Olimpismo: Manifesto para uma nova consciência do Desporto (artigo Cláudia Santos, 3)

OLIMPISMO 03-10-17 2:18
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Émile Durkheim (1858-1917), considerado um dos pais da sociologia, questionava-se como é que, na era da modernidade, a sociedade podia manter a sua integridade e coerência, quando os laços que mantinha com a generalidade das instituições tradicionais estavam a ser postos em causa com o surgimento de novas instituições. Ao fazê-lo, Durkheim levantava a questão da “consciência coletiva” que entendia ser o conjunto de caraterísticas e conhecimentos comuns de uma sociedade, que fazem com que os indivíduos pensem e ajam de forma minimamente semelhante.

O conceito durkheimiano de “consciência coletiva” pode trazer um contributo para o desporto, espreitando para a época em que Pierre de Coubertin (1863-1937), a partir de 1888, enquanto líder do Movimento Olímpico (MO) assumia que, através da prática desportiva, estava a estabelecer uma rutura com as tradicionais escolas de ginástica organizada na Educação Física que, através do “mens sana in corpore sano” do poeta romano Juvenal, caraterizava o pensamento da época. E foi nesta lógica de mudança, de progresso, de inovação e de transformação social que, em finais do século XIX, o Olimpismo surgiu a desencadear uma nova consciência coletiva em matéria de atividades físicas de carácter recreativo consubstanciada nos valores do desporto para a educação, para a cultura e para a paz.

Ao contrário daquilo que é entendido pelo senso comum, para além dos Jogos Olímpicos e das medalhas olímpicas, o Olimpismo é uma filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano. Trata-se duma filosofia social desenvolvida pelo fundador do Movimento Olímpico em finais do séc. XIX, Barão Pierre de Coubertin (1863-1937), com um foco de interesse não só em atletas de elite como também na restante população, não só num curto período de tréguas mas para toda a vida, não só na competição e na vitória mas também nos valores de participação e cooperação, o desporto não só como uma atividade mas também como uma ferramenta pedagógica com influência na personalidade individual e na vida social.

Após cerca de cento e vinte anos da institucionalização do MO moderno, deparamo-nos com dificuldades inerentes à coerência entre a estrutura de princípios e valores do Olimpismo relativamente às dinâmicas da diversidade cultural, económica e política, nos mais diversos países e comunidades do Mundo, em que o Olimpismo na sua diversidade nos surge como um projeto de transformação sócio desportiva.

Muito embora o Olimpismo, segundo a Carta Olímpica, seja uma das propriedades do Comité Olímpico Internacional (COI), o conceito tem vindo a evoluir continuamente desde a sua institucionalização em finais do século XIX. No tempo de Pierre de Coubertin, suportado numa cultura de paz, o Olimpismo apoiava-se em três pilares fundamentais: o desporto, a educação e a cultura. Hoje, podemos dizer que são seis os pilares ideológicos que suportam o Movimento Olímpico. São eles: o desporto, a educação, a cultura, o ambiente, o desenvolvimento e a paz (Cf. Sérgio, M. et al. (2015). Olimpismo & Complexidade. FMH/UL).

Por isso, e dada a importância do desporto no mundo moderno, é fundamental que o Movimento Olímpico ganhe significação social global para além das campanhas de marketing político circunstancialmente desencadeadas pelos países anfitriões dos Jogos Olímpicos sem quaisquer consequências em termos de organização do futuro. Pelo contrário, o futuro e o desenvolvimento do Olimpismo e do seu movimento, passa por uma reflexão prospetiva acerca da sua dimensão axiológica passada, presente e futura, de modo a que, todos em conjunto, possamos dar início à construção de um léxico comum para que nos possamos entender nos discursos que produzimos.

Note-se que o Olimpismo é muito mais do que um sistema de princípios, valores, objetivos e projetos. O Olimpismo é um estado de espírito que integra um sistema de princípios, valores, objetivos e projetos. É, por isso, um denominador comum entre culturas que deve respeitar os sete Princípios Fundamentais da Carta Olímpica (CO), enquanto documento oficial de base, de natureza constitucional no qual, para além dos Princípios Fundamentais, constam as Regras e os Textos de Aplicação determinados pelo Comité Olímpico Internacional (COI) a ser adotados pelo Movimento Olímpico Internacional. Todos aqueles que, formal ou informalmente, pertencem ao Movimento Olímpico, a fim de cumprirem a sua função de difusores do ideal olímpico, devem reger-se pela Carta Olímpica.

No capítulo relativo aos “Princípios Fundamentais do Olimpismo”, o COI expressa a sua posição oficial da ideia olímpica com base na educação e cultura:

“O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e da mente. Aliando o desporto à cultura e educação, o Olimpismo procura ser criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais”.
Enquanto fundador dos Jogos Olímpicos modernos, Pierre de Coubertin pretendia que o Olimpismo fosse um projeto desportivo de valor pedagógico, político e social através do qual os jovens adquiriam habilidades físicas aliadas a capacidades intelectuais. Para o efeito, a ideia inicial de Coubertin foi a de integrar o desporto no sistema educativo de maneira a torná-lo acessível à generalidade das pessoas.

Em Janeiro de 1919, a poucas semanas do 25º aniversário da fundação do COI, Coubertin, na qualidade de Presidente desta mesma Instituição, após uma interrupção forçada devida à I Grande Guerra Mundial, escreveu uma carta dirigida aos seus membros, na qual propunha que todos os desportos fossem proporcionados a todos: “All sports for all people”. Quer dizer, “todos os desportos para todos”.

É neste sentido que integramos o pensamento de Coubertin no conceito de “consciência coletiva” proposto por Durkheim. Porque, o Olimpismo, enquanto projeto humanista que é, obriga a desenvolver um trabalho axiológico de transmissão e difusão dos valores do desporto enquanto filosofia de vida ao serviço do desenvolvimento humano.

E termino, neste começo do século XXI, com as palavras de Pierre de Coubertin, proferidas no discurso da festa de encerramento do congresso de Paris (1894): “… faço um brinde à ideia Olímpica, que tem atravessado como um raio de sol omnipotente a névoa dos tempos e volta para iluminar com luz de alegre esperança os umbrais do século XX”.

Cláudia Santos é Doutoranda em Sociologia e Gestão de Desporto, FMH- Universidade de Lisboa