“Cândido de Oliveira” - um livro inesquecível de Homero Serpa (artigo de Manuel Sérgio, 73)

ÉTICA NO DESPORTO 19-02-15 9:14
Por Manuel Sérgio

Fomos como dois irmãos, o Homero Serpa e eu. E não nos assemelhámos só pela música das palavras - principalmente, pelo franco amplexo intelectual e sentimental das ideias, dos princípios, dos valores e… até pela cor azul do mesmo Clube! Não o digo por pruridos de exibição mas para, de uma forma persuasiva e eficaz, poder escrever que o autor do livro Cândido de Oliveira – uma biografia (Editorial Caminho, 2000) o meu querido Homero Serpa, venerava Cândido de Oliveira, com incontida admiração, porque o tinha estudado, Investigado com um rigor verdadeiramente científico.

Eis como ele principia a sua obra: “Escrevi este livro, aliciado pelo tema que as minhas investigações sobre a vida de Cândido de Oliveira empolgaram. Terminada a tarefa das consultas, na Torre do Tombo, na Biblioteca Nacional, nos arquivos de A Bola e, avaliadas as entrevistas com quem conheceu de perto Mestre Cândido, deitei-me à escrita com alvoroçado empenho” (p. 9).

Seis páginas depois, com os seus primores de estilo, probidade e fluência, grafou: “Passavam 40 minutos do meio-dia de 23 de Junho de 1958, quando morreu, no hospital de Serafimer, em Estocolmo, o cidadão português Cândido Fernandes Plácido de Oliveira, natural de Fronteira, vila do distrito de Portalegre. Ainda não tinha sessenta e dois anos este alentejano de viva inteligência, doce de carácter, jornalista corajoso, democrata assumido e impertérrito defensor do colectivismo no desporto e na vida, discípulo e condiscípulo de casapianos ilustres, que nele cunharam a filosofia da solidariedade como bem inalienável”. Logo nas primeiras páginas do livro se descobre que, na personalidade de Cândido de Oliveira, se harmonizavam a ética, a política e o desporto, com modelar equilíbrio e tão sazonados frutos (como adiante se verá). E o brilho do talentoso escritor que foi também Homero Serpa, manifesta-se ao salientar: “Cândido de Oliveira morreu durante o Mundial da Suécia, ganho pelo Brasil, que ele elogiara, na penúltima das suas famosas crónicas, dela tendo feito tratado de futebol e modelo de escrita!” (p. 19).

Pela vastidão dos seus conhecimentos, pelas superiores qualidades de método e de exposição e pela sua formação moral, o Cândido nada fazia que não tivesse um objectivo primeiro: humanizar e portanto consciencializar e emancipar. Beneficiou da instrução e da educação, recebidas na Casa Pia, onde foi admitido em 1905. “A Casa Pia era evidentemente uma escola popular, com hábitos enraizados, no domínio da cultura física. Estava longe portanto de ser um avesseiro onde as gramíneas do saber e do progresso não podiam desenvolver-se, à míngua de luz e de calor. A evolução do futebol, na Casa Pia foi sustentada na propaganda do jogo, na organização de torneios, na sua prática, em primeiro lugar pelo núcleo intelectual. O tal jogo inglês cresceu, pelo entusiasmo dos alunos, quase todos praticantes mas, essencialmente, beneficiou dos métodos pedagógicos que o introduziram na população casapiana” (p. 46). Não surpreende assim que o Cândido tenha passado por vários dos incipientes clubes de então, a começar pelo Casa Pia. Mas o que surpreende, de facto, é a sua ousadia em cometimentos invulgares num jogador de futebol. “Ainda jogador do Benfica, corria o mês de Janeiro de 1920, Cândido fundou com Álvaro da Fonseca, Manuel Cruz, Ricardo Ornellas, Augusto Joaquim Faria e Raúl Vieira a revista semanal ilustrada, Football” (p. 48). Para ele, “o futebol, o jornalismo, a camaradagem, o clubismo, a raça não eram imiscíveis. Cândido cultivava-os, com o mesmo empenho e raro discernimento. Em todos aqueles caminhos deixou marcos indeléveis, alcançou metas, perseguiu futuros, engenhou a vida absorvente que quis viver” (p. 52). O desportista, mesmo introvertido, é sempre convidado a franquear os portões do seu egocentrismo, porque o desporto só em equipa se realiza. Até nos desportos ditos “individuais”, corre o atleta na pista e, por fora, o treinador e o médico e o seccionista acompanham-no também. Ora, se houve lição que possa extrair-se da vida do desportista, que foi o Mestre Cândido, esta é evidente: no Desporto, o companheirismo é a sua marca essencial, mesmo que rodeado do desdém dos que julgam a prática desportiva competição, competição e… nada mais!

Este livro de Homero Serpa veio a lume em tempos de inquietação ebuliente (inquietação política, inquietação social, inquietação desportiva) - inquietação filha do exaurimento mental e da atonia moral, que se apoderaram dos indivíduos e das instituições, incluindo as instituições desportivas. E, ao analisar tipos humanos, em toda a variada gama que a vida nos oferece, o Homero Serpa encontra em Cândido de Oliveira o cidadão exemplar, o desportista sem mácula, o homem “virtuoso” (emprego esta palavra, com o sentido etimológico que o latim lhe confere) que deveria recordar-se, no nosso tempo, que parece sofrer de imobilidade, de impassibilidade, de indiferença, diante do crime, do vício, da violência (física e verbal). Há um clarão de honestidade e cordialidade, que irradia da figura de Cândido de Oliveira e que é a encarnação das mais altas qualidades de um desportista. Jogou, no Casa Pia e no Benfica; treinou o Belenenses, o Sporting dos “cinco violinos”, o Flamengo (Rio de Janeiro), o F.C.Porto e, entre 1955 e 1958, a Associação Académica de Coimbra; foi ainda seleccionador nacional, em 31 jogos, merecendo realce a sua participação nos Jogos Olímpicos de Amesterdão. Em 1920, precisamente no ano em que se iniciou como jogador do Benfica, principiou a sua carreira de jornalista, na revista O Football. Ingressou, depois, nos quadros do Diário de Notícias (1921) e de Os Sports(1924) e de O Século (1926). Assumiu, em 1942, a direcção da revista Stadium e, por fim, fundou, com Ribeiro dos Reis e Vicente de Melo, o jornal A Bola. E, revelando-se um estudioso, um autodidata, escreveu doze livros, sobre a Casa Pia, o Futebol e um de tema exclusivo sobre a repressão fascista de Salazar: Tarrafal – pântano da morte. Uma ideia sobrenada da sua actividade desportiva e literária: as ideias, as pessoas, os factos, a competição desportiva não lhe interessam só pelo que são em si. Interessam-no, sim, quando são a expressão e a exaltação dos valores éticos e políticos em que acredita. Cândido de Oliveira não foi só um dos mais “importantes cabouqueiros” do futebol português. “Navegou, pelo futebol, em todas as direcções, dirigiu o leme das suas convicções sociais e humanistas, desenhou várias cartas de navegação e nelas traçou inusitados rumos, enfrentou sem temores os escarcéus dos inimigos políticos, que o brutalizaram. Ergueu o padrão do associativismo, com a força do seu coração generoso. Grande foi o homem que nasceu pobre numa pobre vila alentejana” (p. 82).

Salta aos olhos o alcance do livro de Homero Serpa, sobre Cândido de Oliveira: proclamar e promover os direitos de valores de forte pendor moral e político, nas formas várias da organização social, mormente o Desporto. Preso pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e enviado para o Tarrafal, em 1942, nada faltava ao Cândido, para plenamente agradar aos ideais humanistas do autor deste livro. A Evolução Táctica do Futebol – WM, escrito e editado, em 1949, “por Cândido de Oliveira, ao qual ele nunca quis chamar tratado de táctica, foi até 1974 considerado o último livro do mestre do futebol e do jornalismo. Mas Cândido escrevera e deixara na clandestinidade o original do Tarrafal – Pântano da Morte, obviamente separado do fenómeno desportivo. A obra foi publicada depois do 25 de Abril e é ainda considerada como o melhor testemunho da vida (e da morte) dos presos do Tarrafal. Cândido deu estilo de reportagem à escrita que arquitectou em segredo e de certo em constante sobressalto, uma reportagem viva, documentada, pungente, ilustrada por páginas de intenso dramatismo” (p. 138). Mas a sua formação humanista de convívio diuturno com os grandes temas da cultura do seu tempo manifestou-se também, no futebol. Não surpreende assim que Mestre Cândido tenha vivido “realmente, o período mais cintilante da estrela sportinguista. Ganhou duas Taças de Portugal, conquistou campeonatos nacionais, construiu uma equipa de valor internacional, com reflexos na I Taça Latina, sem nunca deixar de ser o homem simples e bom, sem jamais ter abdicado do jornalismo. A Bola precisava do seu estilo, da sua presença e da sua coragem. E ele mesmo, depois do cansaço emocional provocado pelos jogos, não faltava no jornal” (p. 164). Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. E a alma de Cândido de Oliveira era grande, mesmo grande, como o manifestou a treinar também o Belenenses, o Flamengo do Rio de Janeiro, o F.C.Porto e a Académica de Coimbra. É que, em todos estes clubes, ele fez do futebol mais do que futebol. Ele sabia que a infra-estrutura económica, que a organização social e política, que a ciência e a técnica fundavam o futebol e toda a prática desportiva. Ele sabia que a cultura, também no futebol, era o principal fator de desenvolvimento. Por isso, a sua irresistível simpatia pela Lusa Atenas e pelos jogadores-estudantes que a representavam, no Nacional de Futebol da Primeira Divisão…

Mas voltemos ao Homero Serpa: “O Dr. João André Moreno, 68 anos, médico, aposentado após uma carreira singularmente brilhante, era quintanista de Medicina, quando conheceu Cândido de Oliveira. Integrou com Paulo Cardoso e Carlos Cardoso o trio de dirigentes que, em Lisboa, na pastelaria Coimbra, convenceu Cândido de Oliveira a treinar a Académica, entretanto dirigida por Fernando Leite (Nana) que substituíra, em regime provisório, o Dr. Alberto Gomes, impossibilitado de exercer aquelas funções, por doença” (p. 209). Escutemos, sem mais delongas, o sereno e comovido testemunho do Dr. João Moreno, relatado pelo jornalista-escritor Homero Serpa: “Já passaram mais de 40 anos sobre a sua morte, mas a imagem do homem culto, que falava de tudo com à-vontade e sempre com conhecimento de causa (…) mantém-se inalterável, é indelével (…). Cândido de Oliveira admirava o futebol húngaro. Quis impô-lo, aqui. Conseguiu-o de certa forma. Sistematizava muito o jogo e tinha invulgar capacidade, para dirigir homens, componente essencial aos treinadores, aconselhável a alguns que andam por aí a beber águas e não se valorizam” (p. 212). Não cabe, num simples artigo, fazer uma síntese e realçando o que nele é essencial, de um livro da autoria do jornalista-escritor Homero Serpa (uma alma sincera: tão sincera perante a verdade como perante a beleza) sobre Cândido de Oliveira. As minhas palavras valem mais pelo que apontam do que pelo que explicitamente significam. Não pretendem ser nenhum estudo crítico, cheio de originalidade e de ênfase panegirista. Querem dizer tão-só que o livro Cândido de Oliveira – uma biografia, de Homero Serpa, deve ser lido e meditado, por qualquer desportista consciente. Nas palavras do Homero, Mestre Cândido foi um jornalista, um escritor, um treinador, um cidadão subversivo. “Consciente e coerentemente subversivo”. De facto, “o que é nâo pode ser” (Ernst Bloch). O que é não passa do pré-lógico. O Logos é o devir, a mudança, o salto qualitativo. Tudo o que o déspota não quer (o déspota é o conservador, por natureza). Tudo por que lutaram Cândido de Oliveira e Homero Serpa.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto