A trindade do costume (artigo de José Antunes de Sousa, 48)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 20-05-16 12:49
Por José Antunes de Sousa

Conforme o prometido, voltamos ao aspecto desolador da maioria dos nossos estádios, na falta de uma afeição realmente militante por parte dos seus simpatizantes. Estes clubes pequenos pertencem-lhes, mas as pessoas não lhes pertencem o suficiente para a eles se devotarem sem reservas. É uma afeição que, sendo grande e genuína, não chega para que se vá por aí de espada em riste e bandeira desfraldada aos ventos.

Falámos no facto singular de em Portugal a projecção nacional da simbologia afirmativa, mediada pela liturgia da vitória desportiva, se fazer quase exclusivamente por intermédio dos três grandes clubes, Benfica, Sporting e Porto. Importa, porém e desde já, ressalvar, a esse respeito, o seguinte: a desvantagem que parece resultar da sucção e concentração das assistências pelos grandes é compensada pela inestimável vantagem de, pela via dos afectos e da pertença, contribuírem para a consolidação do estado unitário de que Portugal é, no contexto europeu, o mais impressivo, antigo e sólido paradigma.

Na generalidade dos países europeus esse exercício simbolizante do poder faz-se a partir das localidades, quanto muito, das regiões, ao passo que em Portugal ele realiza-se a partir de uma plataforma nacional, de uma tríade projectiva que concita o todo nacional. Enquanto que naqueles países é uma projecção que tende a separar, em Portugal é, pelo contrário, projecção que tende a unir. Vantagem que não é nada, creio, mesmo nada desprezível.

Ora, sendo isto assim, não o é, porém, exactamente da mesma maneira, isto é, os três grandes não são grandes na mesma medida, nem da mesma forma. Vejamos.

O Futebol Clube do Porto tem vindo, aos poucos, a superar a originária matriz regional, catapultado para uma crescente transversalidade sociológica pela recente onda de retumbantes triunfos internacionais. Não se pode dizer, porém, que tenha sido fácil esse processo de apropriação afectiva por parte do todo nacional. Alguns factores adversos ajudam a explicar essa dificuldade: desde logo, o discurso marcadamente divisionista e dicotómico de alguns dos seus dirigentes com efeitos mais excludentes que inclusivos. Depois, a própria designação Futebol Clube do Porto carrega um elemento de confinação geográfica e, de certo modo, de limitação afectiva.

Trata-se de uma restrição semântica que não poucos, incautamente, têm tomado à letra, com prejuízos para a desejada dimensão nacional de tão prestigiado clube. Mesmo a estranha mudança de nome do estádio pode querer revelar também uma certa tentativa de alinhamento simbólico com os dois rivais de Lisboa que não precisaram, porém, de pôr o nome de Leão ou Águia aos seus novos estádios – num implícito reconhecimento de que o nome de Antas estaria ainda ligado a uma longa história de subalternidade e irrelevância desportiva. O FCP será, contudo, tanto maior quanto menos insistirem em reduzi-lo à sua influência alegadamente nortenha.

O Sporting Clube de Portugal, a designação que, no plano literal, mais intencionalmente representativa se nos oferece, pareceria deter uma nítida vantagem sobre o seu arqui-rival e vizinho, o Sport Lisboa e Benfica. De facto, este consagra na sua designação oficial uma série de elementos que, se observados do ponto de vista estritamente literal, são claramente redutores e limitadores, apontando para uma influência mais que tudo local. Ora, é exactamente o contrário, como se sabe.

O Benfica é, apesar do localismo sugerido pela letra da sua oficial designação, o clube mais expressivamente nacional. Por força, como se sabe, do galvanizante contributo das proezas velocipédicas do inimitável José Maria Nicolau que, na sua rivalidade com Alfredo Trindade, ajudou a dividir sociologicamente o país de então ao meio, e sobretudo por via das suas extraordinárias vitórias do futebol na década de sessenta e pela força icónica da sua mais celebrada vedeta – Eusébio.

E eis como por via do impulso mitificador da vitória, melhor, da epopeia, a referência localista que designa este grande clube se transmuta, promovendo, por via mítica, a sua desterritorialização, transportando-o para o Olimpo – a morada dos deuses. Lisboa adquire, por via simbólica, a dimensão de Portugal, transferência facilitada, de resto, pela sua condição de capitalidade e Benfica deixa de ser esse bairro lisboeta para se converter na expressão de um estado de alma, de uma profunda emoção.

Que significa isto, afinal? Que a referência local é transmutada em referência mítica pela força aglutinadora e inebriante da vitória.

Ora, sendo isto assim, para se voltar a ver gente nos estádios só vislumbro um caminho. Primeiro, tornar o espectáculo apelativo e atractivo, retomando quer a sua ritualidade social (a família que vai ao futebol ao domingo à tarde), quer vias de acessibilização (por exemplo, preços mais baratos).

Depois arranjar maneira de cada vez mais clubes poderem disputar credivelmente as vitórias – que é sobretudo o aceno da vitória que seduz e mobiliza.

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile