Portugal-Croácia: - uma vitória inesquecível! (artigo de Manuel Sérgio, 148)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 26-06-16 3:42
Por Manuel Sérgio

Findo o jogo Portugal-Croácia, em Portugal ou no estrangeiro, não se via português tristonho, abatido, o rosto com uma fixidez de pedra, porque a sua seleção, “a equipa de todos nós”, escreveu, na história do nosso futebol, uma página que o tempo não poderá amarelecer.

Na minha memória de idoso, com uma vida de espectador atento do futebol e estudioso do “fenómeno desportivo”, avivam-se algumas lembranças, ocorrem-me outras vitórias doutras seleções nacionais, designadamente as do Mundial de 66, e francamente o Rui Patrício, o Cédric, o Pepe, o José Fonte, o Raphael Guerreiro, o William Carvalho, o Adrien, o André Gomes, o Renato Sanches, o Danilo, o João Mário, o Quaresma, o Nani, o Cristiano Ronaldo têm uma decisiva palavra a dizer, na hierarquização das vitórias que, ao longo dos anos, o futebol português alcançou. A tranquila pujança do Pepe, o dinamismo Imparável do Renato Sanches (o homem do jogo, para a UEFA) que devora quilómetros com um sorriso nos lábios, a inteligência tática do Adrien, o génio (porque ele é mesmo um jogador genial) do Ricardo Quaresma emergiram de uma equipa que parece refletir a ética (repito: a ética) do seu treinador: o engenheiro Fernando Santos. No entanto, a equipa, como um todo teve, mais do que tática, alma, vontade inquebrantável, querer indestrutível, aquela super-cultura que anima esta seleção, o prazer imensurável por poder representar o nosso querido Portugal. Tornar-se um objeto ao serviço de uma causa equivale a trair. Os nossos jogadores não jogam, com a coragem e a disciplina e o brio, que manifestam em campo, só para cumprir as ordens do seu treinador. Também o fazem por patriotismo. Aqueles gestos, aquela alegria, aqueles abraços febris, após o golo do Quaresma, são bem mais do que tática ou condição física, representam um grande amor por um grande ideal...

Aos 117 minutos de jogo, uma fórmula que resultou: “Renato em grande, Nani arguto, Cristiano a chutar e Quaresma a aproveitar”. Paulo Curado, no Público (2016/6/26) assim descreve a jogada que resultou no golo de Portugal: “Numa rapidíssima transição atacante, surgiu o rei Ronaldo a tocar para Renato Sanches. O jovem do Bayern de Munique galgou terreno com a bola, abrindo de seguida para Nani na esquerda. O extremo do Fenerbahce assistiu Ronaldo do lado oposto, com um passe rasteiro a rasgar a defesa croata. O capitão rematou sem cerimónia, proporcionando a primeira defesa da noite de Subasic; a bola sobrou para Ricardo Quaresma (que rendeu João Mário aos 87 minutos) e o Mustang enviou-a, de cabeça, para as redes. Foi a loucura, dentro e fora do relvado”.

Vítor Serpa, com as suas admiráveis sínteses, esclarece, no jornal A Bola: “Com a passagem aos quartos de final do Campeonato da Europa, para já, Portugal cumpre a tradição de fazer bons Europeus, mas todos os portugueses esperam, agora, que seja possível ir mais longe e chegar à grande final, em Paris. Poder-se-á dizer que esse desejo é excessivo e que por termos ganho um jogo à Croácia, lá voltamos nós a pedir o sol e a lua. Ora, para um povo que é pessimista por natureza e se representa a si próprio pelo fado, deixemos ao menos ter, no futebol, o que nos falta de confiança em tudo o resto”. Não, não devo deixar de salientar o futebol rápido e acutilante do Ivan Perisic, nem a classe de Luka Modric, nem a enorme exibição de Darijo Srna. No fim do jogo, de mim para mim, aplaudi, sem reservas, a seleção croata. Mas, na emulação com os croatas, os jogadores portugueses, sem qualquer bajulação pateta, mostraram qualidades físicas e técnicas e morais, que os põem, lado a lado, com os melhores jogadores deste Europeu. Afinal, como A Bola titulava: “Portugal quis ficar na Europa”. E, porque quis ficar – ficou!

Maradona tinha proclamado, antes do jogo, que a Croácia ganharia... por muitos! Enganou-se, como se enganam todos os que se esquecem que as certezas num jogo de futebol deverão sujeitar-se a uma “dúvida metódica”, em todas as circunstâncias. E porquê? Porque (e lá vou eu repetir-me) nã o há jogos, há pessoas que jogam e não se conhece criatura de Deus mais incerta do que o ser humano. Repito agora o Ortega y Gasset: Eu sou eu e a minha circunstância e, se as circunstâncias mudam, eu mudo também. Sim, é verdade que ondas e ondas de preocupação e, aqui e além, de desânimo (sem o mínimo de braveza juvenil, de ânsia de ousio) percorreram o ânimo de muitos adeptos portugueses, depois da fase de grupos. Indiferente a uma certa descrença, Fernando Santos, em voz repousada, afirmava, convictamente, como o fez, após o Portugal-Croácia: “Sou um crente. Nunca estive desolado, nem muito preocupado. Quis mostrar que acredito muito nesta equipa. Vamos continuar a lutar para que, de final em final, procuremos ganhar a última final”.

El Pibe, que vaticinou a derrota de Portugal, frente à Croácia, poderia escutar, agora, as palavras sábias do jornalista Rogério de Azevedo: “Vale mais perder, jogando como o Brasil em 1982, ou ganhar como a Grécia em 2004? É bom jogar bem, mas decisivo é ganhar”. Afinal, Portugal, com a Croácia do treinador Ante Cacic, teve a sorte que lhe faltou diante da Islândia, da Áustria e da Hungria. Sorte grande, para os adeptos portugueses, emigrantes em França que, com um sorriso de orelha a orelha, gritavam na televisão: “Agora, ninguém nos agarra. Só vamos parar em Paris”. Entretanto, de expressão consternada, passavam os croatas. Aquela noite tinha sido, para eles, um pesadelo – aquela noite que parecia um meio-dia deslumbrante, vivo, risonho para todos os portugueses. O porte combativo, o arcaboiço rijo, a inabalável vontade, a inteligência da seleção nacional de futebol fizera o milagre...

“Ao minuto 117 Quaresma resolveu” proclamava o Público, na primeira página da sua edição de 2016/6/28. Não sei decifrar o futuro. Embora a minha rebeldia orgulhosamente pessoal ao lugar comum, apetece-me fazer coro, com a vibração coletiva dos nossos emigrantes: “Agora, ninguém nos agarra. Só vamos parar em Paris”.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto