um sistema coerente de sentimentos vividos. A saúde tem a ver com o todo, donde emerge, igualmente, a justiça social. O pensamento europeu das Luzes fez sua a “consciência enquanto tal” kantiana, como sujeito transcendental da verdade objectiva. Foi à luz do racionalismo que o desporto nasceu. Ora, no racionalismo, as ciências naturais não problematizam a intersubjectividade em que se desenvolve a investigação e a institucionalização dos saberes.

O treino clássico, ou analítico, não tinha em conta a dualidade compreender-explicar, ou melhor, sabia o que se explica, ignorava o que se compreende. A linguagem do desporto é específica e tem uma semântica autónoma. A ideia de que um gesto desportivo só consegue uma compreensão interessante, quando o gesto desportivo é subsumível a leis gerais, está ultrapassado. No gesto desportivo, está cada um dos praticantes que nem sempre cabem, na universalidade das leis do treino.

O desporto rompe o hermetismo da causalidade científica, porque a interpretação, nele, não é apenas um conhecimento conceptual, mas experimental. No desporto, não pode falar-se de uma objectividade que não inclua a subjectividade do praticante. No trânsito de um desporto, encerrado nos quadros do sociologismo, do pedagogismo e do biologismo, para uma fundamentação existencial-ontológica, onde o sentido é um elemento fáctico, está a revolução a iniciar no treino desportivo e na pedagogia do desporto.

Partindo da expressão conhecidíssima de Gadamer “o ser que pode ser compreendido é linguagem”, a qual retoma a ideia de Heidegger, conhecidíssima também, da “linguagem como casa do ser”, a motricidade humana não pode fundar-se a partir de uma teoria que desconhece a prática.

No desporto, como movimento intencional, há, acima do mais, sentido. A promoção desportiva, decorrente da escola e do movimento associativo; a orientação desportiva como expressão corporal de um povo de sólida cultura, que dá ao desporto o que destina aos outros saberes; a selecção desportiva, como expressão do desenvolvimento estrutural de um país – no desporto, na sua globalidade, há que encontrar o sentido que o niilismo neoliberal não se mostra capaz de personificar.

A lei do mercado pode aplicar-se ao desporto, mas não é desporto. Do devir histórico emergem, agora, novas modalidades, como o skate, o skateboard, o surf, o parapente, o windsurf, o rafting, o skate-snow, a asa delta, etc., etc. Para que elas representem progresso social, a economia é necessária, mas não chega...

Para ter sentido, o desporto tem de ser sinónimo de subversão, ou de contra-poder, de contra-cultura? “À medida que a ordem do mercado invade os hábitos quotidianos, as censuras e o descontentamento multiplicam-se e todos criticamos, mais ou menos, um mundo que, no fundo, ninguém quereria muito diferente. É, com efeito, a sociedade unidimensional (Marcuse) que triunfa” (Gilles Lipovetsky, A Felicidade Paradoxal – ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo, Edições 70, Lisboa, 2009, p. 117).

Todos ansiamos por superar o vazio fundamental da vida, mas aceitamos o hiperconsumo que nos alimenta e adormece. “A definição de Rousseau da humanidade do homem, na sua específica diferença do animal, conduz a uma recusa, quer do materialismo histórico, quer do biológico: por essência, o humano está em excesso, em relação aos dois grandes códigos, nos quais o historicismo e o biologismo o queriam encerrar. Aqui, ele aparece no sentido em que Sartre e Heidegger retomarão a expressão, como um ser de projecto ou de transcendência” (Luc Ferry e Jean-Didier Vincent, O que é o Homem?, Edições ASA, Porto, 2003, p. 39). Liberto de toda a imprevisibilidade; vivendo em estado de imanência total, no contexto de um mundo sem significado religioso; chegando com rapidez meteórica ao mundo todo, através da computação, da miniaturização, da digitalização, das comunicações por satélite, das fibras ópticas, da Internet e enfim, através das tecnologias de informação e comunicação; sentindo-se feliz como homem-massa – o ser humano não dispensa a transcendência, a superação, categorias eminentemente desportivas.

Quem faz desporto não é um profissional do optimismo, procura-o! Será a vontade de transcendência o grande exemplo do desportista ao mundo hodierno? Será ele a ensinar-nos a superar o vazio fundamental da vida?

A ciência da motricidade humana (CMH) nasce de um corte epistemológico, no seio da Educação Física, que tinha preservado anos a fio, inalteráveis, as conclusões do “erro de Descartes”. Com Bachelard, Althusser e o brasileiro Hilton Japiassú (designadamente no seu livro Introdução ao Pensamento Epistemológico) eu aprendera que todo o saber científico é precedido de um pré-saber, constituído por “opiniões primeiras”, que comportam obstáculos epistemológicos, os quais, para serem superados, exigem rupturas epistemológicas. Há negações que são a única maneira de o conhecimento não se negar. Como fazia (e faço) da epistemologia uma polémica contra o que se me afigura como erro, entrei de polemizar contra o mecanicismo cartesiano da educação física, visando superá-la, com uma nova ciência humana (a CMH). Demais, a mecânica quântica já arrasara o mecanicismo, para instaurar, no seu lugar, o pensamento complexo (cfr. B. d’Espagnat, Olhares sobre a matéria, Instituto Piaget, Lisboa, 1994). “Vários físicos reconhecem que o estudo sistemático dos sistemas complexos, sendo relativamente recente, representará uma terceira revolução da física, depois da primeira (com Galileu e Newton) e da segunda com a Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica” (Maria Manuel Araújo Jorge, “Descartes e a Epistemologia Contemporânea”, in AA. VV., Descartes – reflexão sobre a modernidade, Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 1999, p. 281).

Como fugir ao pensamento complexo, na CMH? No desporto, o ser humano não é um conceito, é a complexidade humana como sujeito da história, através da transcendência do que se é fisica, psicologica, social, moralmente. A transcendência, o sentido do desporto (e da vida)...

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