Sérgio Oliveira: - uma lição! (artigo de Manuel Sérgio, 210)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 03-10-17 7:14
Por Manuel Sérgio

Ortega y Gasset, sempre vibrante no seu humanismo, escreveu em Unas Lecciones de Metafisica: “Lo que hace más falta es ser”. Num dos livros em que fundamentei a minha tese de doutoramento, a Fenomenologia da Perceção, Maurice Merleau-Ponty declara: “interior e o exterior são inseparáveis. O mundo está todo dentro e eu estou todo fora de mim”. Ou seja, eu não sou eu senão fora de mim, no mundo, com os outros. Compreende-se, assim, a frase conhecidíssima de Ortega: “Eu sou eu e a minha circunstância e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. Procurando ter uma visão exatíssima do jogo Mónaco 0 – F.C.Porto 3, subscrevo, sem dificuidade, as palavras de Paulo Pinto, n’A Bola de 2017/9/27: “Demonstração de classe, numa exibição personalizada do F.C.Porto, no Mónaco, onde revelou ter dimensão europeia, apesar da entrada em falso na Champions, com a derrota caseira frente ao Besiktas.

Sérgio Conceição prometera na véspera dar uma prova de grandeza do clube e cumpriu na perfeição, graças a uma estratégia bem montada que aniquilou por completo o plano de jogo de Leonardo Jardim”. A impressionante e singular ressonância desta vitória vislumbra-se logo na Comunicação Social do dia seguinte, relevando a certeira eficácia de Aboubakar, a força e o talento de Marega. Vi o jogo pela televisão mas, dos jogadores portistas, a exibição que mais me surpreendeu foi a de Sérgio Oliveira que mereceu n’A Bola o justíssimo comentário seguinte: “Estreia absoluta do médio que não tinha feito até ontem qualquer jogo oficial. Uma surpresa de todo o tamanho em campo e também a surpreender tudo e todos, com jogo firme e personalizado. Deu corpo ao futebol dos dragões, com elegância, destreza de movimentos e controlo do espaço e da bola”.

Volto, de novo, a Ortega y Gasset: para verdadeiramente “ser”, preciso da minha “circunstância”. Ora, A Bola (2017/9/28), desta feita pelo jornalista Pascoal Sousa, explica-nos uma pessoa fundamental, na “circunstância” de Sérgio Oliveira: “Nada foi obra do acaso, como ficou comprovado pela exibição serena e personalizada do médio. Na época passada, os Sérgios, Conceição e Oliveira, trabalharam juntos no Nantes. O médio fez seis jogos na Liga Gaulesa, sempre na condição de suplente utilizado, o que, parecendo estranho, tem uma explicação lógica: o português estava tapado por uma dupla de médios que esteve na base da fabulosa recuperação empreendida pelo Nantes no campeonato: o capitão Gillet e o trinco Rongier (…).

Nesse intervalo, o seu talento foi sendo trabalhado e limado à medida dos desejos do técnico, durante toda a temporada passada e início desta (…). Perfeitamente identificado com o modelo do treinador, Sérgio Oliveira era, afinal, o segredo mais bem guardado de Conceição”. A radicalidade da interrogação: “Porquê o Sérgio Oliveira?” atenua-se, perante a explicação de Pascoal Sousa. O pensar é um exercício autónomo e pessoal e ninguém melhor do que o Sérgio Conceição sabia até onde poderia chegar o Sérgio Oliveira, estuante de força física e mental e ainda de imparáveis ambições. “São 124 anos de glória” afirmou o presidente Pinto da Costa, na passada quinta-feira, durante a cerimónia do hasteamento da bandeira, na porta 1 do Estádio do Dragão, no dia em que se festejou mais um ano de vida do Futebol Clube do Porto. Mas 124 anos de glória, corporizados pelo carinho e a devoção de figuras inolvidáveis… como o Sérgio Oliveira começou a ser. Porque é preciso ter mais do que futebol dentro da alma, para conseguir o desempenho harmonioso e cimeiro, que ele conseguiu, como um rei, em terras do Mónaco.

Fui amigo de José Maria Pedroto que me deu a honra de aproximar-se de mim (na companhia da Doutora Isabel Pedroto, sua querida Filha), para questionar-me, após uma conferência minha, num Congresso de Medicina Desportiva, na cidade de Espinho: “Quais são os erros que encontra no treino do futebol?”. Ele deixou-me sufocado de aflição, já que nada sabia (nem sei) de futebol, demais diante de um Mestre incontestável e incontestado desta modalidade desportiva. Mas, a partir desta interrogação, nasceu uma amizade e admiração mútuas, que eu conservo, como coisa rara, na minha memória. Guardo mesmo, nos meus papéis, uma carta de José Maria Pedroto, que só uma pessoa com a sua generosidade e a sua compreensão poderia escrever. Foi a ele que, na Pastelaria Petúlia (Rua de Júlio Dinis, Porto) eu escutei, a dizer-me: “Está a nascer um Futebol Clube do Porto novo”. E, com um otimismo tenaz e comunicativo, acrescentou: “ E com homens novos! Como o Jorge Nuno Pinto da Costa”. E, filosofando: “Sem homens novos, nada feito!”.

Homens novos, como o Sérgio Conceição e o Sérgio Oliveira. Treinador desportivo (e portanto treinador de futebol) é uma profissão que conjuga uma enorme diversidade de aptidões e exige uma vasta multiplicidade de saberes. Se bem penso, o departamento de futebol do Futuro deverá ter ao seu serviço especialidades várias, com muita informação e melhor cultura. Ao fim de 50 anos que levo de estudo, de investigação e de convívio tanto com treinadores de indiscutível mérito como com alguns dos nomes maiores da nossa cultura – posso adiantar, sem receio, que o treinador, na alta competição, tem de ser pai, juiz, psicólogo, filósofo, líder e ainda prático para mais rapidamente compreender e teórico para concluir que, no futebol (como no mais) nada é definitivo, nem paralisante.

Há poucos dias, escutando eu o que ele tinha a dizer-me acerca do Messi, disse-me um famoso treinador de futebol: “O treinador que pensa que o seu trabalho é mais importante que o talento dos jogadores é um pateta”. O Sérgio Conceição sabe isto mesmo, há muito tempo e… por experiência própria! O treinador não “faz” o jogador genial ou de talento, o treinador cria espaços e situações que permitem ao jogador desenvolver as virtualidades que são suas (do jogador), unicamente suas. A genialidade do treinador mede-se pela qualidade dos jogadores que soube escolher e, depois, desenvolver.

O que se passa, hoje, na equipa principal do Futebol Clube do Porto, é principalmente o trabalho ousado e criativo de uma figura de topo, no domínio do treino desportivo, o Sérgio Conceição, e a generosa e sincera adesão de todos os jogadores à filosofia de trabalho do seu treinador. E assim o Sérgio Oliveira e o Aboubakar e o Marega e os demais jogadores do “plantel” portista, ao praticarem o que o Sérgio Conceição idealizou e estudou, sentem (eu diria mesmo: vivem) o seu desenvolvimento, como jogadores de futebol, e o seu desenvolvimento como pessoas humanas, porque… “não há jogos, há pessoas que jogam”. O jogador de futebol é, antes do mais, uma pessoa humana e portanto o treino de um jogador de futebol deve ser tão antropológico como tático. Nós vivemos, segundo Edgar Morin, ”numa sociedade, onde as soluções que queremos levar aos outros se tornaram os nossos problemas” (A Via – Para o Futuro da Humanidade, Instituto Piaget, Lisboa, p. 27). Há muita gente que só fala de futebol, quando quer explicar o futebol. Ora, só com futebol não se explica o futebolista Sérgio Oliveira e o Sérgio Conceição sabe-o bem.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto