O calcanhar de Aquiles (artigo de Manuel Sérgio, 202)

ÉTICA NO DESPORTO 18-07-17 3:32
Por Manuel Sérgio

No magistério crítico que o Padre Manuel Antunes, durante longos anos exerceu na vida intelectual portuguesa, as suas aulas de História da Cultura Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foram talvez as que mais fama lhe granjearam, como estudioso e mestre. A sua repescagem dos mitos clássicos, para que nós (os alunos) soubéssemos encontrar, no mistério da vida, a coexistência entre o conhecimento mítico e o conhecimento científico tornou-se inesquecível. Entre as lendas estudadas, recordo a do calcanhar de Aquiles. Segundo esta lenda grega, Aquiles, filho do rei Peteu e da deusa Tétis, ficou invulnerável a qualquer ataque, ou traição, ou doença, porque ao nascer foi banhado pela mãe nas águas do rio Estige. No entanto, o calcanhar por onde Tétis o segurou, no batismo forçado, não se molhou nas águas correntes do rio Estige e, daí, a vulnerabilidade, unicamente do calcanhar, de Aquiles e a invulnerabilidade de tudo o mais que era o corpo do filho de Peteu e de Tétis. Ou seja, os escritores, os cientistas, os filósofos, os atletas, os artistas, os místicos, de maior relevância e significado – todos têm o seu calcanhar de Aquiles, em todos se descobre o sinal de que são humanos, só humanos, nada mais do que humanos. Em poucas palavras: todos têm o seu ponto fraco, escondido no meio do esplendor das suas qualidades. Folheava, há pouco, com deleite, um texto da Obra Completa do Padre António Vieira (o meu singelo aplauso, com o meu mais vivo reconhecimento, aos seus coordenadores, os Profs. José Eduardo Franco, João Francisco Marques, Pedro Calafate e Carlos Maduro) quando me ocorreu um pensamento: “Será possível que, num homem como o Padre António Vieira que, para além de “imperador da língua portuguesa”, se ergueu contra a Inquisição e as suas nefastas práticas judiciais, que lamentou a expulsão dos judeus, que exigiu o fim da discriminação entre os cristãos novos e os cristãos velhos e condenou abertamente as condições opressivas do trabalho escravo – será possível encontrar defeitos, num homem como o Padre António Vieira?”. Sem dúvida! “Errare humanum est”. Quem é humano erra, inevitavelmente. Embora, em Vieira, sejam pequenos, quase impercetíveis, os erros, diante da grandeza das suas qualidades, digamos sem receio: das suas virtudes…

Mas, a propósito do calcanhar de Aquiles, descobrimo-lo, nas várias definições de desporto que por aí andam. Não remonto aos gregos que faziam da ginástica boa parte da sua pedagogia (da sua paideia) e que sustentavam mesmo que é impossível a excelência moral (arete) sem a ginástica. Era fortíssima e consciente a conotação entre a ginástica e a moral, entre as virtudes cívicas e as ideias pedagógicas, em Platão, por exemplo. A este propósito, vale a pena a leitura da célebre obra de Werner Jaeger, Paideia (de leitura obrigatória, nas aulas do Padre Manuel Antunes): “O ateniense daqueles tempos mostrava mais à-vontade, no ginásio, do que na sua própria casa, onde dormia e comia. No ginásio, sob a luz diáfana do sol grego, reuniam-se diariamente os novos e os velhos, para executarem os exercícios inerentes ao cultivo do corpo. No intervalo entre alguns exercícios, os atenienses conversavam, assumindo especial relevância os diálogos, os devaneios, as sugestões de caráter filosófico. Não foi por mero acaso que as duas mais famosas escolas filosóficas do mundo, Academia e Liceu, conservassem o nome de dois famosos ginásios de Atenas”. Ou seja, numa Atenas povoada de ginásios, públicos e privados, a Academia e o Liceu transformaram-se em duas famosas escolas de Filosofia, respetivamente a de Platão e a de Aristóteles – sinal certo de que, para os gregos, não havia desporto sem filosofia, nem filosofia sem desporto. Já em pleno domínio da Roma imperial, Cícero deu à palavra grega paideia a tradução de humanitas, acentuando assim que, na paideia, era o homem todo (diríamos hoje: corpo-alma, razão-emoção, natureza-cultura) que se cultivava. E com os ideais humanistas de então que o Renascimento tentou, depois, restaurar e corporizar.

Mas, no nosso mundo hipercapitalista, em tudo é preciso encontrar e fazer lucro. E, por isso, no desporto, é o praticante de elite, o campeão mediático, os espetáculos multitudinários que atravessam os media, as redes digitais, procurando fomentar a ideia de que o desporto é só isto e nada mais do que isto. Desportistas são o Messi e o Ronaldo e o Iniesta, etc., etc. O desporto-educação, o desporto-lazer praticamente não existem, num mundo onde o que mais conta é o dinheiro, é o negócio, é o lucro. Por seu turno, os jovens são levados a concluir que os ingredientes essenciais da prática desportiva estão, sem margem para dúvidas, única e exclusivamente, nos campeonatos do mundo, ou nos jogos olímpicos e… nos desempenhos dos atletas superdotados e supertreinados. No entanto, o que eu e outros estudiosos reivindicamos, acima do mais, para a prática desportiva, são as suas virtualidades educativas, pedagógicas, para todos, campeões ou simples praticantes do lazer desportivo. Num livrinho da minha autoria, com 18 anos de vida, Algumas Teses sobre o Desporto, pode ler-se: “Admirar um atleta de qualidades motoras inigualáveis, de uma espantosa expressão corporal, de um rigoroso empenhamento competitivo – bem é, conquanto tal não signifique (como acontece tantas vezes) nivelamento por baixo de todas as manifestações críticas e criadoras do Homem e anestesia e sonolência, no trabalho de transformação da sociedade injusta estabelecida. O espectáculo desportivo, ao quantificar, simplificar, imediatizar, uniformizar, pode robotizar e embrutecer” (p. 13). Há uma escolástica decadente, que predomina nos media (incapaz de renovar-se porque é sempre a mesma, através dos anos) e que se afirma tão-só no culto dos desempenhos dos campeões. Ora, o desporto tem valores que não se subordinam aos ditames da “sociedade de mercado” e do hedonismo consumista - valores onde aliás radica o desporto-para-todos…

O calcanhar de Aquiles de muitas definições do Desporto, de muitas políticas desportivas e até de muitas “orações de sapiência” dos especialistas nestes assuntos da “coisa desportiva” situa-se no esquecimento de que, nem politica, nem eticamente, a educação é uma atividade neutral, pois que educar supõe a concretização de valores. Educar não se resume a instruir tão-só, mas também a esclarecer o sentido da vida. Como Santo Agostinho assinalava, os dois maiores perigos que nos podem acontecer são um desespero sem saída e uma esperança sem fundamento. É portanto pouco ensinar aos alunos que “o desporto é uma prática salutar” se não se ensina também que, por ele, torna-se possível ser mais justo, mais solidário, mais fraterno, mais feliz em suma. E o primeiro fator de saúde é, de facto, a felicidade. “O desporto é uma prática salutar” não só porque nos ensina a correr, a saltar e a jogar, mas também porque nos ensina a correr, a saltar e a jogar – com valores! A lógica do marketing, da mediatização e do star-system não podem ser tudo, na prática desportiva. Hoje, as vedetas da televisão falam de qualquer assunto com o à-vontade de quem tem a última palavra, na análise de um problema. Emerge assim do nosso tempo uma hipertrofia de afirmações, de opiniões, de sentenças que significa, sobre o mais, mera verborreia, superficialidade, fuga ao essencial. Eu sei que a performance desportiva, desde a formação ao alto rendimento, precisa de equipamentos e materiais, advenientes do espantoso progresso que atualmente se processa ao nível da tecnologia e da eficiência organizacional. Sensores, aplicações móveis, sistemas de vídeo, dados biométricos, dispositivos eletrónicos, etc., etc. fazem parte do treino diário de um atleta. Mas o desporto, se é isto, não é só isto. É também um espaço onde se aprendem atitudes, valores e normas de transformação pessoal, social, política. Reside aqui o calcanhar de Aquiles de alguns pedagogos do desporto: ensinam desporto, como se falassem em nome do totalitarismo económico dos mercados…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto