Promessa c(o)mprida (artigo de José Antunes de Sousa, 77)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 28-04-17 4:39
Por José Antunes de Sousa

Coisa que não falta é provas de palavra não honrada, como o atesta, por exemplo, o negócio florescente dos cartórios notariais, pelo fluxo crescente de casais arrependidos da promessa matrimonial, ou como evidencia o número de reclamações junto da oficina de automóveis. Mas, francamente, só conheço - todos conhecemos – um sector da humana actividade em que se sabe de antemão, numa espécie de convenção pérfida entre os que enganam e os que aceitam ser enganados, que as promessas não são para cumprir, mas apenas para seduzir e iludir: na política! E o risco de não ser reeleito cresce exponencialmente quando, uma vez na função, alguém ousa incautamente levar à prática algumas das promessas feitas em campanha. Mas, diga-se, em abono da verdade, que normalmente só tenta cumpri-las quem delas não abusou (sim, convém prometer pouco se houver intenção de cumprir!). Mas como quase todos são generosos no exercício fátuo da promessa, quase ninguém se sente na obrigação de cumpri-las: o excesso como que desobriga da façanha do impossível!

Claro que esta depreciação profissional da promessa tem a sua âncora na desvalorização da palavra - de tanto se repetirem, elas gastam-se: às tantas, já nada querem dizer.

Só que as palavras são poderosas (Words with Power, Northrop Frye): é preciso ter cuidado com elas. O nosso erro crasso e letal é justamente o de não cuidarmos devidamente da palavra: “in principio erat verbum” (Jo 1,1).

A promessa reflecte a fidelidade à palavra dada – porque ela exige ser cumprida. Só o não é no território instável, movediço – e lamacento – da palavra virtualizada, desvitalizada, do nível estrictamente protocolar da nossa conveniente convivência. Neste mercado das utilidades, a palavra é rebaixada à reles condição de produto fungível e descartável, tornando-se objecto do mais obsceno tráfego: a palavra desvalorizada até à cotação rasca da lentilha. E a política (sim, com letra minúscula) é a esplanada onde o prato mais popular servido com zelo aos comensais famintos é isso exactamente: “prato de lentilhas”!

Mas as palavras têm poder – e é precisamente porque as palavras são poderosas e ponderosas (têm peso) que andamos todos vergados ao insuportável peso da sua inadvertência e do seu desrespeito.

Há, porém, em nós uma onírica entidade, a mente, que toma as palavras ao pé da letra: ela é muito “louca” (Ortega Y Gasset), mas com uma invejável virtude – a da fidelidade: palavra pronunciada é realidade anunciada.

É por isso que somos a configuração em carne daquilo que dizemos: incautos, acreditamos que às palavras leva-as o vento (“verba volant”) e que as podemos usar à vontade, como criança que brinca com bolas de sabão – porque elas não nos vão magoar.
Erro: a nossa mente, a louca e fiel da casa, toma as nossas palavras literalmente e, com a prontidão e pontualidade das sentinelas do Palácio de Buckingham, nos faz amochar ao peso da palavra leviana e incautamente proferida.

Palavras levianas e incautas como as que, todas as semanas, os treinadores pronunciam do alto da cátedra de uma prosápia litânica, por vezes pateticamente gongórica, aquela que julgam aparentar clarividência e competência: eles são desarmantemente expeditos na arte délfica de prever a dificuldade e o aperto: isto vai ser mesmo à tira, como dizem os aficionados da tauromaquia, isto é, se ao fim ganharmos será por uma unha negra.

Assim previram o desfecho do actual campeonato os inefáveis treinadores Vitória que, apesar dos auspícios do nome, é fértil a prever vitórias apertadas e à justa e não, raro, empates, e o Espírito Santo que, apesar de tão inspirador nome, compartilha zelosamente com o seu colega da Luz o clima de crise na colheita de pontos.

Resultado: a mente (deles e do universo afecto) está diligentemente empenhada em cumprir a promessa dos protagonistas: isto vai ser uma aflição até ao último minuto!

Pode até haver, aqui e ali, uma momentânea folga, mas pronto se equipararão as forças e tudo se tornará fluido e instável – conforme o previsto na profecia.

De resto, ambos os profetas coincidem na mesma falta de verve e imaginação: depois de mais um impasse, ambos, como se estivessem lendo as escrituras: “ estamos vivos, estamos na luta…até ao fim”.

Sim, podemos ter uma certeza: o final vai ser de aflitos!

A promessa será inelutavelmente cumprida.

E comprida: toda a extensão da prova e, mais que tudo, o comprimento da certeza com que foi proferida.

Que ninguém se queixe.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile