Mais uma carta aberta ao José Mourinho (artigo de Manuel Sérgio, 206)

ÉTICA NO DESPORTO 04-09-17 11:3
Por Manuel Sérgio

Querido Amigo:

Leio o Diário Volúvel de um dos maiores escritores do nosso tempo, o catalão Enrique Vila-Matas: “Os intelectuais mais lúcidos estão conscientes de que a elite a que pertenceram (a intelligentsia, esse estrato social que tem as suas origens mais longínquas nos guardiões da república platónica) está profundamente desanimada. Todos eles vêm constatando, desde há décadas, que tudo o que dizem e fazem não é ouvido, que se resume a uma proporção muito pequena de leitores, de estudantes, de eleitores ou de opinião pública” (p. 265). No entanto, embora o desinteresse popular, mormente no futebol, pelo conhecimento científico, pela vivência cultural deste fenómeno social, onde a clubite domina e aliena – embora tudo isto, não pode deixar de adicionar-se, no desporto em geral e no futebol em particular, a presença de profissionais, como o José Mourinho, investigadores que procuram, sem cessar, o conhecimento e lideram departamentos de uma organização modelar. No seu caso, para além dos dados científicos à disposição de todos os interessados, há que realçar e não esconder que o meu Amigo é um superdotado, intelectualmente falando. Querido Amigo (esta é a minha convicção) a grande diferença entre o José Mourinho e a esmagadora maioria dos demais treinadores de futebol não está nos livros que o meu Amigo tem e os outros não têm, mas na sua inteligência que o deixa ver, para além do aparente, do epidérmico, do superficial. Lembra-se, com toda a certeza, de uma quadra que eu tantas vezes repetia, nas minhas aulas: “Ver as coisas por fora / É fácil e vão. / Por dentro das coisas / É que as coisas são”. Uma inteligência invulgar a sua que, se o José Mourinho escrevesse um diário íntimo, ou o registo dos factos mais significativos da sua autobiografia, despontaria com inusitado fulgor.

Fui seu professor, procurando sempre, na medida das minhas posses, a transmissão de uma visão hominizante e humanizante do desporto; por generosidade sua, já me entrevistaram televisões das cinco partes do mundo; de mim se aproximaram também escritores e jornalistas, principalmente da Europa e da América Latina – e a inveja (a homenagem que as sombras prestam aos Homens) pode tentar injuriá-lo, mostra-se nervosa, incomodada com os seus êxitos, mas não pode apagar o seu currículo de treinador de futebol, que não tem par no mundo todo. Ocorre-me neste momento o Juca Kfouri, um jornalista brasileiro de renome, após uma entrevista que me fez, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e corre por aí, pelas redes sociais. Questionou-me ele, após a entrevista: “Porque é diferente, como treinador, o José Mourinho?”. E eu, sem qualquer receio, adiantei: “Porque é um treinador genial!”. De facto, quem como eu, de longe embora, acompanha o seu itinerário profissional, e que nada lhe ensinou de futebol, porque nada sabe de futebol, não encontra outra explicação, para as suas sucessivas e retumbantes vitórias, senão esta: o meu Amigo é mesmo um génio, como treinador de futebol. E com outra qualidade, indispensável a um líder do tempo em que vivemos: sabe organizar e liderar uma organização. Sem excluir, na organização (e portanto no departamento de futebol) os três conceitos de international learning que Peter Senge assim cristalizou: dialogar em equipa; promover o desenvolvimento pessoal; permitir a eclosão de uma visão partilhada, mantendo-se atento ao modelo mental de cada um. O génio precisa da informação e do trabalho intelectual de qualquer outro estudioso. A diferença está nas conclusões a que chega: são tão diferentes dos demais que até quem cresceu e se fez gente, num primeiro momento se assusta e repudia (muita luz ofende a vista)…

Propus, há um bom par de anos, na Faculdade de Motricidade Humana, a criação da disciplina de “Epistemologia da Motricidade Humana”, para que os conceitos de ciência, de investigação científica, de método científico e até de espírito científico merecessem uma judiciosa atenção e para refrear a tentação de uma adesão apressada a modas e modismos, que invadiram a vida universitária. A ciência não está na forma, está no conteúdo. A teoria não basta. De facto, é absolutamente necessário um conhecimento “teoricamente enquadrado, criticamente fundamentado e adequadamente apetrechado, a nível conceptual, terminológico e metodológico, tendo em vista um mais profundo tratamento hermenêutico, heurístico, experimental e processológico dos dados da experiência e dos demais dados da experiência e demais dados da fenomenologia do real” (Fernando Paulo do Carmo Baptista, A Sinfonia Universal Do Amor Fraterno, Instituto Piaget, Lisboa, p. 161). Mas, para mim, ando a dizê-lo há 40 anos: quem não pratica não sabe! É na prática que se mostra, sem margem para dúvidas, que se é, verdadeiramente, um trabalhador do conhecimento, um especialista, um sábio. Por isso, quando no desenrolar de qualquer conversa me perguntam: O que sabe de futebol? Respondo, resignadamente: “Nada!”. O que faço eu, quando falo de futebol, com “agentes do futebol”? Interdisciplinaridade, nada mais! Interdisciplinaridade que, através de um adequado e contextualizado encontro entre o desporto e a filosofia, possa resultar em inovadora síntese. De futebol sabe o meu Amigo: campeão em Portugal, em Inglaterra, na Itália, em Espanha e quatro vezes, na Europa. Hoje, não sou um idealista, nem um materialista – sou um humanista. Por isso, rejeito, frontalmente, a ditadura do capital e o império do lucro. Porque sou contra o capital e o lucro? Não! Porque antes do capital e do lucro está o ser humano!

O humanismo, para mim, não é uma ciência, nem uma religião, nem um sistema económico. Trata-se de uma ética, ou seja, de um conjunto de princípios que se impõem, incondicionalmente, à minha consciência. E que pode aplicar-se, sem receio, no treino e na competição. É que, no Desporto, o fundamento dos fundamentos científicos reside aqui: na prática desportiva, é o ser humano o que se estuda e o que se trabalha e o que se lidera! Passou o tempo em que o treino era, acima de tudo, preparação física. Após a “viragem antropocêntrica” que alguns estudiosos e treinadores (e o meu Amigo foi dos primeiros) vêm propondo; após a propositura de um novo paradigma, onde se afirme, sem tibiezas, a centralidade da complexidade humana, no processo educacional e desportivo; após a consagração das ciências humanas e das humanidades como a base de um plano curricular, para o Desporto, no Ensino Básico e Secundário e Superior – é tempo de reconhecer que o “erro de Descartes” imperou, durante mais de 300 anos, na ginástica, no jogo e no desporto e que o questionamento indagativo, nesta área do conhecimento, é basicamente biológico e constantemente cultural e ético. Atualmente, os mais informados livros sobre o treino dizem todos o mesmo e é na cultura e na ética dos treinadores e dos jogadores e é na organização e poder financeiro dos clubes que poderemos encontrar, finalmente, as razões mais evidentes do sucesso ou do insucesso das equipas. Nas minhas singelas apreciações que venho realizando aos desempenhos das suas equipas, nunca deixo de assinalar que o meu Amigo é, para mim, o melhor treinador do mundo porque é, sobre o mais, intelectualmente, um superdotado. E, por isso, vê mais depressa e mais longe do que os seus colegas de profissão… que eu atentamente observo (outros há, que não conheço). Não me esqueço o que aprendi, na Fenomenologia da Perceção, de Merleau-Ponty: eu conheço aquilo que sou! E, porque o meu Amigo conhece aquilo que é, nem tenho receio de adiantar o nome do próximo campeão inglês: o Manchester United!

E termino com um abraço do seu velho professor e hoje o mais modesto dos seus admiradores e discípulos.

PS.: Nesta carta, não referi o muito que os treinadores portugueses lhe devem. Mas já o fiz noutras situações, se bem se lembra. Ex corde.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto