António Augusto da Silva Martins (artigo de Manuel Sérgio, 197)

ÉTICA NO DESPORTO 12-06-17 11:26
Por Manuel Sérgio

O meu respeitável Amigo Acácio Rosa, pioneiro do desporto, em Portugal, e belenenses de um amor incomparável pelo seu Clube, com a sua mão pálida e trémula muitos velhos jornais abriu para relembrar e relembrar-me, com um sorriso de comprazimento, homens, acontecimentos, triunfos inesquecíveis da história do nosso desporto. Estou a ver a saleta grave da sua casa, com as paredes cobertas de quadros, lembranças da sua vida de praticante e dirigente desportivos e o Acácio, voz roufenha mas pujante, tirando a limpo muitas das questões que eu levantava. Ele que empolgava as assembleias gerais do Belenenses, não pelas ardilezas e pelas astúcias da retórica, mas pelo conhecimento vivido dos factos, também a mim me emocionava, por vezes, com o que me dizia. Uma tarde, uma nesga de sol luzia pelas persianas mal cerradas, perguntei-lhe: “Qual, para o meu Amigo, foi o maior atleta português de todos os tempos?”. Meditou longamente, antes de responder-me. Não era assunto que se entregasse ao acaso da improvisação. Mas adiantou uma resposta: “Não é fácil o que me pede. Já há muitos anos o Salazar Carreira falou-me do Dr. António Augusto da Silva Martins, como o mais completo atleta português que ele conhecera. Recordo, perfeitamente, o brutal acidente, com uma arma de fogo, que o vitimou. Foi notícia muito badalada. O Dr. António Martins era um médico e cirurgião muito respeitado”. Não escondi a surpresa: “Sou professor de História do Desporto e nunca ouvi falar, como atleta, do médico António Augusto da Silva Martins”. E o Acácio Rosa acrescentou: “E olhe que pela admiração extasiada do Salazar Carreira foi, com toda a certeza, um atleta excecional”. Para mim, frequentador assíduo dos Estádios das Salésias e do Restelo. o Matos Fernandes, atleta do Benfica, tinha sido, até à década de 70, o atleta mais completo que eu pudera contemplar. Demais, naqueles anos distantes, o melhor dos declatonistas portugueses…

José Salazar Carreira foi médico de profissão e um dos nomes maiores da história do Sporting Clube de Portugal. Faleceu, em Dezembro de 1974, com 80 anos de idade e, atleta eclético, representou o Sporting, em várias modalidades desportivas. No que ao desporto português diz respeito, era pessoa de larga erudição. Informou-me, anos depois, o Dr. Armando Rocha, diretor-geral da Educação Física e Desportos, que o Dr. Salazar Carreira escreveu os “Dez Mandamentos do Sportinguista”, onde brilhava um apaixonado amor pelo seu Clube. Mas, porque o Dr. Salazar Carreira era reconhecido como um desportista “de larga erudição”, nunca mais esqueci o nome do seu ídolo, o médico-cirurgião e atleta António Augusto da Silva Martins. Há poucos dias, em cerimónia pública, organizada pelo CNID – Clube Nacional da Imprensa Desportiva, sentei-me ao lado do Professor António Gentil Martins, ex-bastonário da Ordem dos Médicos e cirurgião pediátrico de renome internacional. Em 1978, o Prof. Gentil Martins foi o primeiro cirurgião português a conseguir a separação de gémeos siameses. Enfim, figura insigne, na cirurgia nacional e internacional. Mas também desportista de indiscutível relevo. Foi atleta olímpico nos Jogos de Roma (1960), na modalidade de Tiro; fundador e primeiro presidente da Associação dos Atletas Olímpicos (voltou a ser presidente de 2017 a 2020): membro da Academia Olímpica; mestre atirador, com pistola automáticas, a 25 metros; 12 vezes internacional, com pistola de velocidade, a 25 metros; em 1952, foi vice-campeão universitário dos 400 metros barreiras; também em 1952, foi campeão de Lisboa de Badminton e nacional de voleibol; Prémio Nacional de Ética no Desporto. E, porque muito mais havia a referir e o espaço que me concedem tem regras, não avanço mais ao longo do currículo desportivo de António Gentil Martins.

Não perdi assim a oportunidade de indagar a razão primeira de nele coexistirem o médico-cirurgião e o praticante exímio do desporto. “É genético (disse-me ele). Meu Pai foi. para mim e para muita gente ilustre, o mais completo atleta português de todos os tempos”. Insisti ainda: “E qual o nome do senhor seu pai?”. Balbuciou emocionado: “O médico-cirurgião, Dr. António Augusto da Silva Martins”. Embora o Dr. António Martins já fosse para mim memória a desvanecer-se, não esqueci a conversa com o Acácio Rosa. Acrescentei, por isso: “Portanto é filho…”. E ele completou: “De um grande médico que foi também um grande atleta”. E continua o Dr. Gentil Martins: “O seu currículo académico, científico e desportivo é, sem exagero, extraordinário. Vou oferecer-lhe um livro que tem, como título, o nome do meu pai, editado pela Chiado Editora, onde poderá colher um conhecimento minucioso do que ele conseguiu e realizou”. O livro, da autoria de Inês Gentil Martins, com a colaboração de António Gentil Martins assim se titula: António Augusto da Silva Martins – o mais completo atleta português de todos os tempos (Chiado Editora, Lisboa, 2015). Remeteu-o o Prof. António Gentil Martins, para minha casa e já o li. E, como sensível criatura que sou, num ato de fundo respeito e larga compreensão! Por isso curvo-me diante da memória de um superdotado à prática desportiva e simultaneamente vulto do maior realce no conhecimento científico, na medicina, na cirurgia. Tendo falecido tão-só com 38 anos de idade, no dia 3 de Outubro de 1930, representou, com brilho, um tempo onde fulgiram as letras, progrediu a tecnociência, prosperou o comércio e a indústria, multiplicaram-se as estradas e as vias férreas, melhorou a vida com a progressiva institucionalização do bem-estar e o desporto vivia a sua infância, iluminando a Europa (principalmente a Europa) com clarões de vivíssimo fulgor.

António Augusto da Silva Martins conquistou “12 títulos de Campeão de Portugal e 10 recordes no lançamento do Peso, Disco, Dardo, Salto em Altura, Salto em Comprimento, Salto em Largura, 28 títulos de Campeão de Portugal e 11 recordes em carabina de precisão, arma livre, arma de guerra, pistola livre, pistola de velocidade, vencedor de Matches Latinos, em carabina e pistola livre; 1º. no campeonato do mundo, com espingarda de guerra, na posição de pé; em 1928, olímpico, em tiro à bala e disco. Representou sempre o CIF e a Sociedade de Tiro nº. 2. Médico e cirurgião, com inexcedível dedicação aos doentes que tantas vezes tratou gratuitamente e aos quais chegou a dar o seu próprio sangue, destacando-se pela meticulosidade e rigor na observação clínica, pela precisão, certeza, elegância e técnica operatória absolutamente perfeita”, era “cirurgião dos Hospitais Civis de Lisboa, em vésperas de se tornar Professor da Faculdade de Medicina de Lisboa, quando morre por acidente aos 38 anos” (op. cit., p. 9). De salientar ainda que foi colaborador de Egas Moniz, nos trabalhos de investigação que garantiram ao célebre neurologista português o Prémio Nobel de Medicina e de Fisiologia. Foi também um admirável artista, com aguarelas da mais fina sensibilidade; médico voluntário na Primeira Grande Guerra; e, “finis coronat opus”, um Pai e um Marido sem mácula (aliás, de uma ternura comovente pela Mulher e pelos Filhos). Assim se compreende que o Presidente da República, Doutor Sidónio Pais (que o conheceu, ainda estudante, na Universidade de Coimbra) tenha afirmado publicamente: “O Dr. António Augusto da Silva Martins vai ser, mais tarde ou mais cedo, um dos mais brilhantes espíritos da vida intelectual portuguesa”. E foi! Sem deixar de ser também pessoa de perfeita honorabilidade familiar e pessoal e um atleta que deslumbrou todos os que o viram atuar. Regozijemo-nos com o facto de, na história do desporto português, encontrarmos o nome do Dr. António Martins (era assim mais conhecido), um atleta para ser recordado, aplaudido e estudado até.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto