Procura-se anfitrião para o FIBA AfroBasket 2017 (artigo de Eduardo Monteiro, 17)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 17-05-17 5:14
Por Eduardo Monteiro

A desistência da República do Congo da organização do campeonato africano de selecções nacionais masculinas, (AfroBasket) por motivos logísticos, com data marcada para o período de 19 a 30 de Agosto de 2017, apanhou a FIBA-África completamente de surpresa o que revela que não houve nenhum controle da evolução da situação em tempo útil por parte da entidade máxima do basquetebol africano. Em consequência a direcção da FIBA-África, sem uma solução alternativa em carteira (plano B), encontra-se numa corrida contra o tempo na medida em que não é fácil, em cima da hora, encontrar um país que, de um momento para o outro, esteja disponível para organizar um evento de tal envergadura.

Surpreendentemente, após uma reunião de urgência realizada em Bamako, capital do Mali, entre uma delegação da Federação Angolana de Basquetebol e os dirigentes do organismo de cúpula do Basquetebol Africano, ficou decidido, sem auscultação prévia do governo angolano, que Angola seria o novo anfitrião do referido evento. Atendendo a que Angola tem experiência adquirida, pois já organizou esta prova em três diferentes ocasiões (1989, 1999 e 2007), fazia todo o sentido esta substituição por impossibilidade do país vizinho. O problema é que “nunca há bela sem senão”.

E como “não há bela sem senão”, o Ministro da Juventude e Desportos de Angola, Albino da Conceição, quando confrontado pela comunicação social com o facto consumado, disse desconhecer a intenção da Federação Angolana (FAB) e da FIBA-África em realizarem o referido campeonato em Angola, tendo acrescentado que a organização de um evento da dimensão do AfroBasket requer a aprovação das entidades governamentais, porque pressupõe uma série de condições logísticas e financeiras que exigem preparação atempada. E acrescentou: “estamos em ano de eleições, marcadas para 23 de Agosto (data coincidente) e o Governo Angolano tem outras prioridades”.

Na realidade o Governo Angolano não podia ter outra atitude. Porque, para além das questões políticas que se levantariam com a realização de um campeonato africano num período eleitoral de extraordinária importância para o futuro de Angola, o planeamento organizacional de um evento desportivo da natureza de um campeonato africano não pode ser assumido de ânimo leve tal como quem “tapa um buraco”. Quer dizer, a organização de um evento com tal dimensão nacional e internacional deve passar prioritária e obrigatoriamente pelo governo do país na medida em que ele deve fazer parte de um planeamento estratégico que, obrigatoriamente tem de estar integrado no desenvolvimento da modalidade, no quadro do desenvolvimento do desporto e do país. Quer dizer que, uma federação ou qualquer outra entidade, não pode, nem deve assumir compromissos de tal envergadura sobre os quais não tem pleno controlo.

É claro que todos os adeptos do basquetebol de língua portuguesa ficariam muito satisfeitos se o AfroBasket 2017 fôsse realizado em terras angolanas, mas esta é outra questão. A verdadeira questão é que o Governo angolano não podia pactuar com decisões de dirigentes desportivos sem competência para, na plenitude as assumirem. As federações desportivas exercem funções públicas contudo ainda não são um Estado dentro do próprio Estado. E à custa do dinheiro do país.
Num plano estratégico para o basquetebol angolano no quadro do desenvolvimento do desporto e do país a Federação Angolana devia ter uma projeção pelo menos a vinte anos. E responder à seguinte pergunta: Que basquetebol queremos que Angola tenha daqui a vinte anos?
Angola não é um país qualquer. Angola é uma potência africana que não pode, nem no desporto, estar sujeita a uma gestão por impulsos. O basquetebol angolano tem de obedecer a um plano estratégico sob pena de não conseguir potenciar os resultados já conseguidos no passado.
Nos três campeonatos efectuados em casa a selecção nacional angolana foi a que obteve maior sucesso em termos de resultados. Não só conquistou os respectivos títulos, como obteve 21 vitórias em igual número de jogos disputados. Um record difícil de igualar em qualquer parte do mundo.

No FIBA AfroBasket 2017, participam 16 selecções nacionais: Nigéria (actual campeão), Angola (vice campeão), Marrocos, Tunísia, Mali, Senegal, Costa do Marfim, Camarões, República Democrática do Congo, Egipto, Uganda, Moçambique, África do Sul, Guiné (wild card), Rwanda (wild card) e ainda um outro país em substituição da República do Congo.

O palmarés desportivo do basquetebol angolano é inigualável no contexto africano e, para tal, basta analisar os resultados obtidos no passado recente.

11 Títulos conquistados por Angola no FIBA Afrobasket:
Luanda-1989 (Angola), Cairo-1992 (Egipto), Nairobi-1993 (Kénia), Alger-1995 (Argélia), Luanda-1999 (Angola), Casablanca-2001 (Marrocos), Alexandria-2003 (Egipto), Alger-2005 (Argélia), Luanda-2007 (Angola), Tripoli-2009 (Líbia) e Abidjan-2013 (Costa do Marfim).

Classificações obtidas no FIBA AfroBasket:

Angola ( 11 medalhas de ouro, 4 de prata e 2 de bronze), Egipto (5-6-6), Senegal (5-6-4), Costa do Marfim (2-3-0), República C. Africana (2-0-1), Nigéria (1-3-3), Marrocos (1-2-2), Tunísia (1-1-4), Argélia (0-1-1), Sudão (0-1-1), Camarões (0-1-0), Cabo Verde (0-0-1), Mali (0-0-1) e Somália (0-0-1).

Intimamente ligados a estes títulos e classificações obtidas, estão os treinadores que tiveram a tarefa e enorme responsabilidade de preparar as diferentes selecções, do ponto de vista técnico, táctico e psicológico, para as diversas competições em que estiveram envolvidos ao longo de todos estes anos. A começar no saudoso angolano Wlademiro Romero, que foi nosso aluno no curso de treinadores realizado em Portugal, e que conquistou 2 medalhas de prata (1983 e 1985), 2 de bronze (1987 e 1997) e 1 de ouro (1995), num percurso notável até ao seu falecimento num trágico acidente de automóvel.

O luso-angolano Vitorino Cunha, arrecadou as 3 primeiras medalhas de ouro (1989, 1992 e 1993) da selecção de Angola, tendo sido o pioneiro das grandes conquistas ao nível internacional do basquetebol angolano, ficando para a história como uma grande referência, não só da modalidade mas também do desporto nacional de Angola. Na continuação do trabalho anteriormente desenvolvido temos Mário Palma, de nacionalidade portuguesa, treinador profissional de enorme palmarés, que levou a selecção nacional ao título africano em quatro eventos consecutivos (1999, 2001, 2003 e 2005) registando uma proeza muito difícil de repetir em termos futuros.

Entretanto, nas últimas cinco edições do FIBA AfroBasket a equipa nacional angolana foi dirigida por cinco diferentes treinadores, situação inédita no contexto da modalidade, dando a entender que algo de insólito se tem passado no seio federativo. O primeiro foi Alberto Carvalho (angolano) excelente treinador com provas dadas em Portugal e Angola foi medalha de ouro em 2007. Depois, Luis Magalhães (português) com larga experiência em Portugal, onde foi campeão nacional com três equipas diferentes, também conquistou o título africano em 2009. Seguiu-se Michel Gomez (francês) com um longo e prestigiado percurso no seu país, conseguiu a medalha de prata em 2011. Paulo Macedo (angolano) que jogou em Portugal e, ainda, com pouca experiência internacional como treinador, também conquistou a medalha de ouro em 2013 e, finalmente, Moncho Lopez (espanhol), que já foi selecionador nacional em Espanha e Portugal, não conseguiu vencer a forte equipa da Nigéria, na final de 2015, e teve que se contentar com a medalha de prata.

No que diz respeito à avaliação dos praticantes, podemos verificar que na escolha dos melhores jogadores (MVP), dos diferentes torneios realizados, os jogadores angolanos marcaram a sua inegável categoria:
1974 - Gaston Gambor (República Centro Africana); 1980 - Mathieu Faye (Senegal); 1987 – Frederic Goporo (R. Centro Africana); 1993 – Etienne Preira (Senegal); 1997 – Omar Mar (Senegal); 1999 – Lamine Diawara (Mali); 2001 – Miguel Lutonda (Angola); 2003 – Miguel Lutonda (Angola); 2005 – Boniface Ndong (Senegal); 2007 – Joaquim Gomes (Angola); 2009 – Joaquim Gomes (Angola); 2011 – Salah Mejri (Tunísia); 2013 – Carlos Morais (Angola); 2015 – Chamberlain Oguchi (Nigéria).
Embora, nunca tenha sido eleito como MVP do FIBA AfroBasket, Jean Jacques Conceição foi o melhor jogador angolano que tivemos a oportunidade de ver jogar, e foram muitas as ocasiões, durante muitos anos. Contudo, a FIBA prestou uma justa homenagem ao jogador, ao basquetebol angolano e africano, com a sua inclusão na Galeria dos Famosos (FIBA Hall of Fame).

Actualmente, a selecção senior masculina de Angola está posicionada na terceira posição no Ranking FIBA-Africa, logo a seguir à Nigéria e Tunísia. Contudo, verifica-se que no conjunto dos resultados obtidos pelas selecções de seniores masculinas e femininas e das equipas de formação das meninas e rapazes, ainda se mantem na liderança do ranking da FIBA em relação ao continente africano. Esta classificação significa que o trabalho realizado, até agora, com os outros praticantes do basquetebol angolano, senhoras, meninas e rapazes, ainda tem conseguido superar o dos outros países. Resta saber até quando.

De qualquer modo, conhecendo a atracção da juventude angolana pelo basquetebol e a sua disponibilidade motora para a prática desportiva acreditamos, sinceramente, que embora haja ainda muito caminho a percorrer, muitas tabelas de basquetebol por semear e muitas bolas por distribuir, é possível recuperar o tempo perdido e reconquistar a posição de liderança da principal selecção nacional de Angola da “Bola ao Cesto” em África. Para tal, os dirigentes desportivos e políticos angolanos devem: (1º) ver longe e com amplitude; (2º) analisar os problemas em profundidade; (3º) elaborar as grandes linhas estratégicas do desporto angolano a, pelo menos, cinco Ciclos Olímpicos; (4º) considerar as potencialidades dos angolanos.

Eduardo Monteiro é ex-treinador do SL Benfica e das Seleções Nacionais