In articulo mortis (artigo de José Antunes de Sousa, 67)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 04-12-16 12:38
Por José Antunes de Sousa

Quando a morte se atravessa, súbita e estrondosa, no veloz caminho do sonho, ela, na verdade, não mata, não extingue – ela mitifica, glorifica, eterniza. Foi assim com Samora, com Sá Carneiro, como foi com a mítica equipa do Torino. E sejamos claros e honestos: o miraculoso sucesso do cristianismo se deve, em grande parte, à improbabilidade interpelativa do escândalo da Cruz!

Quando alguém morre no imprevisto de uma corrida das primícias, essa morte que houve, ela é-o no impossível de uma vida plena, sem brechas – é uma morte inverosímil! Ela como que se nega a si mesma no seu aparente desígnio nadificante no brutal assalto a uma vida inchada e prenhe de anúncio e de promessa - ela converte-se num instrumento vivificante de uma memória luminosa que se fixa em mito. É por isso que no funeral de um jovem ceifado na flor de uma vida risonha se incorpora toda a gente – novos e velhos, ambos numa espécie de reivindicação muda por uma certa ordem no despacho: primeiro os mais velhos!

Perante a morte salteadora e violenta, só o soluço silencioso perante o mistério do bem e do mal. Aquele filho do Caio Júnior, Mateus de seu nome, e que, chegado ao aeroporto, verificou, com tristeza e raiva, não poder acompanhar o pai nos caminhos da glória por se ter esquecido do passaporte, abençoará pelo resto da sua vida essa inspirada falta de atenção, esse providencial descuido. Os jogadores, poucos, da Chapecoense que foram preteridos e excluídos das escolhas do treinador agradecerão por todo o sempre tão grande injustiça.

Meus amigos, este mal resulta da observação prismática na percepção de cada um. Aquele homem que é por todos felicitado pela sorte de ter ganho um carro em concurso televisivo, é o mesmo que, na cama do hospital, testemunha e recebe os lamentos solidários de familiares e amigos pelo azar que foi ter-lhe saído o tal carro que por pouco não lhe tirara a vida. O mal e o bem são categorias móveis da nossa humana e condicionada percepção. E, depois, sabem, há essa indefectível lei do equilíbrio: tudo está em ordem! De resto, David Boom falava na “ordem implícita do universo” o que, de algum modo, levou Edward Lorenz a formular a famosa “lei do caos”.

Que o avião boliviano da LAMIA caiu por imprevidente falta de combustível? Garanto que muitos outros serão salvos dessa queda pelo estado de alerta e de sobreaviso que esta tragédia teve o condão de suscitar – há entretanto até um caso bem nosso de um avião da TAP que, avisadamente solicitou, pela mesma razão, prioridade para aterrar em Santiago de Compostela. Que a tragédia impediu a Chapecoense de realizar o seu sonho de glória? Pois bem: o mais provável é que venha a tornar-se no clube-paradigma de uma almejada glória, transportada nas asas do sonho e venha a converter-se no mais famoso clube brasileiro em todo o mundo, como o sugere o movimento planetário de adesão de novos sócios, – talvez já o seja neste momento, apesar de não ser nome fácil de reter!

E o título de campeão da Copa Sul-americana, independentemente do que venha a ser a decisão oficial, já lhe foi atribuído por via popular e “in articulo mortis”. E, diga-se, com edificante impulso do seu adversário, o Atlético Nacional de Medellin - e eis como há sempre flores a despontar no cemitério! Os caminhos da eternidade são insondáveis e quase sempre se fazem e tecem com a ajuda, ínvia, da própria morte – sobretudo quando súbita, improvável e brutal. Que o Torino nunca mais se reergueu dos escombros de Superga? Sim, mas, atenção, aquele era um outro tempo: nem sequer televisão havia praticamente! Nesse e noutros casos, era quase só o espectadorismo passivo e inerte da televisão que imperava, mas, neste ,o que está a verificar-se é um real envolvimento pessoal e em rede de todos – eis a abissal diferença.

Agora, neste tempo da instantaneidade convivial, as redes sociais criaram um movimento à escala mundial e não me admiraria nada, que “ao terceiro dia” assistíssemos a uma miraculosa e incrível ressurreição do enérgico e simpático clube da não menos simpática (e sobre variados aspectos importante) cidade de Chapecó, no belo Estado de Santa Catarina.

Amigos, cheguei a equacionar apresentar esta página em branco, como o meu rendido silêncio perante a dimensão desafiante desta tragédia. Optei pelo aceno de esperança, exemplificado no comovido e magnânimo abraço da mãe do inditoso Danilo ao jornalista da SporTV do Brasil. Sim, dos despojos do humano é quase sempre algo de mais humano que emerge! Glória aos heróis!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile