José Mourinho: por que será?... (artigo de Manuel Sérgio, 81)

ÉTICA NO DESPORTO 20-04-15 4:54
Por Manuel Sérgio

Num texto da fase última da sua vida, Nietzsche perguntou-se: “Porque escrevo eu tão bons livros?”. Não sei se o José Mourinho já levantou a si mesmo esta questão: “Porque sou eu um treinador com tantas vitórias?”. A morte coexiste com a vida, assim como o êxito com o inêxito, mas qualquer sagaz interpretação do currículo do atual treinador do Chelsea é tentado a concluir que os seus métodos têm de ser diferentes, no mundo do futebol. Como na economia de mercado, também no futebol hodierno predominam a competição e a concorrência, que aliás se comunicam, sem quebra de ritmo, aos vários fenómenos sociais.

Ora, é precisamente numa prática onde a competição e a comcorrência entumescem e num espetáculo onde as paixões rolam e se espraiam - é precisamente aí que o José Mourinho, diante dos obstáculos mais encarniçados, peleja, vence e convence. Na História do Futebol, não se conhece um treinador que mais receios infunda aos seus adversários. Porque utiliza melhor tecnologia de ponta, na preparação dos jogadores?

No passado dia 19 do mês em curso, os jornais, as rádios, as televisões, as redes sociais noticiavam que o José Mourinho tem por si a mais atualizada tecnologia de ponta. De acordo com o Daily Mail, “o Chelsea assinou um acordo com uma empresa, para garantir as mais recentes máquinas e assim equipar o ginásio de alta competição do centro desportivo dos blues”. No entanto, não é verdade que outros clubes ingleses são também “alimentados” por gente de grande poder financeiro e que só não utilizam tecnologia de ponta, se não quiserem? Com atenção desperta, relanceemos, mais uma vez, o olhar pelos órgãos da Comunicação Social do dia 19. Davam realce, naturalmente, à vitória do Chelsea sobre o Manchester United (1-0). Mas adiantavam o que, no seu entender, era a razão principal do êxito da equipa do treinador português: “Mourinho estudou bem a lição, para levar de vencida o conjunto de Louis van Gaal: Vínhamos preparados para um jogo como este e tudo aconteceu como tínhamos planeado. Anulámos os melhores jogadores do United, ninguém os viu. Esperámos por um erro do adversário e marcámos. No futebol, o talento é importante, mas a estratégia também”.

Folheemos agora o Padre António Vieira, “o imperador da língua portuguesa”, como respeitosamente Fernando Pessoa lhe rendia preito. Para mim, “minimus inter pares”, estilisticamente, o melhor autor da língua portuguesa. Chamo a atenção para os trabalhos literários, sobre Vieira, do Prof. José Eduardo Franco. Mas, dizia eu, folheemos agora o Padre António Vieira e “escutemos” o maior génio português da oratória: “Quer um fundidor formar uma imagem. Suponhamos que é de S. Bartolomeu com o seu diabo aos pés. Que faz para isso? Faz duas formas de barro, uma de santo e outra de diabo e deixa aberto um ouvido em cada uma. Depois disto, derrete o seu metal em um forno e, tanto que está derretido e preparado, abre a boca ao forno. Corre o metal, entra por seus canais no ouvido de cada forma e em uma sai uma imagem de S. Bartolomeu, muito formosa, noutra uma figura do diabo, tão feia como ele.

Pois, valha-me Deus, que diferença é esta? O metal era o mesmo, a boca por onde saiu a mesma e, entrando por um ouvido, faz um santo, entrando pelo outro ouvido, faz um diabo? Sim, que não está a coisa nos ouvidos, senão nas formas que estão lá dentro. Onde estava a forma do diabo, saiu um diabo, onde estava a forma de um santo, saiu um santo. Todos os nossos ouvidos vão dar lá dentro em uma forma que é o coração. Se o coração é forma de santo, tudo o que entra pelo ouvido é santo; se é forma de diabo, tudo o que entra pelo ouvido é diabólico”. Na sua sinceridade admirável que a casuística não conseguiu corromper, se o Padre António Vieira tem conhecido o Prof. José Mourinho, diria com toda a certeza, que tudo o que entra pelos ouvidos do treinador do Chelsea sai genial, porque a forma, que o José Mourinho é, tem a soberania incomparável do génio. Entesoirando as joias de máximo quilate da nossa língua, não tenho dúvidas que, se vivo fosse, ele não deixaria de homenagear, à sua maneira, o doutíssimo treinador, que todos conhecem por José Mourinho.

Sei o que digo e não exagero: o José Mourinho é um treinador genial. Melhor do que eu, o Prof. Luís Lourenço (seu amigo, desde os verdes anos em que ambos eram rapazes) o pode confirmar: “Jogávamos ambos futebol de salão. E ele, em jogos que eram mais uma forma de companheirismo e amizade, já pensava na tática e na estratégia. O Zé já nasceu um grande treinador. O que ele faz de melhor não teve mestres, nasceu com ele”. Fui seu professor no ISEF de Lisboa. Escola onde a mocidade imperava, não podia também deixar de ser campo de nova seiva. Por lá passaram e aprenderam (como eu também, por lá, muito aprendi) um número imenso de professores e treinadores, que hoje enriquecem, com a sua generosidade e o seu saber, a Educação e o Desporto, tanto em Portugal como no estrangeiro.

No futebol, já são vários os que o mundo conhece, salientando as suas incontestáveis qualidades de pedagogos e de treinadores e que portanto sabem associar o valor intelectual e a emoção, o conhecimento e a ética, as razões da razão e as razões do coração (usando agora as palavras de Pascal). Mas nenhum como o José Mourinho que, ano após ano, vem surpreendendo as pessoas mais atentas e o povo apaixonado pelo futebol, com um rosário ininterrupto de vitórias. O apego dos contendores aos postulados das suas cores clubístas; o livre jogo diacrónico das opiniões polarizadas em velhas tradições – uns e outros rendem-se ao valor incontestável deste treinador de futebol que muitas vezes me sinto tentado a classificá-lo, sem qualquer élan patriótico, o primeiro, entre os primeiros treinadores que a História do Futebol regista. O primeiro? Sim, o primeiro. E digo porquê (sem pôr de lado a necessária dúvida metódica). Os seus métodos de treino foram novos. Mais do que uma periodização tática devemos estudá-los, dado que ele se encontra sempre aberto a noéticas mais ousadas, como uma periodização antropológica e tática, onde o humano está antes de tudo o mais.

O futebol, como qualquer modalidade desportiva, ou se entende como ciência humana, ou a metodologia do treino cai pela base. O malfadado divórcio entre o desporto e a epistemologia deixa, muitas vezes, o desporto, que estua de problemas que exigem investigação e reflexão, nas palavras e nos escritos de Acácios, Pachecos e Gouvarinhos. O Miguel Torga diz-nos que “Coimbra desgraçou Eça de Queirós porque lhe não soube revelar o sentido fundo e terroso da nação e da sua gente. Em vez de tratados, deu-lhe sebentas; em vez de lições, fez-lhe orações; em vez de humanidade, ensinou-lhe mundanidade” (Ensaios e Discursos, Círculo de Leitores, 2002, p. 197).

Também eu lastimo que o estudo do futebol seja, frequentemente, uma encantadora mentira, porque parece ciência e não passa de senso comum; porque parece arte e não tem um mínimo de capacidade criativa; porque parece crítica e não tem fundamento sério. Não há desenvolvimento, não há operacionalidade, não há eficácia, sem homens que são sujeitos e não meros objetos ou singelos títeres. Virgílio Ferreira escreveu: “o homem é o último valor irrecusável. Até porque justamente foi e é em função dele que sempre existiram todos os valores” (Espaço do Invisível – IV, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, p. 30). No meio do tecnocosmos mecânico, à luz da tecnociência – é com homens superdotados, supermotivados e também emancipados e livres, que se cria uma cultura de vitória. Há necessidade da ciência e da tecnologia? Sem dúvida! Mas é, como nova forma de humanismo que o desenvolvimento desportivo será Futuro. Como venho dizendo, há muitos anos: não é pensando que somos, mas é sendo que pensamos. São homens (jogadores e treinadores) diferentes os fautores das grandes vitórias. Não se pode imaginar o futebol atual, sem as marcas que lhe imprimiu, nos mais variados aspetos, a personalidade do José Mourinho. Para mim, está no seu humanismo a razão primeira dos seus êxitos. E ser humanista não é sinónimo de patetice ambulante, mas de ver no Homem a medida de todas as coisas, como Protágoras reivindicava, cinco séculos antes de Jesus Cristo.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto