A Estrutura ou o Rui Vitória? (artigo de Manuel Sérgio, 195)

ÉTICA NO DESPORTO 30-05-17 12:53
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Nos meus papéis, topam-se registos que neles fui vertendo, semana a semana, sobre o comportamento das nossas equipas de futebol que disputam a primeira divisão do Nacional de Futebol e, sem um assomo que seja de facciosismo, escrevo, agora, em linguagem chã e singela, que a “dobradinha” (o Campeonato e a Taça) na época de 1916/1917, foi o Benfica quem a conquistou porque a mereceu. Os últimos quatro campeonatos ficaram recheados de muita e compreensível alegria benfiquista. E a que se deve o “fenómeno”: à competência do Rui Vitória, ou à sábia liderança da estrutura? E o que é a estrutura?...

Comecemos já pela estrutura: é o presidente da Direção (que decide, por fim, para além de tudo e de todos e ponderadas as razões que lhe chegam, prenhes de ponderações cientes) acompanhado pelos restantes membros da Direção e assessorado por autênticos “trabalhadores do conhecimento”, com especial relevo o treinador principal – como o exige a Sociedade do Conhecimento, que é a nossa. Em poucas palavras: estrutura é a Direção, alicerçada na sua comprovada experiência e na competência do treinador principal e de especialistas em determinadas áreas do conhecimento. De facto, a fonte de sucesso e de progresso, numa instituição, onde se promove e pratica a alta competição desportiva, é uma liderança (serena, firme) de grande lucidez e o trabalho, em interdisciplinaridade, de especialistas em várias disciplinas. Hoje (estamos em 2017) a maior riqueza de uma instituição, ou de um país, é o conhecimento, dentro de um rigoroso equilíbrio financeiro e em prol de objetivos predefinidos e contratualizados! Eu posso dizer mais: a organização de um clube, onde a alta competição se pratica, ou reconhece que o conhecimento é o elemento principal, que subjaz à inovação e à competitividade; ou é. ele também, um espaço de criação, difusão e exploração do conhecimento – ou não tem Futuro!

Costumo dizer que “quem só teoriza não sabe e quem só pratica repete”. Não podem, nem devem, os licenciados, mestres, ou doutores em Desporto olhar, com insolente sobranceria, os “práticos”, os que trabalham de todo arredios da leitura de textos de bom nível científico e filosófico. Por esta razão muito simples: só se sabe o que se vive e um conhecimento unicamente livresco esquece, por vezes, a necessária aplicação prática da teoria. Prática e teoria são elementos indispensáveis do mesmo todo. As capacidades e competências deverão apresentar-se associadas ao conhecimento. Que o Benfica sabe o que venho de escrever – não tenho dúvidas! Por outro lado, entre as múltiplas deficiências que em mim reconheço, avulta uma: nunca pratiquei futebol federado. Se bem que tenha estudado (e estudo) filosofia e epistemologia do Desporto e da Motricidade Humana, tenho a sensação que “sofro” de demasiada teoria e sei pouco, portanto. Dou agora (e respeitosamente) a palavra a Eduardo Lourenço: “Desde o século XVIII que os intelectuais reclamaram, como seu dever e direito, o lugar da clarividência. Como se chamavam Voltaire, Diderot, Lessing ou Rousseau, a pretensão não era descabida (…). Esta extraordinária linhagem de contestatários da sociedade, ou de um poder particularmente perverso, criou no Ocidente (e apenas no Ocidente) uma cultura de clarividência de que certos intelectuais, ou países, são os naturais sacerdotes e guardiões do Templo”. Mas refere Eduardo Lourenço: “Foi sempre uma ilusão este monopólio da boa consciência” (Crónicas Quase Marcianas, Gradiva, 2016, p. 19). Uma ilusão em que não quero adormecer (e sonhar) e, daí, a necessidade que eu sinto de dialogar e de acamaradar com alguns treinadores e jogadores que, porque muito vivem, muito sabem…

Mas, os adeptos do Benfica a quem devem eles os mais sentidos agradecimentos, à estrutura, ou ao Rui Vitória? É evidente que a ambos, à estrutura e ao Rui Vitória, por esta ordem – à estrutura que soube escolher o Rui Vitória e este porque soube liderar, com mesatria, os jogadores que a estrutura lhe permitiu. No entanto, se nos servirmos da palavra paradigma, não para indicar uma teoria dominante, mas um programa de pesquisa, depressa poderemos concluir que não há jogos, há pessoas que jogam e que, na análise do “tetra”, a pergunta a fazer deverá ser esta: a estrutura, o Rui Vitória ou os jogadores? É que são os jogadores que ensinam aos seus adeptos e até ao público em geral o que é a transcendência – que é tornar visível o invisível por que lutamos, competindo com os outros e connosco mesmos. Nélson Évora, um atleta de energia serena e ação persistente, confessou a um jornalista da revista Visão (2016/7/26): “É nos momentos de dúvida e de desânimo que precisamos de acreditar ainda mais. O importante na recuperação é a crença. Se acreditarmos num objetivo, conseguimos ultrapassar qualquer barreira. Agora, claro, é uma luta interna, foi sempre um desafio essencialmente comigo próprio, muito baseado e centrado no facto de amar aquilo que faço. Só isso te dá justificação para continuares a suportar operação após operação. Tens que te agarrar a essa vontade de não desistir, de quereres voltar a fazer aquilo que mais amas fazer”.

O campeão leva dentro de si o gérmen do futuro – porque se transcende! Bem vistas as coisas, fazer desporto não é praticar, unicamente, uma Atividade Física, é uma forma de vida. São tantas as lições que os campeões desportivos nos podem dar, que este artigo deveria assim titular-se: Os jogadores, o Rui Vitória, ou a estrutura?

Conta-se que Mallarmé visitou Edgar Degas, minguado de cultura literária mas um pintor de imaginação audaz (foi um dos fundadores do impressionismo). Com o poeta no seu atelier, Degas não resistiu a dizer-lhe: “Oh meu caro Mallarmé, tenho ideias fantásticas para poemas. Se tivesse o seu talento…”. Respondeu-lhe o poeta: “Amigo Edgar Degas, a poesia não se escreve com ideias, mas com palavras”. O desporto também não se faz com ideias, mas com ações, com movimentos intencionais. Conheci e fiz amizade com o Matateu que, se hoje ainda fosse profissional de futebol, seria, sem favor, um dos melhores futebolistas do mundo. Perguntei-lhe, um dia: “Quantos livros já leu você na vida?”. Numa voz de bronze, pausada, respondeu-me: “Não preciso de livros para fazer o que faço”. De facto, o inigualável Matateu era um génio, todo ele era muitíssimo mais emoção do que razão. Só com inteligência jamais seria o que foi. António Damásio, no seu O Sentimento De Si, escreve: “Independentemente do mecanismo, através do qual as emoções são induzidas, o corpo é o palco principal das emoções, quer diretamente, quer através da sua representação nas estruturas somatossensoriais do cérebro” (p. 330). Recordo uma entrevista de Lionel Messi, à Marca, se não estou em erro: “Eu jogo, hoje, como jogava quando era criança. Não penso muito, as jogadas saem-me naturalmente”.

Por isso, nenhum treinador conhece os mecanismos que proporcionam uma jogada genial. O génio não se explica – é! Ele não merece o culto que os adeptos lhe tributam por saber explicar o que faz. Os adeptos também são mais paixão do que inteligência. Ele merece o culto que os adeptos lhe tributam porque faz como ninguém o que não sabe explicar. Se o génio soubesse explicar o que faz não era génio!... Mas eu só queria dizer que, no “tetra”, está a estrutura, o Rui Vitória e os jogadores. E que, de todos, não sei qual foi o mais decisivo. Embora no tapete verde da relva, durante os jogos, os jogadores sejam sempre os mais decisivos…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto