Que futuro para as selecções nacionais de seniores? (artigo de Eduardo Monteiro, 22)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 04-10-17 5:39
Por Eduardo Monteiro

Decorreram, recentemente, os mais importantes campeonatos continentais de basquetebol entre selecções nacionais de seniores masculinos, marcados pela ausência de muitos jogadores das ligas profissionais da NBA e da Euroleague. Em consequência, fizeram-se ouvir muitas vozes discordantes de conceituados técnicos da modalidade, em relação às datas em que estes eventos foram realizados. Propõem eles o mês de julho como a alternativa mais consentânea com as férias dos jogadores (Agosto) e início da preparação da nova época (Setembro) dos clubes profissionais.

Entretanto, as competições realizaram-se havendo grandes surpresas nalguns resultados e classificações finais que podem ter sido prejudicadas pela ausência de alguns jogadores mais credenciados. Pela positiva, salientamos o aparecimento de novos valores, que já vinham despontando nas provas internas dos respectivos países e que, agora, tiveram a oportunidade de mostrarem o seu valor a nível internacional em representação das respectivas selecções nacionais.

FIBA AmeriCup 2017
Data: 25 Agosto a 3 Setembro.
Sistema de competição:
As 12 selecções foram distribuídas por 3 grupos de 4 equipas cada, apurando o primeiro classificado de cada grupo para a fase final, a que se juntou a Argentina na qualidade de principal organizador do evento.
Fase de Grupos:
Grupo A: Brasil, Porto Rico, México, e Colombia (Medellin-Colombia);
Grupo B: Ilhas Virgens, Argentina, Venezuela e Canadá (Bahia Blanca- Argentina);
Grupo C: R. Dominicana, USA, Panamá e Uruguai (Montevideo-Uruguai).
Fase Final
Entretanto, a fase final decorreu na cidade de Cordoba (Argentina), com a participação dos vencedores dos respectivos grupos, as selecções dos USA, Ilhas Virgens e México. A Argentina completou o grupo de finalistas como país organizador.
Meias Finais:
USA – 90 Ilhas Virgens – 62
Argentina – 84 México – 67
Apuramento do 3º e 4º classificado:
México – 79 Ilhas Virgens – 65
Final:
USA – 81 Argentina - 76
Classificação final: 1º EUA (ouro), 2º Argentina (prata), 3º México (bronze), 4º Ilhas Virgens, 5º Porto Rico, 6º Uruguai, 7º República Dominicana, 8º Canadá, 9º Venezuela, 10º Brasil, 11º Colômbia e 12º Panamá.

MVP e Cinco ideal:
O jogador interior Jameel Warney (USA) foi nomeado MVP do AmeriCup (12.8 pontos e 8.6 ressaltos por jogo) com uma exibição decisiva no jogo da final com 21 pontos e 7 ressaltos e, como tal, integrante do cinco ideal da prova juntamente com o colega de equipa Darrum Hilliard (média de 13.4 pontos e 3.4 ressaltos). Também fizeram parte do grupo dos eleitos o base argentino Facundo Campazzo (14.0 pontos, 6.6 assistências e 2.2 roubos de bola por jogo) assim como o seu companheiro de selecção o extremo Nicolás Brussino (12.0 pontos e 5.4 ressaltos de média). O lançador mexicano Francisco Cruz (16.8 pontos, 3.2 assistências, 3.0 ressaltos e 2.0 roubos de bola) completou o grupo dos melhores jogadores do torneio.

A grande novidade foi a composição da selecção dos USA que não apresentou nenhum dos melhores jogadores da principal competição da NBA, mas sim uma selecção dos melhores praticantes oriundos da NBA Development League (NBA D-League) uma espécie de liga de desenvolvimento dos clubes satélite da NBA. A maioria dos jogadores da selecção USA têm contrato com as equipas da NBA e, enquanto aguardam uma futura oportunidade de integrar a equipa principal, evoluem nesta competição secundária que conta já com 26 formações espalhadas pelo país. Mesmo assim, sem grande experiência internacional acabaram por se sagrar vencedores do AmeriCup 2017. Esta decisão foi um primeiro passo para libertar as estrelas da NBA das provas internacionais da FIBA e valorizar os jovens que actuam na (NBA G League), nomenclatura adoptada este ano devido ao acordo celebrado com um novo patrocinador, a Gatorade.

FIBA EuroBasket 2017

Data: 31 Agosto a 17 Setembro
Sistema de competição:
As 24 selecções nacionais europeias foram agrupadas em 4 grupos de 6 equipas cada, ficando apuradas as duas primeiras classificadas de cada grupo para a fase final. As fases de grupos realizaram-se na Finlândia, (Grupo A), Israel (Grupo B), Roménia (Grupo C) e Turquia (Grupo D), decorrendo a fase final em Istambul (Turquia).
Fase de Grupos:
Grupo A: Finlândia, França, Grécia, Islândia, Polónia e Eslovénia (Helsínquia).
Grupo B: Geórgia, Alemanha, Israel, Itália, Lituânia e Ucrânia (Tel Aviv).
Grupo C: Croácia, R. Checa, Hungria, Montenegro, Roménia e Espanha (Cluj-Napoca).
Grupo D: Bélgica, Grã Bretanha, Letónia, Rússia, Sérvia e Turquia (Istambul).
Fase Final
Quartos de final:
Grécia – 69 Rússia – 74; Itália – 67 Sérvia – 83
Alemanha – 72 Espanha – 84; Eslovénia – 103 Letónia – 97
Meias finais:
Espanha – 72 Eslovénia – 92
Rússia -79 Sérvia – 87
Apuramento do 3º e 4º classificado:
Espanha – 93 Rússia – 85
Final:
Eslovénia – 93 Sérvia - 85
Classificação final: 1º Eslovénia (ouro), 2º Sérvia (prata), 3º Espanha (bronze), 4º Rússia, 5º Letónia, 6º Alemanha, 7º Itália, 8º Grécia, 9º Lituânia, 10º Croácia, 11º Finlândia, 12º França, 13º Montenegro, 14º Turquia, 15º Ucrânia, 16º Hungria, 17º Geórgia, 18º Polónia, 19º Bélgica, 20º República Checa, 21º Israel, 22º Grã Bretanha, 23º Roménia e 24º Islândia.

MVP e Cinco ideal:
O capitão da selecção da Eslovénia, Goran Dragic, de 31 anos de idade, jogador dos Miami Heats (NBA) foi escolhido como MVP do evento, com uma média de 22.6 pontos e 5.1 assistências por jogo. Na final Dragic teve uma actuação sensacional marcando 35 pontos nos 3 primeiros períodos, antes de sair lesionado. Também, fez parte do cinco ideal o seu companheiro de equipa, Luka Doncic, o menino prodígio de 18 anos, que actua no Real Madrid, com uma média de 14.3 pontos, 8.1 ressaltos e 3.6 assistências por jogo. Integraram ainda o melhor quinteto, o espanhol Pau Gasol com 17.8 pontos e 7.8 ressaltos por jogo (2 vezes campeão pelos Lakers e All Star na NBA) (2 títulos, 2 vezes MVP e melhor marcador de sempre do EuroBasket), o sérvio Bodgan Bogdanovic (futura estrela da NBA) com uma média de 24.3 pontos e 5 assistencias e, ainda, o russo Aleksei Shved (ex-NBA) melhor marcador do EuroBasket 2017, com 24.3 pontos por jogo.

FIBA AfroBasket 2017

Data: (8 a 16 de Setembro)
Sistema de competição:
As 16 selecções apuradas foram divididas em 4 grupos de 4 equipas cada, apurando os dois primeiros classificados de cada grupo para a fase final. A fase de grupos decorreu em Dakar (Senegal) e Rades (Tunísia).
Fase de Grupos:
Grupo A: Costa do Marfim, R. Democrática do Congo, Mali e Nigéria (Rades).
Grupo B: Angola, República Centro Africana, Marrocos e Uganda (Dakar).
Grupo C: Camarões, Guiné, Rwanda, e Tunísia (Rades).
Grupo D: Egipto, Moçambique, Senegal e África do Sul (Dakar).
Fase Final
Entretanto, a fase final decorreu em Rades com a participação das oito equipas apuradas nos quatro grupos;
Quartos de final:
Marrocos – 66 Egipto – 62; Nigéria – 106 Camarões -91;
Tunísia – 81 R. Democrática do Congo – 60; Senegal – 66 Angola – 57
Meias finais:
Marrocos – 52 Tunísia – 60; Nigéria – 76 Senegal – 71
Apuramento do 3º e 4º classificado:
Senegal – 73 Marrocos – 62
Final:
Nigéria – 65 Tunísia - 77
Classificação final: 1º Tunísia (ouro), 2º Nigéria (prata), 3º Senegal (bronze), 4º Marrocos.

De estranhar que a classificação final apresentada apenas incluísse os quatro primeiros classificados. Economia de meios ou descuido da organização. Bom sinal foi o considerável aumento do número de espectadores nas duas fases do AfroBasket. Na fase de grupos, em Dakar (Senegal), registaram-se assistências record de 4.000 pessoas. Na fase final, na cidade de Rades (Tunísia) houve enchentes na ordem dos 12.000 espectadores quando a selecção tunisina actuava.

MVP e Cinco ideal:
O extremo Ike Diogu (Nigéria) aos 34 anos de idade, foi nomeado MVP do AfroBasket, com uma média de 22 pontos e 8.7 ressaltos por jogo, integrando naturalmente o cinco ideal da competição juntamente com o base da sua equipa Ikenna Iroegbu (Nigéria) com 14.8 pontos, 4.5 ressaltos e 5.0 assistencias por jogo. Igualmente, fizeram parte do quinteto ideal, o extremo Gorgui Dieng (Senegal) com uma média de 14.2 pontos e 6.8 ressaltos por jogo, e ainda a dupla de jogadores campeões Mourad Mabrouk (Tunísia) média de 9.3 pontos e 3.8 assistencias e Mohamed Hadidane (Tunísia) com 13.8 pontos, 5.7 ressaltos e 1.2 roubos de bola por jogo, dois jogadores decisivos na conquista do mais ambicionado título africano.

A selecção da Tunísia tinha no seu palmarés 4 medalhas de bronze (Egipto-1970, R.C.Africana-1974, Líbia-2009 e Tunísia-2015), 1 medalha de prata (Tunísia-1965) e 1 de ouro (Madagascar-2011) faltando a conquista do título em casa. Para que o sonho se concretizasse contrataram o técnico mais vitorioso nesta competição africana (AfroBasket) e quebraram o feitiço. Um justo aplauso para o bom trabalho realizado pelo consagrado treinador português, Mário Palma, que se torna no primeiro treinador, da história do basquetebol africano, a conquistar o título continental com duas selecções diferentes , 4 vezes com Angola e agora com a Tunísia.

A nova calendarização plurianual da FIBA, ao procurar imitar o que se passa no futebol, com a realização de jogos de qualificação nos meses de Novembro (2017) e Fevereiro (2018), tendo em vista o apuramento para o próximo campeonato mundial de selecções nacionais masculinas a realizar na China, parece-nos um erro estratégico de implicações futuras na composição das equipas nacionais. Todos os jogadores, que militam na NBA, ficam naturalmente impedidos de ajudar as respectivas selecções na qualificação para o Mundial China-2019, atendendo a que nestas datas (Novembro-2017 e Fevereiro-2018) estão a representar as suas equipas no campeonato de NBA, a que estão profissionalmente ligados (contratos milionários).

A NBA é a maior instituição do basquetebol profissional a nível mundial, de enorme impacto em todo o planeta e não brinca em serviço. Não impede os jogadores de participar nas selecções nacionais mas avisa o pessoal, mais descuidado, das suas responsabilidades profissionais. Quando um profissional de desporto se ausenta, embora por um período de tempo relativamente curto, para jogar pela sua selecção nacional, está a assumir um risco que pode colocar em causa a sua própria ligação contratual à entidade patronal (clube). O simples facto de não estar a contribuir para o sucesso da sua equipa ou a eventualidade de se lesionar são factores a ter em linha de conta para uma eventual rescisão contratual. Quem ideminiza os clubes quando os jogadores se lesionam ao serviço das selecções e ficam impedidos de jogar por tempo indeterminado?

Por essa razão, a FIBA não deve elaborar uma calendarização que impeça os melhores praticantes da modalidade de representar os seus países nas grandes competições internacionais, nem entrar em conflito com as Ligas profissionais que organizam as competições de clubes.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais