Sinal da Cruz (artigo de José Antunes de Sousa, 47)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 13-05-16 7:8
Por José Antunes de Sousa

Começo estas trémulas letras com um pedido de desculpas pelo lapso referente à final do campeonato carioca que teve como protagonistas o Vasco e o Botafogo e não, como veio publicado, o Vasco e Flamengo – final que o clube do São Januário ganhou com brilho em pleno Maracanã.

Mas tenho uma atenuante, de caráter histórico e psicológico: fui traído pela arquirivalidade entre estes dois gigantes do futebol da cidade maravilhosa e do Brasil – arrastam multidões e, ambos, desencadeiam nortadas de emoções à solta. Desta feita, o embate foi com o simpático vizinho, o Botafogo. E quem ganhou? O Vasco, claro, que continua invencível ao cabo creio que de vinte e cinco jogos e que, sob o comando do incrível Jorginho, conquista, assim, o bicampeonato carioca e prepara-se para assaltar o ceptro de campeão da segunda divisão, sem esquecer que se perfila, neste momento, como um dos mais fiáveis candidatos à conquista da Copa do Brasil – é obra, sem dúvida.
Hei-de proximamente falar do radioso trajecto deste treinador, que exibe, sem dúvida, algumas características singulares, mas, por agora e já que estamos na maré de lapsos, permitam-me que deixe aqui, sem qualquer pretensão de exaustividade, uma breve referência àquilo que parece ser um claro, apesar de obscuro, lapso no que respeita à heráldica do Vasco da Gama. Lapso, porém, perfeitamente compreensível e desculpável. Pelo menos, assim quero crer. Vejamos:
Em 1898, ano em que se celebrava o quarto centenário da épica descoberta do caminho marítimo para a Índia pelo intrépido navegador luso, o imortal Vasco da Gama, ao quererem honrar e vivificar tão assinalável efeméride através da fundação de um clube de regatas a que os representantes das copiosa colónia portuguesa no Rio de Janeiro se propunham baptizar com o nome do famoso navegador, nada mais natural do que quererem integrar no emblema do novo clube a cruz que encimava tão significativamente as velas desfraldadas ao vento do medonho e desconhecido mar. E o que poderá ter acontecido nesse acto fundador de um novo clube tão intimamente ligado à epopeia marítima dos portugueses personificada em Vasco da Gama? Ou simplesmente copiaram o feitio da cruz pátea (croix pattée, cruz patada, por via das pontas grossas, fazendo lembrar justamente umas patas), cruz que era oferecida, a partir de 1352, aos navegadores e, nesse caso, a cruz pátea, com flutuações ao longo do tempo, até à exibida nos actuais equipamentos (uniformes) correspondeu apenas a uma opção na altura da fundação, ou, a ideia e intenção dos fundadores era incorporar na heráldica do novo clube a cruz que, uns anos mais tarde, 1498, efectivamente adornava as caravelas comandadas por Vasco da Gama e, nesse caso, estamos perante um lapso realmente – porque a cruz de Vasco da Gama era a Cruz de Cristo e não de Malta – daí o desconforto que um português experimenta ao ouvir os jornalistas referirem-se ao clube como o clube cruz-maltino!

Em todo o caso, não creio que tenha havido uma intencionalidade por parte dos fundadores em desvalorizar ou depreciar a simbologia da pátria lusa e que, como arquétipo espiritual, é «mátria» das duas pátrias: Portugal e Brasil. Como, de resto, parecem indicar alguns registos.
A versão maltina da cruz que actualmente ostentam os atletas vascaínos e que, segundo alguns entendidos, corresponde ao segundo tipo de cruz pátea, parece vir da década de 1960.

Em 1934, surgiu episodicamente, provavelmente por equívoco, uma nova variante, tendo desaparecido logo a seguir, só voltando a aparecer esporadicamente durante as décadas de 1940 e 1950.

Parece que o seu uso recente se deveu à interpretação tardia e seguramente equivocada, ainda que por desconhecimento, que não com qualquer intenção, da definição histórica e aprofundada do que seria a cruz de Malta, com um formato que não corresponde ao da cruz original da fundação do clube.
Apesar de aparecer referida como “Cruz de Malta” na acta de reunião da Direcção que estabeleceu o escudo oficial vascaíno, era, na sua forma original, uma “Cruz (da Ordem) de Cristo”.

Não restam quisquer dúvidas de que a cruz adoptada pelos fundadores daquele que se veio a tornar um dos mais populares clubes brasileiros, tanto na forma como na designação, tem íntima relação com as referidas comemorações do 4º centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama.

É, aliás, de realçar, em tom confirmativo, o facto de que o próprio Vasco da Gama, em data incerta mas seguramente posterior à descoberta, se sagrou cavaleiro da Ordem de Cristo, quem sabe se inclusive pelas mãos de seu irmão, Dom Diogo da Gama, bem como o facto de as naus portuguesas envergarem exclusivamente nas suas velas a cruz daquela ordem, não tendo, como se compreende, nenhum destes dois factos absolutamente nada a ver com a Ordem Militar de Malta.

Enfim, foi lapso que se lamenta, sem dúvida, mas que seria leviano condenar peremptoriamente: foi certamente por se ter incorporado a primeira cruz pátea das naus lusas, sem o cuidado em ser fiel á cruz que efectivamnete acompanhou Gama no seu feito, a Cruz de Cristo!
Talvez por isso a história do Vasco seja tão agitada – como o mar das tormentas: momentos de excelsa glória alternando com outros de pungente depressão.

Pois é, os símbolos são poderosos – e reclamam a nossa fidelidade!
Quando os manipulamos, corremos o risco que se nos queimem as mãos!


Brasília; 12 de Maio de 2016


José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile