O artista (artigo de José Antunes de Sousa, 61)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 28-09-16 5:2
Por José Antunes de Sousa

Começo, como convém, por um pequeno exercício semântico: o vocábulo “artista” é gordo e versátil, pois pode querer dizer coisas relativamente diversas – tem várias acepções e exibe uma notória gradualidade de “nuances”, adornando assim a arte de escrever e dizer.
Ele é o artista plástico, mas é também o carpinteiro – por isso lhe chamamos artesão – como artista é o poeta e o músico. E até o mágico é artista, pois é particularmente criativo na arte de fazer desaparecer coisas – ou de fazê-las aparecer lá onde menos se esperaria.

E tem essa conotação pejorativa, com aquela expressão frequentemente aremessada como tomates ou ovos à cara do tal «artista» - a de uma «esperteza saloia» - alguém que se consome na arte reles de aparentar o que não é – a de exibir uma grandeza à força, postiça. Tantas vezes que nos referimos a alguém: «saíste-me cá um artista», significando com isso o ridículo de alguém que, aparentando exibir-se, é só palermice que exibe – e fá-lo às escâncaras – por isso ninguém o leva a sério.

Este artista, que o é apenas na obsessão de iludir a realidade, fica nos antípodas dos verdadeiros artistas cuja energia é votada à demiúrgica tarefa de criar novos mundos de significação. E, entre estes, o maestro de orquestra – como Arturo Toscanini, Herbert von Karajan, Leonard Bernstein ou esse vulcão de energia e irreverência que dá pelo nome de Gustavo Dudamel. E, já agora, esse meteorito do firmamento musical português, esse infatigável ganhador de prémios, Filipe Carvalheiro, e que, ignorado no seu país, brilha intensamente em Copenhague.

Todos grandes artistas, sem dúvida.

Mas vem este arrazoado a propósito do recente recital do Sporting no Paseo la Castellana, em pleno Santiago Barnabeu num jogo em que, já quando se aprontava o palco da glória, eis que irromperam, por detrás do biombo do nosso tradicional acanhamento, os fantasma do costume.
Na sequência do épico desempenho, como é, aliás, da condição leonina do emplema que as camisolas ostentam,o treinador declarou do alto da sua habitual presunção: «se eu tivesse permanecido no banco até final, nunca teríamos perdido este jogo» E, pergunta-se, o que é que nesta presunção está realmente presumido?

A convicção – que é também uma ideia – de que um treinador é a causa eficiente – e real – do resultado obtido, como se a sua acção fose manipular os jogadores como se de um espectáculo de marionetas se tratasse, isto é, haveria uma relacção de efectiva transitividade entre os gritos do treinador e o golo conseguido – ou evitado. Mas assim, sem ele no banco a manobrar, não foi possível evitar a derrota.

E desta concepção enviesada e excessiva, acerca do papel do treinador comunga também o buliçoso e irrequieto Presidente do clube ao afirmar com a sua caractetrística rotundidade, referindo-se ao mestro daquilo que lhe pareceu ter sido – e bem - uma verdadeira orquestra: «um artista que produziu uma obra de arte».

Mas, como um campeão de xadrez a quem afastássemos do tabuleiro, do banco – do atelier – essa obra de arte acabou por ficar no EL Prado, em vez de vir para o museu da Gulbenkian.

Pois é, todo o mérito da vitória nos bolsos do treinador – e nem sempre, porém, a exclusiva responsabilidade pela derrota! – que os jogadores são apenas pedras colocadas aqui e ali pela imaginação criativa de um homem só e insone.

Cabe aqui, para remate de conversa, invocar a resposta que Michelangelo Lodovico Buonarroti, (autor de obras como David, La Pietá, Moisés, tecto da Capela Sistina, Baco, etc) deu a um fascinado admirador que lhe perguntou: « Mestre, como consegue esculpir anjos tão perfeitos e reais?». Simples, respondeu:« limito-me a ver o anjo na pedra e a tirar o que está á volta».

Pois é, o verdadeiro artista é o que olha para o que o excede, em vez de mirrar e consumir-se até à morte na ilusória contemplação de si mesmo.
Foi o que aconteceu a Narciso!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile