Nuno Delgado: a coopetição (artigo de Manuel Sérgio, 194)

ÉTICA NO DESPORTO 22-05-17 5:55
Por Manuel Sérgio

A Relógio d’Água editou Obra Aberta de Umberto Eco – obra esclarecedora porque, segundo o seu autor, um original observador da História, mais do que “perceber as obras do nosso tempo” importa saber “como deveria ser a obra do nosso tempo”. Mallarmé assinalou a separação entre o plano real e o plano literário: o plano literário nunca é um fiel reflexo da realidade, porque a obra decorre, acima do mais, da criatividade do seu autor. No entanto, depois da leitura do livro Nuno Delgado: uma história de vida, um ensaio para a excelência, da autoria de José Mário Cachada, Ágata Aranha, Alberto Rocha, Teresa Marinho, ou seja, um psicólogo e três jovens doutores em Desporto, é visível, ao longo do texto, uma hermenêutica da cultura desportiva que, vivendo demasiado de citações e escondendo, por vezes, a originalidade de um pensamento próprio, não deixa de visionar, com admirável nitidez, o atleta de exceção que foi Nuno Delgado e um desporto já não governado por uma burguesia desportivamente iletrada e inculta. Há necessidade de um escol esclarecido, que lidere o sistema desportivo e seja capaz de moralizar, pelo exemplo, a irracionalidade das claques e de grande maioria dos adeptos. E que, nesse escol, se encontrem também treinadores que sabem contornar as arestas mais agressivas da vida e ajudam os seus atletas a contorná-las. Como Rui Rosa, naqueles anos de meados da década de 90 o treinador da seleção nacional de judo, “uma pessoa extremamente ambiciosa, com uma vontade fantástica de trabalhar e que, porque muito precoce, com muita falta de experiência, mas que, ao longo do seu percurso, teve a suficiente humildade, para nos ouvir, para aprender com os atletas. E, com humildade, grande entusiasmo e alegre companheirismo, sempre me acompanhou fraternalmente”. Com um treinador companheiro-de-jornada e uma firme vontade de transcendência, não houve hora crepuscular que o Nuno Delgado não transformasse no princípio de mais um triunfo – sobre os adversários, sobre ele mesmo!
Almoçámos os dois (o Nuno Delgado e eu) há poucos dias. Foi por ele que conheci o livro acima referido, escrito numa prosa, enriquecida com a citação de autores modelares. Felicito, por isso, os seus autores. Não é habitual, no nosso País, uma biografia que reúna tanta e tão séria investigação. Demais, o Nuno Delgado é uma personalidade incomum, sempre lúcido e sempre em movimento – no corpo e na alma! Encontrei-o, ao mesmo tempo, lírico e realista, crítico e romântico, racionalista e decidido. De qualquer forma, no intuito apologético não comprometeu nunca a sinceridade da narrativa. E foi simpático ao começar: “Quero dizer-lhe, antes do mais, que faço minhas as suas palavras: o atual desporto de alta competição reproduz e multiplica as taras da sociedade neoliberal que nos governa” E, depois de folhear boa parte do meu livrinho Algumas Teses Sobre o Desporto, demorou-se na página 42: “Há verdadeiro e falso desporto, como há verdadeira e falsa notícia, a verdadeira e falsa moeda. Distinguir um do outro é tarefa imperiosa e urgente. Mas só se suprime o que se substitui. O desporto não está, aqui e agora, em causa. Nem sequer o lucro que ele pode proporcionar. O que se denuncia é a conceção economicista do desporto, tendo até em conta a falência do coletivismo dito marxista e do neoliberalismo selvagem (que é rei e senhor do mundo em que vivemos)”. E, sem perder o fio condutor das suas ideias, continuou, agora em linguagem muito sua: “Fui Campeão Nacional, fui Campeão da Europa, fui medalhado nos Jogos Olímpicos, mas para mim o Judo, o Desporto, são…”. Adiantei uma palavra: “Pretextos…”. Concordou e prosseguiu: “São pretextos para concretizar outros ideais que podem não passar pela alta competição”. E, enquanto as suas palavras vibravam e incorporavam-se, em mim, ainda me disse: “Não vivo agarrado ao Passado. Quero construir, através do Desporto, um Futuro diferente”.
Como quem procura descer ao imo do desporto, em que ele pensava, interroguei-o: “Mas, quando fala em Futuro, pensa unicamente no futuro do Desporto ou, acima de tudo, no futuro da humanidade?”. Nuno Delgado comentou, olhando-me fixamente: “Sou o responsável, ao longo e ao largo do País, por 30 escolas de judo. Não sei se de alguma delas nascerá um judoca que, no futuro, alcance uma excelência espantosa, no alto rendimento desportivo. O que me interessa, em primeiro lugar, é que das minhas escolas de judo nasçam homens e mulheres, capazes de criar uma humanidade diferente”. O Nuno Delgado não é um revolucionário, pareceu-me fundamentalmente um inconformado. Olhei-o, com alegria e ternura. Não se encontra, com facilidade, no Desporto, um praticante de tão viva clarividência, de tão sentida utopia. Num conto fantástico, Papini narra a insólita aventura de um sonhador que se esforça por mudar de alma, na tentativa desesperada de conseguir fazer-se outra pessoa. Depois de inúmeros sacrifícios, de lutas e experiências várias, foi forçado a reconhecer que… cada qual só se transforma naquilo que já é! Para Nuno Delgado, o Desporto não é, como para tantos “desportistas”, uma herança passivamente cultuada e recebida. “Considerado por muitos o melhor judoca português de sempre, Nuno Delgado alcançou o ponto mais alto da sua carreira, nos Jogos Olímpicos de Sidney, prova onde conquistou, pela primeira vez, para o judo nacional, uma medalha, a de bronze” (Nuno Delgado: uma história de vida, um ensaio para a excelência, op. cit., pp. 83/84). Agustina pôs, na boca de Camilo, a seguinte afirmação: “Eu sou um livro. Quem me tomar por um homem, engana-se muito”. Quem tomar o Nuno Delgado, unicamente por um atleta de alta competição, mesmo que de extrema singularidade, engana-se muito também…
Não me é fácil exprimir cabalmente até que ponto me sinto feliz pela filosofia, pela cultura, pelos valores, que animam a vida do Nuno Delgado. E até da importância seminal do seu comportamento, no mundo doentiamente competitivo e de mediocridade e sectarismo, sem medida, que descobrimos, com tristeza, em largas manchas do nosso desporto. Há, hoje, em Nuno Delgado, uma adesão intelectual e afetiva à Cultura e a um Desporto que é Cultura. Vasco Graça Moura, a propósito do Padre Manuel Antunes, meu inesquecível Mestre na Faculdade de Letras, escreveu: “A sua crítica literária assenta numa concepção da literatura que acaba por ser inseparável da filosofia e numa concepção da filosofia voltada para o transcendente, em relação permanente com o Espírito, tal como ele o concebia e em interacção permanente com a História” (Discursos vários poéticos, Verbo, Lisboa, 2013, p. 267). Para mim, qualquer teoria sobre a cultura desportiva deve organizar-se em torno de uma ideia-chave: é o homem que se é que triunfa no desportista que se pode ser. Ora, o Nuno Delgado transcendeu-se como campeão nacional e internacional e quer transcender-se agora, principalmente como professor. “O capitalismo (diz-me ele) apresenta um crescimento selvagem e desumano, onde as relações se estabelecem sob o signo da altíssima competição, que assim se transforma como a categoria estrutural da nossa vida em sociedade”. E, de olhar em chama, ainda acrescentou: ”Ora, eu estou cansado, fatigado, farto da pressão contínua da alta competição. Quero ensinar aos meus alunos que o desporto pode ser outra coisa: saudável, alegre e fraterno”. Atalhei, para fazer uma proposta: “Ou seja, no desporto, como o Nuno o entende, deverá haver não competição, mas coopetição, ou seja, a síntese de competição e de cooperação”. Aquiesceu: “Aceito, em princípio”. E decidido: “Só alta competição - não!”.
O crescimento, sem outros valores para além dos económicos, tem a sua liturgia própria: a alta competição desportiva! Também ela pode constituir uma agressão permanente ao praticante, suscitando nele apetites ilimitados, ilusórios, de forte pendor individualista; também ela pode induzir o praticante a comportamentos agressivos, à necessidade de ganhar a todo o custo, sem olhar aos meios.

Já não se trata de satisfazer a nossa necessidade de movimento, nem de mostrar a beleza de uma admirável expressão corporal, mas de empurrar-nos para um desporto sem outro objetivo senão a promoção do “desporto pelo desporto”, da “vitória pela vitória”, o enriquecimento de alguns, com rosto, e de alguns mais, os mais argutos, que ninguém conhece e, por fim, o adormecimento das massas à recusa da sociedade injusta estabelecida. E, assim, mergulhado num mundo sem finalidades profundamente humanas, a “malnutrição espiritual” de inúmeros agentes do desporto, designadamente do futebol e o “vazio existencial” de quase todos. Tudo isto o Nuno Delgado (de uma timidez e modéstia que não lhe ofuscam a inteligência e a vontade) conhece perfeitamente. Por isso, com a sua habitual firmeza de caráter, se ntenciou: “Enganam-se os que pensam que o desporto atual não passa tão-somente, ou de um problema desportivo, ou de um problema económico, ou de um problema político. Para mim, trata-se de um problema essencialmente moral, pois que é de todo o interesse reimplantar ou reencontrar, nele, as dimensões humanas perdidas”. Se bem o entendi, a criação, a realização de um desporto novo exigem ensino, investigação e… profecia! Profecia, sim, para que a competição se transforme em “coopetição”, onde a competição se encontre integral mas superada e que na “coopetição” se descubra, por fim, o fermento de um desporto novo, de um ser humano novo, de um mundo novo. Parecendo frágil, pela sua simpatia tão humana, Nuno Delgado tem a lucidez e a força suficientes para devolver ao desporto o que o desporto atual perdeu: a pureza que ressalta dos textos de Pierre de Coubertin!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto