Ambição de primeira (artigo de José Antunes de Sousa, 79)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 22-05-17 5:59
Por José Antunes de Sousa

Hoje proponho-me falar de um personagem singular no panorama do nosso futebol doméstico e que encarna na perfeição o verdadeiro paradigma do que podemos considerar uma ambição realista e certamente inteligente – que nem todo o tipo de ambição é necessariamente inteligente, cabendo-lhe, neste caso, antes o nome de temeridade. Sim, é dele que falo, o que tem no próprio nome os indicativos sonoros e simbólicos do seu assinalável e consistente sucesso: Victor Oliveira.

Última expressão da sua mão mágica: a quatro jornadas do fim do campeonato da segunda liga, que não é, creio, uma liga de segunda, já o nosso Victor, naquele seu discreto modo de ser, celebrava a subida do Portimonense à primeira liga, que, sendo NOS, não é necessariamente de nós todos. E o Portimonense viria mesmo a sagrar-se campeão da segunda liga: insaciável ambição.

Desde logo, uma auspiciosa verificação: trata-se de um nome duplamente pleonástico: ele é Victor (=victor, oris, em latim) e cumpre-se perfeitamente na vida como incansável vencedor, ele é verdadeiramente victor, vitorioso! Mas acrescenta-lhe, vejam bem, o Oliveira, de cujos ramos se tecia, na Grécia Antiga, a coroa dos campeões olímpicos, como, por exemplo, o campeoníssimo Diágoras de Rodes, pai da justamente famosa Calipateira.

A este mago das subidas, para descer não contem com ele, já vi várias pessoas apelidarem-no de “o Mourinho da segunda”. Bem, vejamos: A primeira coisa a esclarecer é que ele pode ser de facto o Mourinho da segunda, mas que está longe de ser um Mourinho de segunda! Para início de conversa, assentemos na inviabilidade de uma real comparação: os contextos de ambos diferem flagrantemente – nem são os maiores clubes europeus a disputar os serviços de Oliveira, nem é para o telemóvel do Mourinho que liga o presidente do Aves, na sua avidez de subida de divisão.

Enquanto o Mourinho teve o inestimável impulso inicial da cama elástica de um curso de inglês que o introduziu no convívio profissional com alguns dos nomes mais respeitados do mundo do treino e logo aí adquiriu um perfil de uma certa urbanidade florentina, o pobre do Victor, na sua lusa rusticidade, teve que trepar a pulso a corda enlameada da pista do lodo do nosso lamacento futebol. Ah, mas o Mourinho tem carisma! Sim – e é bem parecido, o que ajuda muito a impor a sua imagem, ganhando, por essa via, muito dinheiro em spots de publicidade.

Mas, sendo certo que o carisma é um dom, ele não é o suficiente para explicar o brilho planetário do treinador de Setúbal. Carol Wojtyla, só para dar um exemplo, teria, apesar do seu inegável carisma e complementar esbelteza física, passado apagadamente os seus dias pregando e acampando nas montanhas de Cracóvia, se a 16 de Outubro de 1978, os cardeais, reunidos em traumático Conclave na sequência da misteriosa morte do Papa Albino Luciani, o não tivessem eleito para ocupar a cadeira de pastor universal da Igreja Católica.

Ao carisma, indispensável para a refulgência funcional de um dotado, há sempre que acrescentar algo de decepcionantemente prosaico: condições, que é o clássico eufemismo de muitos euros ou muitíssimos dólares com que se investe, por exemplo, num ambicioso projecto desportivo. Ao carisma, que é dom, há que juntar aquilo que se conhece como instrumentalidade, isto é, ao dom há que complementá-lo com um dote – em dinheiro e em recursos humanos. Falando a linguagem dos nossos inefáveis comentadores da bola: não há sucesso sem uma estrutura condizente. E nisto, mutatis mutandis, ambos, o Mourinho e o Victor Oliveira, coincidem: só avançam quando lhe garantem as necessárias condições, isto é, o carisma que se creem ambos possuir permite-lhes exigir dos responsáveis do clube a garantia de uma real instrumentalidade fáctica; uma equipa capaz de ganhar e de entusiasmar os adeptos. E assim se fecha o círculo: carisma pessoal, condições, ou seja, estrutura (instrumentalidade) que, juntos, geram um clima de forte e convicta expectância quer no seio do grupo de trabalho, quer na administração, quer ainda e sobretudo entre a massa associativa e adepta: e neste clima proactivo de crença é onde preferencialmente germinam as sementes do sucesso.

Salvaguardado o princípio da equidade e ressalvando a abissal diferença no circunstancialismo de cada um, a verdade é que nunca saberemos como seria a prestação do Victor Oliveira num Chelsea a abarrotar de petrodólares, nem nunca saberemos que teria feito um Mourinho, artificialmente rebaixado a uma condição de operário, à frente do Portimonense nesta temporada.

Atenhamo-nos apenas aos factos:

A única coincidência factual que vislumbro prende-se com o facto de ambos terem treinado o União de Leiria e, ambos, com sucesso: o Victor nos anos oitenta levou o Leiria ao primeiro escalão do futebol nacional com uma pontuação creio que imbatida até aos dias de hoje, enquanto o Mourinho, uns anos mais tarde, fixava o UDL no quinto lugar da tabela classificativa da primeira divisão. Como eram diferentes os escalões, também aqui a comparação, além de odiosa, se revela pouco adequada.

Mas há um segredo que ambos, cada um ao seu nível, guardam: eles conseguiram, com perspicácia e competência, associar o seu nome a sucesso – como se o simples facto de um clube os contratar fosse, só por si, – e é! - garantia de êxito. E, embalados, nessa crença, nessa convicção, os respectivos dirigentes não hesitam em adquirir os melhores jogadores como instrumento de concretização do objectivo almejado.

Neste momento e como alardeiam abundantemente os factos, qualquer presidente que queira brindar os seus associados com a prenda da subida do clube ao primeiro escalão só tem que fazer duas coisas: pôr de lado uns bons milhares de euros e ser rápido a ligar para o Victor Oliveira – esse verdadeiro campeão dos sonhos! Com ele, é possível, mais, é certo, que a ambição da primeira se converterá em realidade. Porquê? Porque é de primeira a sua ambição! Vergílio Ferreira colocou a seguinte máxima na boca de um dos seus personagens:”não há prazer à borla”. Pois sucesso também não...

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile