Jorge Carlos Fonseca: - literatura de descontinuidade (artigo de Manuel Sérgio, 203)

ÉTICA NO DESPORTO 25-07-17 1:39
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O Albergue Espanhol, livro recém-editado pela Rosa de Porcelana Editora (Lisboa, 2017), de Jorge Carlos Fonseca, atual Presidente da República de Cabo Verde, é a muitos títulos um livro surpreendente, tanto pelo ineditismo da forma (ora, parece obra poética, ora dá lugar à inesperada variante de um romance, ou de um ensaio até), como pela maneira de tudo abordar, com uma pessoalíssima naturalidade e originalidade, tentando ultrapassar as grandes encruzilhadas ideológicas e filosóficas do nosso tempo.

Gadamer elaborou, a partir da linguagem, uma ontologia. Será de realçar que ele, na obra Verdade e Método, lembra, repetidas vezes, a relação de mútua dependência existente, entre a linguagem e o pensamento. Jorge Carlos Fonseca, em 1973, ainda em pleno colonialismo portanto, foi expulso da Universidade e incorporado compulsivamente no exército, donde lépido fugiu para ingressar na clandestinidade. Deambulou, sempre na clandestinidade, por Breton, Lautréamont, Tzara, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Debord e por tudo o que se tornou importante, durante o século XX, desde o marxismo ao surrealismo, da descolonização à emancipação da mulher, da física quântica à arte abstrata, do socialismo e do fascismo à sociedade de consumo. Conspirou, em nome da radicalidade, da liberdade, da utopia e… por amor à causa da libertação das colónias e de todos os colonizados por todas as formas de colonialismo. Em finais do século XX, desatou a escrever: escreveu livros, lançou jornais e hospedou René Char, durante 27 dias e 27 noites, no quarto sul da sua casa, na cidade da Praia, na Achada de Santo António, onde discutiram apaixonadamente o título de um livro: Porcos em delírio ou Porcos em Liberdade. Foi diplomata, foi ministro, foi professor nas Faculdades de Direito de Lisboa e de Macau (aliás, trata-se de um jurista de excelência), é Presidente da República. E é, sobre o mais, diante de qualquer impasse intelectual, social, político, uma prosa que se torna militante, uma poesia que se diz e faz intérprete das grandes emoções, das grandes aspirações coletivas.

Voltemos a Gadamer: se todo o processo de compreensão e de interpretação se realiza, através da linguagem, um livro como O Albergue Espanhol é, sem margem para dúvidas, um acontecimento histórico-linguístico. Nele vive-se a diferença, num tempo em que uma revolução paradigmática já se descortina no horizonte. À ditadura económica dos mercados que parece padronizar a Terra inteira (85% das músicas gravadas, vendidas no mundo todo, produzem-nas tão-só quatro grandes grupos; Hollywood controla 80% do mercado mundial do cinema; a McDonald’s, a Coca-Cola, inúmeros restaurantes de fast-food implantaram-se já, nos cinco continentes); ao progresso ininterrupto da tecnociência, da tecnologia, onde há muita ciência (ainda bem!) e absoluta neutralidade diante de alguns valores (o que se lastima!); aos media ao serviço do hipercapitalismo de consumo e de um hiperindividualismo neoniilista e das paixões do alto rendimento desportivo – a tudo isto importa contrapor os valores humanistas primaciais, como a liberdade e a vontade de “garrar”, de vogar ao sabor da corrente.

“Celebérrima foi a discussão sobre ancoragem (…). Nas cidades, debatia-se com vigor, com entusiasmo contagiante, com briga mesmo, quixotescamente por vezes, no ambiente quase sempre fogoso dos políticos e comentadores invariavelmente superlativos, se as cidades e seus habitantes deveriam ancorar-se aqui ou acolá (…). Mas afinal (veio a saber-se) o romance e o seu programador não queriam saber de âncoras. Delas maldiziam! Acima de tudo, não tinham fé alguma nelas. O que o romance e as cidades queriam era viajar com liberdade, devanear, joeirar, vagabundear por mares e continentes, sem amarras, sem âncoras, esvoaçar, descabelar e apaixonar-se por mil rostos, mil corpos e portos (…). Enfim desancorar sempre, à melhor oportunidade (op. cit., pp. 174/175). Aliás, diante do “nós” exclusivo e excludente do fascismo, Jorge Carlos Fonseca nunca hesitou em responder: “Liberdade, liberdade, liberdade, sempre! Liberdade, acima de tudo!” (p. 175). Não se tratou de antecipar o futuro mas, pela transcendência (ou superação), anunciar o possível…

O Albergue Espanhol é, todo ele, uma literatura de descontinuidade, como há muito já não se descobria na literatura portuguesa. Com este livro, Jorge Carlos Fonseca mostra, por vezes até com a intemperança verbal do polemista, que abandonou velhos preconceitos, desvinculou-se de antigas ideologias, cortou amarras, demandou (digamos em linguagem atual) novos paradigmas. Sim, os surrealistas, designadamente Breton, emergem da prosa e da poesia de Jorge Carlos Fonseca. Mas também Bachelard, Althusser, Foucault, Popper, Kuhn, Feyerabend, os autores de um corte epistemológico e político, espíritos dialéticos onde em cada tese desponta uma antítese, onde em cada síntese há a tese de uma nova antítese. E dialética que não decorre do ódio, ou de mero capricho ou de antipático orgulho, mas da convicta adesão àqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente. “Disse-lhe Deus: já que pediste esta coisa e não pediste longevidade, nem riquezas, nem a morte dos teus inimigos; mas pediste entendimento, para discernires o que é justo; eis que faço segundo as tuas palavras: dou-te coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá” (p. 185). Jorge Carlos Fonseca não se queda, diletante, apenas pela saborosa vivacidade das palavras, por breves considerações sobre as várias sensibilidades literárias, procura, com imparável curiosidade, o enigma humano. E, por isso, aplaude sobretudo os artistas bifrontes, ora implacavelmente argutos, ora “loucos sem remédio”, como os classifica o senso comum. O Albergue Espanhol tem aspetos que julgo dever relevar-se, na literatura portuguesa dos nossos dias: há nele uma solidariedade sem fronteiras com todos os que, procurando, se procuram, com todos os que, com o seu “suplemento de alma”, criam paradigmas literários, que legitimam e determinam transformações históricas.

“Quod erat demonstrandum”, o escritor (e poeta) Jorge Carlos Fonseca, Presidente da República de Cabo Verde, fez do seu livro um dos factos culturais, em língua portuguesa, de maior importância, no ano de 2017. Não apenas por vir enriquecer a história literária do seu País e, como tal, a própria literatura portuguesa, mas, e sobretudo, pela extraordinária qualidade do conteúdo, só ao alcance de uma pessoa da sua estatura moral, cultural e política e ainda pela oportunidade da publicação numa altura em que a língua portuguesa se afirma como uma das línguas mais faladas do mundo. Pelas suas qualidades intelectuais, pela sua imaginação, pela sua literatura de descontinuidade, ou seja, criadora e produtora de um tempo novo e mensagem para um novo tempo - Jorge Carlos Fonseca “nunca seria capaz de escrever carta a diretor de jornal, nestes termos: Não há razões para viver, mas também não há razões para morrer. Desejaria, senhor diretor, que através desta carta os jovens da sua cidade compreendessem que a única maneira que nos permite demonstrar o nosso desprezo pela vida, é aceitá-la” (p. 208). Até porque somos nós, cada um de nós, que a fazemos e a denominamos. Vivemos um tempo em que a democracia neoliberal nos conduziu a uma visão a-social do sujeito. Valoriza-se o indivíduo, como ser autónomo e racional, em desfavor das relações que o constituem.

Por isso, assim termina ele O Albergue Espanhol: “afinal / o ortónimo do romance / poema / era já / à nascença” (p. 210). Cada nova geração apresenta-se com um dinamismo ideológico, distinto das demais gerações – mas ideologia que tem lastro, que tem História e precisa portanto de reelaborar-se, para ganhar contemporaneidade e portanto uma geração poder assumi-la e cantá-la e dizê-la “urbi et orbi”. A cultura é mais sabor do que saber. A República de Cabo Verde precisa de um líder que saiba porque sente, porque há nele uma rutura consciente com uma demagogia tristemente retrógrada, que se escuta, ao longo e ao largo da África de hoje (ao longo e ao largo do mundo de hoje). A República de Cabo Verde precisa de um líder. Ele aí está: é o escritor Jorge Carlos Fonseca!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto