Jorge Araújo: a paixão do saber (artigo de Manuel Sérgio, 168)

ÉTICA NO DESPORTO 10-11-16 6:51
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Jorge Araújo, antigo treinador e jogador de basquetebol, com 74 anos de idade, é um caso singularíssimo, no desporto nacional: porque, principalmente como treinador, acumulou vitórias sobre vitórias, nas competições em que participou; porque estudou, com diligência e rigor, o mundo da alta competição desportiva; porque evidenciou tamanhas qualidades de liderança, na condução das suas equipas, que são muitos os empresários e gestores que o procuram, em penhorantes termos, na ânsia de aplicar, no seu dia-a-dia, os métodos de Jorge Araújo, como treinador desportivo; porque, para entender o que tem feito, decidiu passar da prática desportiva (mas fundamentado nela) a uma prática epistemológica e filosófica.

Enfim, um exemplo eloquente de busca incessante do conhecimento. Por isso, lhe escutei o seguinte: “Não se pode definir a ciência senão como processo. Quer isto dizer que muito do que aprendi está ultrapassado ou agónico”. E aduziu, com um sorriso súbito e remoto: “Cientificamente, não humanamente porque os respeito muito, os meus ídolos do passado pouco me dizem”. E, perante o meu espanto, acrescentou: “A epistemologia ensina que, diante da verdade, não podemos ter, nem princípios, nem critérios, inquestionáveis. O cientista e o filósofo não têm a verdade, procuram-na. O dogmatismo conduz-nos à esclerose do poder criador”. Fez uma pequena pausa e eu adiantei: “O nosso diálogo significa, sobre o mais, o reconhecimento de que os nossos pontos de vista precisam ser superados por uma síntese mais englobante e que portanto qualquer saber deverá conceber-se como um processo em permanente construção”. Com a voz nimbada pela emoção, disse ainda o meu interlocutor (que eu, há 50 anos, conheci, pela primeira vez, como jogador de basquetebol do Belenenses): “Eticamente, os meus velhos mestres são exemplos que nunca esquecerei; cientificamente, é evidente que estão, em grande parte, ultrapassados”.

Autor de uma dezena de livros, onde revela um escrúpulo minucioso na fundamentação científica das suas conclusões; presidente, desde 1997, da Team Work Consultores, como especialista que é de Gestão da Mudança, Executive Coaching, Coaching Winning Teams, Leadership and Team Work, Motivação e Superação e ainda Comunicação; professor e promotor de seminários de Liderança e Direção e Trabalho em Equipa; treinador profissional de basquetebol, durante 38 anos, com um currículo recheado de êxitos, designadamente nos 17 anos em que liderou o basquetebol do F.C.Porto – o Dr. Jorge Araújo, que prepara o doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, é um intelectual, com notáveis qualidades de inteligência, informação e cultura, que não permitem identificá-lo tão-só como um “homem do basquetebol”, incapaz de uma lúcida panorâmica da ciência e da filosofia atuais. Detenho-me diante do seu livro A busca da EXCELÊNCIA (Guerra e Paz, Lisboa, 2011): “Um atleta ou um quadro de empresas de alto rendimento tem de possuir uma preparação, correspondente a cerca de oito a dez anos e a 10 mil horas de treino, nesse período de tempo. Uma média de 1000/1200 horas ano, mais ou menos 100/120 horas mês, cerca de 25/30 horas por semana, um mínimo de quatro/cinco horas por dia. Mas, não só! Para além desse volume, impõem-se enormes exigências em termos de intensidade e qualidade respectivas. Não basta o volume da prática, é fundamental a qualidade do trabalho desenvolvido. Sem intensidade elevada, exigência e muito rigor, não há volume de trabalho que resista. E é sempre desastroso o efeito de repetir sistematicamente uma execução lenta ou incorrecta (…). Aqueles que fazem a diferença para melhor caracterizam-se pela sua vontade constante de melhorar e pela enorme capacidade para treinar de forma quase obsessiva” (pp. 33/4).

Embora já tenha deixado a profissão de treinador de basquetebol, não estranho que o Jorge Araújo mantenha o mesmo brio, o mesmo pundonor, o comportamento decidido e exigente, que o distinguiam quando liderava equipas de alto rendimento. Não me surpreendeu, por isso, que tenha sentido nele aquela volúpia de quem, pelo desporto, fez da transcendência um hábito. Questionei-o: “Porque não tenta um doutoramento, ou em Filosofia, ou no Desporto? É a altura de traduzir em pensamento a sua prática desportiva!”. Comunicador hábil e brilhante, respondeu-me, de imediato: “Mais um grande desafio na minha vida!”. E, terminante, dando uma imagem viva da coragem: “Que aceito!”. Era um dia de sol a pino, ardendo rútilo, no céu lavado de Lisboa. Em Jorge Araújo, sentia o pulsar de um sonho, que não se materializasse num luxo ou num artifício, mas num documento esclarecedor, da autoria de um prestigiado treinador desportivo, de como é possível fazer do desporto um amplo e comum espaço cultural. E confidenciou-me: “Concordando ou discordando, foram tantas as pessoas que me falaram das suas ideias, que me deitei à leitura de alguns dos seus livros, incluindo a sua tese de doutoramento. E um ponto houve em que, imediatamente, concordei consigo: Todo o saber científico é antecedido de um saber não-científico, uma pré-ciência, constituído por obstáculos epistemológicos que, para serem superados, exigem ruturas epistemológicas. De facto, é preciso dizer não a muito do que nos ensinaram. A historicidade das ciências diz-nos em que condição as ciências são possíveis – condição que começa com um não aos inevitáveis obstáculos epistemológicos do Passado. E não há, aqui, desrespeito por ninguém, mas a vontade de criar o Futuro”. Na realidade, o Futuro é a decisão de lá estar!

Numa abordagem crítica do saber que os treinadores desportivos manifestam, ressalta uma ausência de fundamentação científica, pois o Desporto entronca, não só na fisiologia ou na biologia, mas verdadeiramente na complexidade humana. Não há pensamento do Desporto, fora e independentemente da realidade humana que o faz e que o envolve. Antes da técnica e da tática, do treino e da competição, exige-se um saber que não seja apenas um saber físico-técnico-tático do Desporto, mas epistemológico também, como o que se iniciou, no ISEF de Lisboa (no nosso País, evidentemente) nos últimos anos da década de 70. “Que eu, hoje, considero absolutamente necessário, pois quem conhece uma ciência sabe o método em que ela se concretiza” completou o Jorge Araújo. Uma teoria do Desporto só alcança o seu pleno sentido, quando acompanhado de ruturas epistemológicas, visando a construção de um novo saber que, no caso do Desporto, não pode ser outro senão o das ciências hermenêutico-humanas. De facto, quem lidera é um homem, são homens os jogadores e os elementos das várias equipas técnicas, os dirigentes são homens e a “circunstância” (Ortega y Gasset) é humana também. Não é por não saberem de futebol (ou de basquetebol, ou de voleibol, ou de andebol, etc., etc.) que muitos treinadores, no exercício da sua profissão, se gastam e se esgotam em insanáveis dúvidas, hesitações e perplexidades, mas porque não se conhecem como pessoas antes de se conhecerem como treinadores, nem intuem, na personalidade dos seus jogadores, o radical fundante dos seus desempenhos como praticantes de uma determinada modalidade. O desporto de alta competição engendra um tal quotidiano competitivo que absorve completamente os seus agentes, reduzindo a sua consciência. Jorge Araújo, com uma invulgar postura crítica e problematizadora, vem combatendo a visão redutora deste desporto, como escritor e como filósofo. E é atualmente o caso raríssimo de um grande, grande “agente do desporto” que tem sido sempre, no mais alto grau, modelo e espelho de uma inquestionável paixão do saber.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto