Mourinho e o fel da derrota (artigo de José Antunes de Sousa, 16)

ESPAÇO UNIVERSIDADE 16-10-15 10:52
Por José Antunes de Sousa

Não há qualquer dúvida: a sua glória não está em que seja amargo, mas em que, apesar de sê-lo, não haja quem se possa vangloriar de o não ter provado. A vida é, enquanto situadamente vivida, inelutavelmente feita de um balanceamento agridoce: oscilamos permanentemente, à boa maneira do pêndulo do relógio que mede o tempo do mundo, entre um extremo e outro, ora de uma explosiva alegria, ora de uma pastosa prostração.
Confesso, eu não conheço pessoalmente o Mourinho, embora tenha estado muito perto dele em algumas situações: o que dele julgo vir sabendo me chega sobretudo através da Comunicação Social e alguns aspectos mais específicos tomei deles conhecimento através das minhas fraternas conversas com Manuel Sérgio cujo patrocínio espiritual é por ele publicamente reconhecido e através do amigo comum, Luis Lourenço, seu biógrafo e cujos trabalhos académicos acerca da liderança do famoso treinador tive oportunidade e o privilégio de acompanhar de perto. Ambos, certamente muito mais habilitados do que eu a falar sobre este português de sucesso, mas julgo poder contar com a sua compreensão para esta minha ousadia.

Importante, sem dúvida, esta prevenção como elemento de uma hermenêutica condicionada e como forma de acautelar o teor necessariamente tacteante e especulativo das considerações que se seguem.

Ora, sem mais delongas, vamos à pergunta que anda na cabeça de toda a gente, reforçada, vejam só, pelo estrepitoso fiasco do Chelsea em pleno Stamford Bridge, na última jornada, frente ao Southampton: que se passa com o Mourinho? – fim de um ciclo? queda de um mito?

De tudo isso talvez um pouco – que os fenómenos humanos são sempre complexos mesmo quando parecem simples.

Comecemos pelo óbvio: os grandes treinadores não são os que nunca perdem, mas os que perdem menos vezes. A principal razão que explica esta superior frequência de êxitos, depende, também ela, da conjugação de vários factores de personalidade, mas, mesmo simplificando um pouco, podemos dizer que tal frequência resulta genericamente do grau de familiaridade psicoemocional com o sucesso – porque, como dizia Aristóteles, «nós somos aquilo que repetidamente fazemos» e, neste sentido, a tão almejada excelência é sobretudo um hábito – bom ou mau.
Mas o hábito é do domínio do condicionamento do ego: tendemos a replicar de forma automática as experiências bem sucedidas, num caso, ou mal sucedidas, noutro. Mas, admitamo-lo: manter as razões do sucesso exclusivamente nesse plano raso do vivido, do já experienciado, envolve o inevitável risco de intromissãp perturbadora de factores exteriores que introduzem «ruído» no processamento linear e sináptico das vivências autocondicionantes: uma derrota inesperada (?), uma lesão ou castigo em jogadores mais influentes, um problema do foro íntimo ou familiar, um desentendimento grave com elemento do staff – tudo isto, junto ou separado, pode facilmente desencadear um processo de desmoronamento do que parecera, até ali, ser um reduto inexpugnável. Verificamos que, afinal, é expugnável e vencível – como qualquer humano. Porquê?
Desde logo, por isso mesmo, por ser humano – que o super-homem não passou de arrebatada e quimérica elocubração da alucinada mente de um Nietzsche deprimido e niilista. Depois, por uma outra forte razão: o ego não é garante seguro de um sucesso que se pretenda sólido, pois ele funda-se na causalidade linear, na relação behaviorista entre estímulo e resposta, potencialmente geradora de conflitos e, pior ainda, na casualidade despótica das circunstâncias do mundo exterior: tudo muito volúvel e frágil, como volúvel e frágil fica o mundo de quem a tal desígnio exclusivamente se confia.
A queda, e toda a gente está sujeita a cair, deve-se, neste caso, à inconsistência do arrimo – as canas sacudidas pelo vento não inspiram uma segurança por aí além.

Portanto, o plano em que se congemina o êxito é o mesmo que acolhe e alberga a sua contrariedade: os seus perigos e fantasmas. Que admiração, pois, que, mais tarde ou mais cedo, sobrvenha o colapso? – colapso que, embora nunca definitivo (a vida é movimento e mudança), mas mais ou menos renitente...

À hora destas linhas virem à luz do dia pode até Mourinho ter retomado já a senda das vitórias, como pode até ter já deixado o Chelsea: qualquer destas hipóteses confirma a seu modo a tese aqui apresentada.
E, para estas coisas mais ousadas, dá sempre jeito a inspiradora companhia de um génio da dimensão de Einstein: «nenhum problema se resolve a partir do plano em que foi criado», ou, dito de um outro modo, não será com novas contratações, nem com a mudança do corpo clínico, que Mourinho terá o seu problema verdadeiramente resolvido.

Só quando ele, no íntimo de si, adoptar um novo olhar, ou seja, quando aceitar ver bonançoso o mundo que ele insiste em ver turbulento e ameaçador: a solução está nele mesmo, nunca em Roman Abramovich!
Se repararmos, veremos que este caso, por ser mais mediático, é bem paradigmático do ciclo destrutivo em que não poucos treinadores se envolvem: tudo corre mal – bem de acordo com a tonalidade turva do seu olhar. Porque a fama de Murphy não está na lei que enunciou, mas vem dos inúmeros seres humanos que gostosamente se prestam a confirmá-la.
Por fim, com a modéstia de quem pouco sabe de si, mas com a ousadia que admiração sempre justifica, seja-me permitido balbuciar uma exortação em jeito de conselhos que eu usava nas minhas conversas com técnicos e atletas das Modalidades do Benfica durante os dois anos que ali trabalhei como assessor motivacional, uma vez que logo trataram de destruir a bela ideia de Manuel Sérgio de um Gabinete de Inteligência Competitiva (GIC):

Você sabe, caro compatriota, que o que diferencia os homens não é o número de vezes que caem, mas a prontidão com que se levantam. Sim, porque os campeões não são os que nunca perdem, mas os que ganham, mesmo quando perdem!

Remato, com este clássico aviso à navegação: «Os grandes navegadores devem a sua reputação às grandes tormentas e tempestades» (Epicuro de Samos)

Não estranhe: é assim mesmo!

Brasília; 6 de Outubro de 2015

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília