«Os putos» (artigo de José Antunes de Sousa, 60)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 06-09-16 9:26
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Fernando Santos, por aquilo que se vai vendo e por aquilo que dele se vai sabendo – que é, entre outras coisas, um homem de fé – quase que nada precisa de fazer para operar a tão desejada, quanto necessária, regeneração da equipa das quinas: os jovens talentos surgem como cogumelos, ainda que à dimensão acanhada do nosso querido quintal!

Eis que irrompe deste solo, úbere de novidade, uma mão-cheia de miúdos, qual deles o mais talentoso e promissor – é só reparar e aproveitá-los!
Sim, parece estar a surgir uma nova era do nosso futebol – com uma maior percentagem de criatividade e sem que tudo fique entregue à irrupção genial de um só: talvez venha aí a era pós Cristiano, uma era descristianizada, bem ao jeito da «new age», em que parece prevalecer uma versão laica da felicidade pessoal!

Talvez espreite, ridente e auspicioso, um novo tempo em que aconteça a consistência qualitativa da nossa Seleção, a democratização do talento, incluindo naquela zona do terreno onde tudo se decide, na grande-área adversária.

Sim, eles «parecem bandos de pardais à solta». São filhos de um futebol vadio, quase de rua: basta-lhes «uma bola de pano, num charco». Afinal, eles são a expressão em movimento de toda uma criatividade de um povo, sim, eles «são os putos deste povo a aprenderem a ser homens» - como inspiradamente escreveu José Carlos Ary dos Santos para a canção de Paulo de Carvalho.

Sintomaticamente, abundam os Andrés, nome cuja raíz (em grego Andreas, de andrós) sugere a masculinidade, a virilidade. Ele é o Gomes, o Horta, o Silva, mas todos André, nome que alude à rijeza máscula do varão – e há ainda o André ao quadrado, que o é por força do nome que lhe deram e por via do nome que do pai lhe veio – também ele rijo e bravo como o mar de Caxinas. Nenhum deles é sequer aparentado com qualquer laivo de androginia, essa ambiguidade de género que por aí pulula, não, eles carregam, bem evidentes e orgulhosos, os andrógenos que lhes garantem a fibra e o engodo pela glória do moderno gladiador. E ainda resta, para o que der e vier, o Almeida, que como o seu sobrenome sugere, está pronto para limpar qualquer zona do campo.

Mas, para lá dos Andrés, esses putos, que são homens feitos, muitos outros há que homens crescidos se tornaram – e são garantia de um futuro auspicioso. Nomes?

Aí vão os que mais se exibem, mas, atenção, que outros espreitam a partir dos alfobres sedeados nas margens do Tejo e do Douro – e, se calhar, desde uma qualquer toca escondida no interior:

Renato (que é não apenas renascido, mas dotado de especial capacidade para renascer), João Cancelo, atenção a este João, Bernardo Silva, esse esteta eficaz do futebol moderno e que se tornou no novo D. Sebastião dos nostálgicos benfiquistas, João Mário, um dos jogadores mais interessantes da Europa, conjugando empenho com criatividade em doses admiráveis, Danilo, essa espécie de torpedo silencioso, Ruben Semedo, ou até o outro Semedo, ambos fortes alternativas se medo não tiverem de ser felizes, Diogo Jota, a quem os ares do Douro farão certamente muito bem e, quem sabe, lhe venham a abrir uma passadeira vermelha para Vicente Calderón - e o incontornável Rafa, nome de arcanjo poderoso e que bem pode ajudar a curar algumas maleitas lá para os lados da Luz: ele é uma mistura de Simões e Nené. A propósito de Nené, lembram-se dele naquelas suas correrias colado à linha, como, por exemplo, naquele memorável jogo de homenagem ao «monstro sagrado» Mário Esteves Coluna?

Umas palavras em particular para o André Silva, uma mescla excitante de Águas e Matateu: ele é o presente de um futuro radioso.

E, para terminar esta lista, que, em rigor é uma lista sempre em aberto, uma referência a um Gonçalo, o Paciência: alguma, bastante mesmo, dela, de paciência vai precisar para poder chegar ao nível do Paciência-pai, que sendo outro, parece ser neles a mesma a arte de visar a baliza. Com paciência vai chegar lá – garantidamente!

Enfim, esta ausência forçada de Ronaldo pode e deve ser encarada como privilegiada oportunidade para lançar esta «massa» de miúdos atrevidos e ambiciosos no forno do futuro.

Tudo indica que será boa a fornada!

PS: o Gelson Martins tem obviamente também lugar nesta lista!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile