Feyerabend e Ricardo Serrado no estudo de Lionel Messi (artigo de Manuel Sérgio, 89)

ÉTICA NO DESPORTO 10-06-15 10:37
Por Manuel Sérgio

1.Quem se dedica ao estudo da filosofia das ciências, que alguns confundem com a epistemologia, passa inevitavelmente por Paul Feyerabend e pelo seu pluralismo metodológico, que emerge de uma crítica à conceção acumulacionista das ciências.

Na interpretação acumulacionista, a ciência progride por avanços sucessivos, sem recuos, na explicação dos dados experimentais, de forma sempre mais completa e mais vasta. Por isso, uma nova teoria num determinado domínio só será admissível se explicar tudo o que as suas antecessoras explicavam e, além disso, apresentar, e explicar também, mais alguns dados. Recusando essa visão monoteórica das ciências (em cada momento existe uma única teoria que, para um dado domínio, representa a máxima acuidade e poder explicativo disponível) Feyerabend propõe uma metodologia pluralista, pois que são várias as teorias alternativas, que também apresentam resultados válidos.

No futebol, há uma luta declarada entre os métodos analíticos e os integrados e ainda a periodização tática que o José Mourinho diz ter criado, a partir de uma teorização original de Vítor Frade e do conceito de motricidade, na fenomenologia, e o de complexidade que aprendeu em Edgar Morin e ainda a sua experiência, rica (muito rica) em êxitos inesquecíveis.

Convenhamos que, para o melhor treinador do mundo, nada de grande lhe é estranho (só nos homens grandes cabe a grandeza das coisas). No entanto, segundo Feyerabend, anything goes (vale tudo), pois que a prática é o critério da verdade. No livro Messi (edições Vieira da Silva, Lisboa, 2015) da autoria do historiador Ricardo Serrado (que, na História do Desporto, não tem par em língua portuguesa) aponta-se uma nova metodologia, para o estudo da genialidade de um jogador de futebol, ou de qualquer outra modalidade desportiva – metodologia decorrente da explicação da Natureza e da compreensão do Homem.

O sucesso da ciência clássica (objetiva, inquestionável, empirista, linear, dogmática, elitista, individualista, socialmente neutra, descontextualizada), como teoria explicativa da realidade, foi relegando progressivamente a filosofia e os demais modos de conhecimento, para domínios cada vez mais marginais do saber, de tal modo que se criou a noção de uma possível redução dos saberes a um único saber. O filósofo Carnap, num artigo de 1932, “Psicologia em Linguagem Física”, irá mesmo sustentar a hipótese de que o estudo do comportamento e da mente humanos, em última instância, podem ser reduzidos à Física. E assim nos fomos habituando à ideia de que só um tipo de saber é fiável, diante de qualquer aspeto da realidade. Outra metodologia resultaria de um discurso vazio, incerto, verbalizante, oco, sem nenhuma utilidade, puro diletantismo ocioso, sem efeitos práticos na vida das pessoas.

O técnico, russo, Valery Lobanovsky, acompanhado do seu amigo e adjunto, Vassiliev, tentou construir, na década de setenta, o futebol científico. Toda a URSS exultava, então, com a ideia do homo sovieticus, que tinha gerado Youri Gagarine e tantos cientistas e desportistas de fama mundial. A equipa, que ele compôs, tinha por si o génio de Oleg Blokhine (que fazia 10,6 nos 100 metros) e ainda o talento de Onichenko, Burjak, Kolotov e Vermeiv. Foi a primeira geração de ouro do futebol soviético (não é só em Portugal que existe a geração de ouro). A segunda continuou a beneficiar da presença de Blokhine e os êxitos continuaram. Só que, um dia, Blokhine findou e, com ele, findou também o futebol científico do homo sovieticus. Sem jogadores de reconhecidos méritos, não há métodos que resultem...

2. Desde 2001 que há uma estrutura laboratorial, no Milan. “Desde essa data, dizem os registos, as lesões musculares reduziram 91% em relação aos anos anteriores”. No entanto, toda esta cientificidade não evita que não tenha derrotas... como os outros! O que é a ciência no futebol (e no desporto)? Venho dizendo, há muitos anos, que se trata de uma ciência humana. Se com números (só com números) se fizessem grandes jogadores de futebol, o Puskas e o Maradona (com as suas barriguinhas) não poderiam ter sido jogadores geniais. E encontrar-se-iam excelentes treinadores, entre os matemáticos. Já falei, a este respeito, com inúmeros treinadores. Nenhum deles diz o mesmo. Embora todos eles sejam treinadores de sucesso. O Feyerabend tem razão: tudo vale, desde que resulte em vitórias! Quem escava, com fé, encontra sempre um tesouro.

Todas as teorias científicas são mortais, precisamente porque são científicas. Feyerabend radicaliza a afirmação popperiana de que “todas as teorias são igualmente indemonstráveis”, ou de que “todas as teorias são igualmente improváveis”. Há, no entanto, que fazer uma rutura salutar com uma arrogância típica de algum saber universitário, guardião do mais teimoso positivismo: a realidade é plenamente matematizável; o único método verdadeiramente científico é o formal-matemático. No El País, de 7 de Junho de 2010, o jornalista Alfonso del Corral perguntou ao selecionador do “team” nacional espanhol qual o trabalho que, sobre o mais, o ocupava, durante os dias que antecediam o início do Mundial da África do Sul. Vicente del Bosque, livre de preconceitos, respondeu: “ Aqui, acima de tudo, sou psicólogo”. E o jornalista termina assim a notícia: “La preparación física, los entrenamientos, la dieta y las condiciones geográficas son pinceladas. Ahora lo esencial es el trabajo psicológico de Del Bosque”.

A sabedoria, fruto de uma experiência, dia a dia renovada, ensinou o selecionador espanhol que a frutuosa irrequietude dos seus jogadores devia ser norteada pela descoberta estimuladora de um grande ideal. Foi este o seu trabalho principal, para ajudar a construir uma unidade e uma realidade morais. De facto, só têm direito à vitória as equipas que sabem afirmar a razão moral da sua existência. E aqui há mais psicologia e filosofia do que física e matemática! Por isso, os textos clássicos do treino parecem-nos, hoje, excessivamente presos a modelos ultrapassados. O futebol não é um objeto inerte: é motricidade humana, onde nunca se regressa a parte alguma. Julgo que será ainda de evocar que os obstáculos mais difíceis de ultrapassar, nas ciências (e alguns desses obstáculos são já senilidades cambaleantes) não provêm do senso comum, mas de um positivismo petrificado. Há um medo pânico em assumir ruturas epistemológicas, principalmente por parte daqueles cientistas que acreditam em verdades primeiras, totais e inacabadas. Ora, quando se inicia qualquer trabalho científico, há uma verdade que surge, indiscutível: o primado teórico do erro! “Uma teoria sem erro deveria ser insuperável, como se fosse verdade perfeita. Ora, isto é um absurdo, visto a ciência se definir como processo. Por isso, a renovação de seu conhecimento é diretamente proporcional à presença do erro” (Hilton Japiassú, Questões Epistemológicas, Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro, 1981, p. 32). Feyerabend encontra erros em todas as teorias. Tem razão! Mas também me parece incontroverso que há as que têm mais erros do que outras...

3. Quando comecei a lecionar no INEF (Instituto Nacional de Educação Física), nunca reduzi as aulas às questões epistemológicas. No entanto, a breve trecho, concluí que o ser humano era (é) o sujeito epistémico daquela Escola. Não houve mister de despender muito tempo: seria o ser humano que eu deveria estudar! E ser humano que, na grandeza da inspiração e na perfeição da forma das suas obras, é diurno e noturno, de acordo com a terminologia de Gaston Bachelard. O homem diurno prima pelo saber racional, trabalha com o equipamento lógico-formal que a racionalidade lhe fornece; o homem noturno é o sujeito portador de uma sensibilidade poética, em que a imaginação toma largo voo. Um pensamento noturno encontrei-o no Prof. Nelson Mendes, professor do INEF e oficial superior da Força Aérea, que tentava abanar com denodo o frágil e vetusto edifício da Educação Física, ainda inquinada pelo homem-máquina de La Mettrie. Com denodo e muita imaginação poética – a poesia é talvez o veio mais fecundo e original da cultura portuguesa! O Prof. Nelson Mendes, sem nunca escrever poesia, está entre os grandes poetas que eu conheci. Mas, para Bachelard, a ciência não se resume a mero sistema de representações de um objeto de estudo, porque deverá produzir, criar, inovar. Assim, o interesse do epistemólogo deve voltar-se para a lógica da descoberta científica, que envolve polémica com os obstáculos epistemológicos e em esforçada tentativa para superá-los. A história do conhecimento científico não ocorre por mera acumulação, deslizando numa continuidade linear; ao invés, ocorre por ruturas, não apenas com o senso comum, mas também em relação às teorias vigentes – o que dá ensejo a Feyerabend e ao português Ricardo Serrado de impugnarem o “dogma” de um só método para uma só ciência. Com efeito, não há método que não apresente evidentes limites, pese o poder tirânico da moda, mesmo no mundo das ciências. De facto, não há método diante do qual não se deva duvidar e criticar! “Quem não critica aquilo em que crê não lapidará as suas crenças, quem não lapida as suas crenças será servo das suas verdades. E, se as suas verdades forem doentias, certamente será uma pessoa doente” (Augusto Cury, O Código da Inteligência, Pergaminho, Lisboa, 2009, p. 87).

Com o livro Messi, Ricardo Serrado ergueu um monumento a um estudo sério do “fenómeno” Lionel Messi. Na página 38, levanta a interrogação conhecida: “O Génio nasce ou produz-se?”. E adianta, a propósito: “A questão do génio está intimamente ligada à da natureza humana, isto é, à procura de saber se, de facto, existe uma natureza humana inata ou se, pelo contrário, a natureza humana não existe e os comportamentos humanos são adquiridos pelo ambiente sociocultural. Numa perspectiva genética, aquilo que se questiona é se o génio nasce génio, ou faz-se, pela educação, pelo ambiente e pelo treino”. Na página 319 deste livro, Ricardo Serrado sustenta que o corpo (1,69 m.) de Messi permite-lhe uma criatividade invulgar. E “o corpo de Messi, sujeito a uma cultura futebolística forte, ou mesmo no contexto de uma cultura futebolística suficientemente relevante, encontrou um quadro suficientemente modelar para potenciar as suas características inatas que, embora não sejam tradicionalmente as de um atleta, encontraram um espaço em que se podem expressar e manifestar em movimento”. E escreve, mais adiante: “a capacidade criativa de Messi é primordialmente fruto do seu corpo que instrui o cérebro como agir” (p. 334). Demais, “a inteligência corporal não se mede, nem se racionaliza. Situa-se fora do âmbito da linguagem e, por isso, não é falável. Não é compreensível racionalmente. É uma inteligência do organismo na sua totalidade, que reage inteligentemente aos estímulos que lhe chegam, com uma contribuição residual da consciência” (p. 346). A natureza explica-se; o ser humano compreende-se. Compreendamos portanto o génio de Messi. E qual metodologia a utilizar? “Todas as metodologias têm os seus limites” remata o Paul Feyerabend. Por isso, importa ler o livro Messi, de Ricardo Serrado. Onde se encontra a síntese necessária. Aliás, o Ricardo Serrado é inesgotável, é uma fonte que não seca. Jovem ainda, já tem uma obra vastíssima. No meu modesto entender, já é hoje uma figura incontornável na História e na Filosofia do Futebol, em Portugal.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto