A Cidade do Futebol e o Dr. Fernando Gomes ((artigo de Manuel Sérgio, 179)

ÉTICA NO DESPORTO 26-01-17 2:42
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Na Revista Oficial da Federação Portuguesa de Futebol (nº. 360) pode ler-se: “O projeto de edificar um centro de treino das Seleções Nacionais nasceu com o próprio projeto do Estádio Nacional, que previa a construção de vários campos adjacentes no Vale do Jamor. Este projeto nunca foi implementado na sua globalidade. No consulado de Silva Resende, entre 1983 e 1989, a Federação Portuguesa de Futebol demonstrou interesse em trocar de sede e, com várias outras federações, mudar-se para a Casa das Federações, projeto impulsionado pela Câmara Municipal de Oeiras. O projeto acabou por não ir avante e o sonho de juntar os serviços e o centro de treinos da FPF acabou por não ver a luz do dia”.

Carlos Queirós, motivado pelas vitórias nos Mundiais de Sub-20, em 1989 e 1991, mostrou-se adepto também da ideia de localizar, no Jamor, o trabalho inerente à preparação das seleções nacionais de futebol. Mas o sonho desfez-se em pó, com o seu abandono, em 1994, do comando técnico da seleção principal de futebol. Gilberto Madail, o presidente da FPF, entre 1996 e 2011, quase tornou o sonho em realidade. Mas “foi a candidatura vitoriosa de Fernando Gomes à FPF, em Dezembro de 2011” que fez de um sentimento disseminado (e aqui e além hibernado) por sucessivas gerações de “agentes do futebol” uma formosa, esplendorosa realidade. “Uma visita do vice-Presidente da FPF, Humberto Coelho, e do diretor desportivo, Carlos Godinho, ao espaço onde estava localizado o parque de estacionamento nº. 2 do Estádio Nacional foi um dos pontos de partida”. E, perscrutando com um olhar prevenido os terrenos observados e medidos, Humberto Coelho, Carlos Godinho e o “nihil obstat” de Fernando Gomes deram o trabalho inicial por concluído: “o Alto da Boa Viagem seria o espaço mais apropriado para a construção de uma Cidade do Futebol, nos terrenos do Complexo Desportivo Nacional do Jamor, propriedade do Instituto Português do Desporto e da Juventude”.

Com algumas dúvidas na intimidade sussurrante da sua consciência, mas com o palpitar empolgante de uma fé, como inapagável labareda viva e rubra, Fernando Gomes, no dia 6 de Novembro de 2014, apresentou, publicamente, o projeto da Cidade do Futebol. E, dezassete meses depois, a obra materializou-se, concretizou-se, ergue, na colina superior do Vale do Jamor, um profético sonho de eternidade. A teoria, por si só, não transforma, só a prática transforma: “foram meses de trabalho árduo, para cumprir uma promessa de muitos anos” – de trabalho árduo, de liderança inteligente (ao jeito de Fernando Gomes), de rigorosa organização e de pertinácia temperada de humildade e de amor ao futebol. Por generosidade sua (unicamente por generosidade sua) quis o Dr. Fernando Gomes convidar-me, há uma semana tão-só, a uma “visita guiada” à Cidade do Futebol, ciceroneada (suprema honra!) por ele mesmo e que findou com um almoço, a dois, com perguntas de antologia do meu ilustre interlocutor, que mostrou conhecer muitas das minhas ideias, no campo da Epistemologia e do Desporto, com uma precisão que verdadeiramente me impressionou. Com razões que desconheço, por vezes, surpreende-me o número de “agentes do futebol” que de mim se aproximam e me questionam e deitam uma ampla mirada a inspecionar-me, com interesse. “Tudo isso eu sei e, daí, o convite que lhe fiz, para um diálogo que hoje se iniciou e para que conhecesse uma Casa que também é sua”, acrescentou, solidário e gentil, o Presidente da FPF. E, porque a Casa também é minha e de todos os portugueses que vêem, na Federação Portuguesa de Futebol, a sua instituição, nacional e internacionalmente, mais prestigiada e prestigiante e ainda, na seleção nacional de futebol, o símbolo, hoje mais intensamente vivido, do nosso querido Portugal – a minha visita à Casa do Futebol, lado-a-lado com o Dr. Fernando Gomes, transformou-se, para mim, num mosaico de vivências, donde sobrenadava um sentimento que não tenho receio de adjetivar: religioso!

O Dr. Fernando Gomes fita-me com simpatia e, na sua voz pausada, elucida-me: “A Cidade do Futebol reúne neste belo local todas as instalações da FPF, designadamente a Sede, o Centro Logístico, a área técnica das seleções e ainda um Núcleo Central que servirá de centro de acolhimento de todos os que se relacionam com a FPF”. Estas palavras fazem corpo com outras da Revista Oficial da Federação Portuguesa de Futebol: “O Núcleo Central distribui-se por dois pisos. Concentra as áreas públicas em torno do átrio de entrada, no piso 0: zona de acolhimento da Cidade do Futebol, Centro de Formação, Centro de Conferências e o Restaurante, no piso 1”, donde se contemplava, naquele dia, a maravilha azul das águas tranquilas do Tejo. E continuou o Dr. Fernando Gomes, incansável e feliz, enquanto caminhava com o desembaraço de quem pode andar de olhos vendados por toda a Cidade do Futebol: “Nos dois andares superiores, situam-se as áreas de trabalho dos departamentos da FPF e, no piso mais alto, a Presidência”. Volto agora à Revista que me acompanha e me esclarece o que vou observando: “A Sede da FPF distribui-se pelos pisos 2 e 3 e tem uma orientação nascente/poente (fachadas viradas a norte e sul). Organiza-se através de um corredor central e distingue-se do complexo, através das suas fachas em fole, onde alternam zonas transparentes e opacas. Sob o edifício, localiza-se um piso destinado a estacionamento, com capacidade para 50 automóveis”. Pelo que estou vendo (concebido pelo Dr. Fernando Gomes e tendo como responsável pela execução do projeto o Prof. Engenheiro António Laranjo) a ambição desta obra, num terreno com cerca de 7 hectares e uma configuração retangular, não está no gigantismo, mas no conhecimento e na ousadia e na funcionalidade: tudo se fez, para servir o futebol, com as mais modernas aquisições da tecnociência e da arquitetura. Aqui, a quantidade está ao serviço da qualidade.

Visitámos ainda o Centro Técnico de Futebol, que se distribui por dois pisos e inclui três campos de treino, um campo de treino para guarda-redes, cinco núcleos de balneários principais com as valências necessárias à utilização dos jogadores, ginásio modelarmente equipado, centro de hidroterapia, locais de trabalho das equipas técnicas e staff de apoio, concentração dos jogadores, setor administrativo da Divisão Desportiva da FPF. Entrámos também no Centro Logístico, um volume autónomo com dois pisos e que integra áreas de armazenamento de material de treino e equipamentos, arquivo, áreas de apoio ao tratamento e manutenção dos campos de treino, lavandaria, cais de carga, áreas para preparação de viagens, centro de imprensa da FPF e o conjunto de escritórios destinados ao trabalho das equipas de manutenção e segurança. E, depois de uma ampla e minuciosa visita, as minhas pernas estavam mesmo a pedir tréguas e o Dr. Fernando Gomes teve a bondade de prolongar o convívio à mesa do almoço. E de, a propósito da Cidade do Futebol, manifestar respeito pela história do nosso futebol e, acima do mais, cultura, a qual, no entendimento do Fernando Namora, é “uma certa maneira de nos situarmos no mundo, interrogando-o, interpretando-o e refazendo-o, de nos dispormos no xadrez gregário, uma certa maneira de conceber o trabalho, os lazeres e a fruição de tudo isso, uma certa maneira de apreender a novidade e de a legar, já transfusionada, aos que receberão de nós um universo inevitavelmente modificado. Nada, pois, menos passivo que cultura. Todo o fenómeno cultural pressupõe alvoroço e adesão fecundante às coisas e aos seres” (A Nave de Pedra, p. 173).

Ora, é essa adesão fecundante e afetuosa do Dr. Fernando Gomes à Cidade do Futebol e às Seleções Nacionais de Futebol (incluindo aqui o futsal e o futebol de praia e o futebol feminino) e a todos os “agentes do futebol”, que as corporizaram e corporizam, o que mais me impressionou das palavras lapidares que lhe escutei: “A Cidade do Futebol é um velho sonho de alguns dirigentes da FPF, que me precederam, e que achei meu dever concretizar e dignificar. O meu amigo costuma dizer que o futebol é o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo. Não tenho dúvidas a esse respeito. Nem tenho dúvidas também que há hoje, no futebol português, intérpretes de exceção do fenómeno cultural que o futebol é. Como outros existiram, no Passado, também com qualidades incomuns, mas… sem uma Cidade do Futebol, onde as mais recentes exigências da competição e do treino, desde a formação até ao alto rendimento, são estudadas, desenvolvidas e oferecidas aos nossos e às nossas atletas”.

Para alongar-se no tema, o Presidente da FPF fez uma pequena pausa e prosseguiu, com a alegria de um sonho satisfeito: “Fomos campeões europeus de futebol. A nossa seleção está entre as melhores da atualidade. Esta Cidade do Futebol vem dizer-nos e aos estrangeiros que nos visitam que, em Portugal, há a tecnologia e o saber suficientes ao progresso que o nosso futebol atravessa”. E, com o dom, muito seu, de captar o essencial, aduziu: “E são também portugueses jogadores de craveira técnica excecional, como Cristiano Ronaldo, o melhor do mundo, e um treinador de futebol, o engenheiro Fernando Santos, que pode ombrear, com os melhores treinadores de futebol do mundo”. E rematou: “Pelo seu talento ímpar, pela sua conduta de uma dignidade insuperável, pela sua liderança – não conheço melhor treinador!”. Para mim, não há jogo, há pessoas que jogam. Depois de escutar atentamente o Dr. Fernando Gomes, poderei escrever: não há futebol, há pessoas que fazem futebol! E assim, entre o prestígio do atual futebol português e o Dr. Fernando Gomes há, de facto, uma unidade indissolúvel, uma perfeita identidade!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto