O Desporto faz mal à saúde? (artigo de Manuel Sérgio, 158)

ÉTICA NO DESPORTO 25-08-16 7:59
Por Manuel Sérgio

João César das Neves, professor da Universidade Católica Portuguesa, publicou um artigo, no Diário de Notícias do passado dia 18 deste Agosto submerso em ondas de um tórrido calor, onde condenou, se bem o entendi, um desporto de alta competição que não seja “desporto pelo desporto” e não se pratique à luz da famosa máxima de Juvenal “mente sã em corpo são”.

O “desporto pelo desporto”, como a “arte pela arte”, representam duas fugas ao essencial: é que tanto a arte como o desporto só os entendo como meios, ao serviço do ser humano. Há 17 anos, num pequeno livro da minha autoria, que dá pelo nome de Algumas Teses sobre o Desporto, escrevi eu: “Quando se proclama por aí, com muita irresponsabilidade à mistura, que o desporto dá saúde – importa salientar a que desporto nos referimos, pois as vedetas do desporto de alta competição findam, quase sempre, as suas carreiras desportivas, com deficiências físicas, decorrentes de uma prática que os instrumentalizou”.

E continuava: “ninguém faz este desporto, para ter saúde; fá-lo porque tem saúde” (p. 12). Páginas adiante, escrevi também: “Todo o progresso material exige um progresso espiritual correspondente. O Desporto como motricidade humana, como busca da performance, como competição regulamentada, é uma prática que pode (e deve) exercitar a inteira dignidade e a insubornável liberdade das pessoas. E assim tornar-se num inquestionável factor de saúde, de companheirismo, de jogo, humor e festa” (p. 20). Portanto, para mim, não há “desporto pelo desporto” mas desporto que se pratica contra todo o tipo de marginalizações, de silenciamentos, de alienações. Porque, afinal, só nesta perspetiva de um mundo anti-capitalista, anti-colonialista, anti-sexista é possível decisivamente criar um desporto diferente. O “desporto pelo desporto” não questiona o sistema capitalista que o gerou e que está aí ao serviço do deus lucro, unicamente ao serviço do deus lucro. Ora, eu só acredito num desporto ao serviço de um Deus onde o divino se fez homem e portanto onde a fé é motricidade ao serviço de quem mais precisa de mim.

Sobre o dualismo antropológico, que ressalta da máxima de Juvenal, nem me ocupo, neste momento. Não há alma sã e corpo são porque, na complexidade humana, tudo está em tudo: se o corpo não está são, a mente também não está sã; se a mente está doente, enfermo se encontra, inevitavelmente, o que em nós é do âmbito da biologia. Desde os idos anos 70 do século passado que venho denunciando o “erro de Descartes”, bem na linha do que aprendera em Teilhard de Chardin. No seu último livro, Edgar Morin propugna uma reforma do conhecimento e do pensamento.

“A reforma do pensamento exige um pensamento da ligação, que consiga ligar os pensamentos entre si, ligar as partes ao todo, o todo às partes e que consiga conceber a relação do global ao local e do local ao global (…). Além disso, temos de dissipar a ilusão que sustenta que chegámos à sociedade do conhecimento. De facto, chegámos à sociedade dos conhecimentos separados uns dos outros, separação que nos impede de os ligar para conceber os problemas fundamentais e globais, tanto das nossas vidas pessoais como dos nossos destinos coletivos” (A Via – para o futuro da humanidade, Instituto Piaget, 2016, p. 156).

E, porque vivemos em sociedades de conhecimentos separados, não vislumbramos que o desporto de alta competição tem as características próprias do neoliberalismo que nos governa, como a mania do rendimento, da medida, do recorde, da competição, erguidos a valores máximos da economia e do desporto. É verdade: o desporto de alta competição reproduz e multiplica as taras da sociedade altamente competitiva que é a nossa. Tem razão o Prof. João César das Neves ao lastimar o grave período de alcoolismo e depressão que atravessou o Michael Phelps e que, felizmente, dele se libertou. Mas esqueceu-se, no meu modesto entender, de acrescentar que a “causa das causas” não a encontramos no desporto, como Coubertin o teorizou, mas num desporto que é produto de uma sociedade injusta.

Refere o Prof. João César das Neves, no seu artigo, intitulado “O desporto faz mal à saúde” que um atleta-campeão, como Michael Phelps, “só pode ser uma pessoa desequilibrada. Os próprios resultados chegam para demonstrar a anormalidade. Só um monstro, no sentido próprio do termo, conseguiria atingir tais níveis sobre-humanos. Isso traduz-se também na vida concreta dessas pessoas. Passar vários anos, precisamente os mais formativos da personalidade, focado numa única tarefa repetitiva, neste caso esbracejar e espernear dentro da água, tem de ter consequências traumáticas (…). O que espanta, portanto, não é o colapso de Michael Phelps. Estranho é que não aconteça mais vezes”.

E remata assim o seu artigo o Prof. César das Neves: “A ânsia por espectáculo, fama e dinheiro transformou os Jogos Olímpicos num supercampeonato, onde um verdadeiro amador não tem hipótese. O evento está concebido para pessoas, como Phelps que, mais do que profissionais, são obcecados. Este é apenas um exemplo do materialismo boçal desta era de extremos, que seca tudo à sua volta. Produzir para produzir; ganhar para ganhar. O fim deixa de ser a pessoa para ser a coisa”.

Subscrevo, sem dificuldade, as palavras derradeiras deste artigo, mas continuo a pensar que o desporto é mais do que desporto e, para verdadeiramente compreendê-lo, é preciso estudá-lo à luz de um paradigma sistémico. E então facilmente se conclui que ele é a parte de um todo, que ele é mais consequência e bem menos causa. O todo é, de facto, a sociedade de mercado e o capitalismo de “partido único” da China e de Cuba e ardentemente ansiado pelo atual governo da Venezuela. É um acasalamento impúdico este entre o desporto e o economicismo reinante, pois que dele resulta uma constante desvalorização de uma cultura, inquieta e questionadora e crítica, em favor do pensamento e do partido únicos e portanto em favor de um desporto que se situa longe, muito longe, de qualquer crítica e criação conceptual.

Agradeço ao Prof. João César das Neves o seu artigo, no Diário de Notícias. Suscitou em mim ideias que muito prezo e voltei com ele a um livrinho que já escrevi, há 17 anos e onde colhi mais esta citação: ”O Desporto é mesmo autónomo, em relação a determinados princípios básicos? É que a ética é parte intrínseca do desporto contemporâneo, desde o seu nascimento. A epistemologia, por seu turno, diz-nos que o Desporto entende-se, principalmente, no âmbito das ciências sociais e humanas. Para que afinal o possamos compreender, isto é, para que possamos desvelar-lhe o sentido. E sabermos que chegou ao seu termo a metodologia positivista e a racionalidade clássica” (p. 32).

O desporto, como um dos aspetos da motricidade humana, não faz mal à saúde – faz bem à saúde! A relação entre o desporto e a saúde encontra-se, exaustivamente estudada e documentada. E, no estado atual da evidência científica, é possível adiantar-se que a promoção do desporto tem benéficas repercussões na Saúde e na Qualidade de Vida. O paradigma biomédico não deixa dúvidas, a este respeito. O desporto, na escola, no lazer, na reabilitação assume um papel de singular relevância biológica e cultural, na promoção de hábitos saudáveis, não devendo confundir-se com um remédio para todos os males, simples panaceia portanto; nem com o esquecimento do modo da sua realização, na tríplice vertente dos conteúdos, do volume e da intensidade; nem com uma total ignorância do desconhecimento das circunstâncias em que os efeitos benéficos podem concretizar-se.

Podemos pois afirmar, sem temor nem tremor, que o desporto faz bem à saúde. E que, como a medicina e o direito e a arquitetura, etc., etc., pode fazer mal à saúde. Mas, neste caso, nunca o estudemos à margem do sistema sociocultural global. As forças institucionais hegemónicas da sociedade estão nele, em todas as circunstâncias.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto