O terceiro anel (artigo de José Antunes de Sousa, 66)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 24-11-16 11:21
Por José Antunes de Sousa

Muito dele se tem falado – como se de uma entidade mítica se tratasse. E com razão. Contrariando o critério holístico, ele era parte que parecia ser mais que o todo, parecendo mero apêndice, ele era o essencial – de lá pendia, como um relâmpago, o veredicto que os jogadores acatavam como o julgamento decisivo de suas actuações. Naquela sua altaneira assimetria, e apesar da sua condição de obra inacabada, o terceiro anel era-o antes de o ser – como a pescada: era anel antes de descrever e completar o círculo que a essa sua condição convinha. E que só, anos mais tarde, veio a concretizar-se.

Ele elevava-se acima da linha de uma certa mediania geométrica para, neste seu empertigamento, lançar aos ventos a ousadia de um sonho grande de um homem só – que quase sempre se é só na grandeza. Como o foi Fernando Martins. Mas a força mítica desse pedaço-alma de um estádio que só como da Luz mítico se poderá considerar, vem-lhe da sua dimensão anunciadora de um voo altivo – como o da águia. O terceiro anel é muito mais do que uma ousada obra de engenharia, ou, mais prosaicamente, de construção civil - ele é o símbolo-casa de uma grande família. Nele e por ele, numa espécie de previvenciação ritualizada de uma grandeza, assim profetizada, os benfiquistas se instalavam no lugar-aconchego do sonho que lhes inebriava a alma.

O terceiro anel era um território quente, um lugar com alma: lá habitava o sonho que congregava, em convívio familiar, os que nesse sonho de um destino de grandeza se irmanavam. Era simplesmente um lugar. Onde todos, em exemplar convívio transgeracional, se instalavam desde cedo e, enquanto trincavam os tremoços comprados na Ti Josefa do Calhariz, iam debulhando prognósticos gordos para o desfecho do jogo a seguir. E não faltava sequer o farnel da Tia Guida, viúva de um dos heróis, creio que do Arsénio, farnel do qual todos eram maternalmente intimados a partilhar.. Enfim, um arraial, uma festa!

Dir-se-ia que, naquele seu jeito ínvio, meio torto de ser incompleto, o terceiro anel nos completava e, se algum modo, se locupletava na abundância de um sonho atrevido e insubmisso – ele era também o espaço habitado pela cortante régua da exigência e da responsabilidade. Habitava-o uma notória, e notável, - apesar da singeleza de seus habitantes – aura tribunícia. Era para este espaço mitificado, sem medida que em rigor o delimitasse, qual instância última, que os jogadores, todos de mão dada, faziam, antes de cada jogo, a sua vénia reverencial – como se de lá esperassem a bênção e louvor para a sua actuação.

O terceiro anel era a face humana, telúrica, popular do Estádio da Luz, que assim se chama não apenas por estar enquadrado no espaço geográfico do bairro que leva o mesmo nome, mas por ser de luz a história que encarna e o destino que anuncia. O terceiro anel, assim inacabado e assomando acima da linha média da restante construção, insinuava-se como o olhar indómito para lá da linha do horizonte – ele representava muito mais enquanto inacabado do que passou a representar quando se procedeu à sua conclusão.

Inacabado, ele era insatisfação, ele era ambição, insubmissão, rasgo – ele era projecto. Uma vez acabado, ficou rematado, concluído, gerando a sensação redonda de que tudo estava conseguido – que a obra terminara. O famoso fecho do terceiro anel cujo mérito é inatacável, talvez tenha trazido associado o efeito colateral de uma certa oclusão do sonho grande que o originara. É preciso, se calhar, reavivar o papel instigador do mítico terceiro anel – ainda por acabar, galhardamente insinuado e insinuante. Urge que convertamos os estádios de futebol em lugares - porque estão cada vez mais convertidos em “não-lugares” (na terminologia feliz de Marc Augé): as pessoas passam por lá, mas não os habitam, como nos aeroportos ou nos shoppings.

É preciso reimplantar nos estádios espaços inventados de humanidade. E, no caso do Sport Lisboa e Benfica, urge superar o contentamento supino com uma glória mínima e ter a ousadia de aspirar à glória máxima: demandar resolutamente o céu, em vez de se contentar com o limbo! A águia voa só! Mas não é só voar o que ela faz – ela caça com uma precisão e eficácia, únicas no reino animal. Porquê? Por uma razão: vê de longe!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile