Jorge Jesus e o Sporting Clube de Portugal (artigo de Manuel Sérgio, 208)

ÉTICA NO DESPORTO 18-09-17 1:54
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Quando alguém quer transformar uma empresa, ou um clube, ou uma escola, o que terá de fazer, em primeiro lugar, é mudar a linguagem dessa instituição. Quando a linguagem não muda, todos pensam igual e, quando todos pensam igual, ninguém está pensando. Jorge Jesus, hoje, não pensa igual à grande maioria dos “agentes do futebol”. Como nunca ensinei futebol a ninguém, a transformação que se nota na sua linguagem nada me deve, quero eu dizer: não resulta do convívio fraterno que vamos mantendo.

Ele não é treinador do Sporting, ou do Benfica, ele é, sobre o mais (assim mo diz) treinador de futebol; eu não tenho dois clubes, sou Belenenses e, portanto, de camisola azul e cruz ao peito. Depois, tanto o Jorge Jesus, como eu, tentamos orientar as nossas vidas pelo culto daqueles valores sem os quais não vale a pena viver. Fácil, portanto, o convívio entre dois “homens de boa vontade”!... Depois do jogo Olympiakos (2) – Sporting (3), um jogo inesquecível do Sporting a fazer lembrar os “cinco violinos”, pareceu-me evidente que o Sporting estruturalmente está outro. E o Rui Patrício? E os dois defesas-centrais? E o William Carvalho? E o Bruno Fernandes? E o Doumbia? E o Bas Dost? E o Gelson? E o Acuña? E o Battaglia? E o Bruno César? E os demais que eu não citei? Tudo gente tecnicamente admirável e ainda prestante e leal. Mas o que pode testemunhar-se, através do desempenho dos jogadores que compõem a equipa, é a sua vinculação espiritual aos grandes ideais, que dão (e deram) sentido ao Sporting Clube de Portugal. Ora, esta vinculação espiritual supõe uma revolução ao nível das mentalidades, supõe a nobreza moral de quem acredita no que faz e no que o seu treinador lhe propõe. De facto, hoje, os jogadores do Sporting acreditam no seu treinador. E começou aí a vitória do Sporting, em Atenas. E começou aí uma época desportiva que não tenho receio de antecipar que será bem diferente da “apagada e vil tristeza” doutras épocas.

E por que só ao fim da terceira época do Jorge Jesus, no Sporting, o futebol “leonino” surge com tamanha força competitiva e até… com “nota artística”? Porque, só agora, a estrutura sportinguista começou a responder, sem dificuldades, a questões que refletem as mais fundas preocupações de Jorge Jesus: l. Sem jogadores superdotados, disciplinados e animados por uma invencível vontade de vencer, não há grandes equipas, como não há grandes orquestras sem grandes intérpretes. O fundamental numa equipa de futebol não é a tática, mas a classe dos jogadores. Lembram-se do Barcelona de Guardiola? 2. A tática vem depois. Integra a competência do treinador, que é uma síntese de estudo, de experiência e de humildade para aprender com os insucessos. De facto, cada um dos nossos fracassos ensinam-nos algo que devemos aprender. 3. Só sabe de futebol quem sabe mais do que futebol. Escrevi, pela primeira vez, esta frase, na década de sessenta e julgo continuar atual. O líder ou é Homem, ou não pode ser líder. E ser Homem, hoje, é também saber navegar na complexidade dos problemas que, inevitavelmente nos assaltam. E quem diz complexidade diz conhecimento, diz organização e diz vontade de transformar. 5. Ter a consciência que se é mais inteligente sempre que se estabelece um diálogo com um especialista ou uma pessoa de tocante sabedoria. 6. Diálogo significa ouvir e falar: ouvir quem sabe e falar após o dilucidar das situações. Importa, por isso, que tanto a estrutura como o departamento de futebol assentem sobre as vivências dos futebolistas e o saber de verdadeiros trabalhadores do conhecimento. Para que um diálogo proveitoso e constante seja possível! Dialogar não pode significar condescendência com toda a sorte de parasitas que rodeiam um treinador de futebol. 7. E, por fim, revolução nas mentalidades, para que estrutura e departamento de futebol consciencializem que futebol é muito mais do que futebol. E, portanto, que uma cultura humanista é essencial, para ver claro, no amontoado de emoções e de incertezas, que varrem a mente de quem trabalha no futebol.

Tecem-se lendas muito caprichadas acerca dos treinadores de futebol. mas um ponto me parece certo: uma equipa, treinada pelo Jorge Jesus, distingue-se, simultaneamente, pela eficácia e pela beleza, ou seja, um futebol que satisfaz qualquer juízo estético. “Mas, se assim é, perguntarão alguns dos meus leitores, por que tem ele algumas épocas de inesquecíveis fracassos?”. A resposta parece-me fácil: “Fracassos todos têm. Mesmo os grandes treinadores. E gostaria agora que tivessem a bondade de acompanhar-me na leitura do livro Ciência e Destino Humano da autoria do filósofo brasileiro, Hilton Japiassu: teorizar e praticar cientificamente “não é um processo espontâneo do ser humano – exige que sejam superados alguns obstáculos e que sejam postas em questão as falsas evidências e os raciocínios erróneos. Porque a abordagem científica se constitui numa ruptura radical com nossos modos habituais de pensar e de expressar (…). Nada podemos fundamentar na opinião. Todo o conhecimento é uma resposta a uma questão. Se não houve questão, não pode haver conhecimento científico. Nada é óbvio. Nada é dado. Tudo é construído” (p. 209). E agora pergunto eu: “Se teorizar e praticar cientificamente exige que sejam superados alguns obstáculos, estaria o Sporting Clube de Portugal preparado para a concretização da “racionalidade relativamente a um fim”, quero eu dizer: estaria o S.C.P. preparado para vencer um Campeonato Nacional de Futebol? E vou mais além: saberiam alguns dirigentes do Sporting que não bastam as estruturas materiais, um ginásio modelarmente apetrechado, um departamento médico exemplar, pois que é preciso também preferir a lucidez ao protagonismo, a serenidade à crítica desapiedada, a sabedoria à opinião, visando o que o Sporting, hoje, mais quer, a vitória no Nacional de Futebol?

A história do Sporting C.P. inclui páginas gloriosas da história do desporto nacional; são sportinguistas pessoas que foram Mestres do Desporto e do mais puro desportivismo; entrar nas instalações do Sporting é sentir, na intimidade de cada um de nós, o respeito que se tem por uma escola ou por um templo. Em suma, quando se estuda a história do desporto nacional, recordam-se inevitavelmente os traços, os tempos, os factos, os dramas, os sucessos, as expectativas, os sonhos de muitos ilustres sportinguistas. Jorge Jesus que, desde menino, se habituou a sentir, através de seu pai, o que de mais autêntico existe na alma sportinguista; ele. que é um “homem de fronteiras”, ou seja, que abomina o absentismo, a ambiguidade e a indeterminação e que tem por si o apoio inteiro do Dr. Bruno de Carvalho; ele, que é de uma pertença sem fissuras à sua profissão e já provou que não lhe falta nem competência, designadamente a sua inimitável leitura de jogo, nem honestidade – o treinador de futebol Jorge Jesus apresta-se a contribuir, no Sporting, ao surgimento de tempos grávidos de mudança e de transformação, mudança e transformação, no corpo e na alma, pois que a plena maturação das qualidades dos futebolistas supõe trabalho constante ao nível da complexidade humana. Repito-me, a propósito: o Desporto não é tão-só uma Atividade Física porque, no Desporto, há movimento com intencionalidade, típicos de alguém que pretende transcender e transcender-se. Aliás, a transcendência é o modo-de-ser do treinador Jorge Jesus. Impressionável e vibrátil, ele não considera esgotadas as suas capacidades criativas. Nasceram tempos novos, no Sporting Clube de Portugal…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto