Fernando Santos: Razão e Fé (artigo de Manuel Sérgio, 182)

ÉTICA NO DESPORTO 12-02-17 11:5
Por Manuel Sérgio

O engenheiro (e Doutor) Fernando Santos impõe-se à nossa consideração e estima, por muitos títulos. Não me é possível, num simples artigo de jornal, apreciar devidamente a sua ação sobre o futebol português e até sobre a sociedade portuguesa, pois que o seu exemplo se projeta muito para além do que é habitual exigir-se a um “agente do futebol”. Foi o treinador principal e o líder de uma seleção de futebol que, na glória e no bom nome de Portugal, encontrou sempre o melhor título da sua glória.

Quando a Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP) distinguiu com o Prémio “Personalidade do Ano” o treinador Fernando Santos, a AIEP quis dizer isto mesmo: Fernando Santos foi “o cidadão português que, em 2016, mais fez pelo seu País além-fronteiras”. Begoña Iñiguez, presidente desta associação internacional de jornalistas, no intuito de esclarecer a razão primeira da atribuição do prémio, afirmou: “Fernando Santos, pela sua coragem, determinação e trabalho de equipa, levou Portugal a ganhar aquilo que ninguém acreditava”. Fernando Gomes, presidente da FPF, proferiu emocionado: “Há pessoas assim, que a História nunca apagará e o Fernando Santos é um dos imortais da História de Portugal”. Por seu turno, o Presidente da República, os olhos chispando dinamismo, decisão, alegria disse comovido também: “Que grande alegria é poder homenagear o meu amigo Fernando Santos. Se me dessem a escolher muitas pessoas que gostasse de elogiar, sem dúvida escolheria Fernando Santos e um outro, o engenheiro António Guterres. Teria dificuldade em encontrar outro. Eles marcaram o ano passado, ao serviço de Portugal e do Mundo”. Entre os argumentos invocados para este Prémio, Fernando Santos sublinhou: “A causa primeira é Portugal ter sido campeão europeu. Não só eu, mas Portugal. E tudo isto, portanto, não se deve só ao Fernando Santos”.

Volto a uma frase da minha autoria, que se aceita sem grande custo: “O desporto é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo”. Portanto, porque é cultura, o Desporto é Razão e… não só! Um dia, um professor de Direito, procurou, durante uma aula, explicar aos alunos que não é fácil sentenciar e julgar. E pediu a um dos alunos, com reputação de ultramontano, que opinasse sobre as virtualidades do capitalismo e a outro, que não escondia, frequentemente, as virtudes teologais do salvatério leninista, que fizesse outro tanto, em relação ao comunismo. Escutou os dois e, com suavidade e elegância, a ambos deu razão. Os alunos interpelaram o professor: “Mas quem tem razão?”. E ele respondeu-lhes: “Vocês também têm razão”. Racionalmente, é difícil (é impossível) ter sempre razão, uma razão inatacável. Por isso, quando se antecipa um qualquer acontecimento a previsibilidade deverá ceder o seu lugar à probabilidade. Mesmo com as mais recentes aquisições da tecnologia, há mais probabilidade do que previsibilidade. No futebol (no desporto) predomina, portanto, a não-linearidade, a imprevisibilidade, a desordem, a caosalidade (de caos). A racionalidade científica que dele emerge tem algumas certezas e muitas dúvidas. O “princípio da incerteza” de Heisenberg é rei, no mundo em que vivemos. Prigogine é sempre de escutar-se, nesta e noutras situações: “Gradualmente, começa a desenhar-se uma nova racionalidade, na qual probabilidade não significa ignorância e ciência não se confunde com certeza” (Les Lois du Chaos, Flammarion, 1994). Se não laboro em erro, já se descobria caos na dialética de Hegel, onde se afirma negando e se nega afirmando. E a turbulência e a imprevisibilidade já ressaltam de uma teoria que Marx e Lenine aprofundaram…

Tudo isto o engenheiro Fernando Santos sabe. E muito melhor do que eu, por razões óbvias, já que não passo de um simples licenciado por uma Faculdade de Letras e que, mesmo depois de ser doutor e professor agregado, era Filosofia o que eu estudava, era Filosofia o que eu procurava ensinar. Ora, se sabe tudo isto, por que expressou Fernando Santos tamanha convicção, tão sólida certeza, na vitória dos portugueses no Europeu de França? Demais, num jogo de futebol (numa qualquer prática desportiva) não há chutos, há pessoas que chutam, não há fintas, há pessoas que fintam, não há remates, há pessoas que rematam – e não há criatura de Deus mais imprevisível do que o ser humano. Segundo a ciência atual, não há objeto sem sujeito nem sujeito sem objeto. Portanto, em qualquer comportamento de um atleta, há também espiritualidade, há também consciência, há também amor. Com palavras de Nietzsche, podemos até acrescentar: o atleta é mais dionisíaco do que apolíneo. Desponta assim um novo paradigma que liga e religa a razão e a fé, o material e o espiritual, o corpo e a alma. Combinar a inteligência instrumental e analítica, onde se atinge um grande rigor científico, com a inteligência cordial e emocional, donde derivam algumas certezas e os próprios mitos, é um princípio estruturante a que deve obedecer um “homem de ciência”… como o engenheiro Fernando Santos! “Temos muitos centros vitais e não apenas um. Nem somos dominados por um deles, seja a razão, seja o poder, seja o desejo, seja o coração”. Mas “todos se encontram articulados, na existência singular de cada pessoa. Através de cada uma dessas energias, temos acesso à Energia Suprema, que habita no universo e no coração humano” (Leonardo Boff, Saber Cuidar, Editora Vozes, 2007, p. 38). Por isso, dentro de nós, irrompem sentimentos que não sabemos exprimir em palavras. Por isso, o homem é mais do que homem. E o Desporto é mais do que Desporto.

Andreas Schleicher, Diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, em entrevista ao Expresso, de 2017/2/11, declarou: “O ensino não se pode limitar à transmissão do conhecimento académico. Tem de se focar nas competências do ser humano, que permitam à educação continuar à frente dos desenvolvimentos sociais e tecnológicos. Perseverança, resiliência, consciência, ética, coragem, liderança são características que devem ser trabalhadas na escola”. No meu modesto entender, devem ser trabalhadas, na escola e no treino desportivo. Para mim, portanto, não há “periodização tática” mas “periodização antropológica e tática”, porque as grandes vitórias, no desporto e na vida, é com homens e mulheres, em equipa, em grupo e em busca de “mais ser” que, se conseguem. Recordo O Desespero Humano, de Kierkegaard. O que é sentir-se desesperado? Para este filósofo, é não ter esperança! O estado de desespero distingue-se porque nele não há qualquer esperança. Para tirar alguém do desespero, importa apontar-lhe, com firmeza, sem demasias de erudição, uma esperança, uma possibilidade de encontro com um grande amor. Quem ama nunca está só! É o engenheiro Fernando Santos quem o diz, em tom pessoal e confessional: com ele, nunca deixam de estar a sua Família e… Deus! Porque a nossa existência é uma existência finita, alguma deficiência nela se encontra. Daí, a necessidade da presença de Deus na sua (na nossa) vida! E Fernando Santos, amando e com amor à sua volta, é imensamente, infinitamente mais do que aquilo que sabe de si mesmo. O maior perigo do futebol é confundir o futebol unicamente com os fatores de treino de que toda a gente fala. O seu conhecimento é necessário, não o discuto. Mas o que faz de Fernando Santos um dos maiores treinadores do mundo é o que nele há de Razão e sobretudo de Fé. Para ser um treinador desportivo de excelência, é necessário ser a todos os níveis da existência. Onde há mais do que futebol…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto