A “Arte da Guerra” no treinador Rui Vitória (artigo de Manuel Sérgio, 65)

ÉTICA NO DESPORTO 10-01-15 5:57
Por Manuel Sérgio

Aristóteles definiu o ser humano como um ser racional, o que, ao longo da História, se vem mantendo como sua identidade. De facto, o ser humano é racional, com virtualidades críticas e analíticas que, através do conhecimento, se desenvolvem.

Cito de cor (e dele faço uma tradução livre) o célebre pensamento de Pascal: “O homem não passa de um caniço, mas de um caniço pensante. Uma coisa simples pode matá-lo. No entanto, mesmo que o universo o esmague, o homem será sempre mais nobre do que ele: porque sabe por que morre e o universo não sabe por que o mata”. Outros aspetos se têm assinalado como específicos do ser humano, como os desejos, os sentimentos, as paixões, a vontade mas, porque não apresentam um caráter de objetividade, porque não podem matematizar-se, a sua cientificidade nunca lhes foi reconhecida. Para o dr. Rui Vitória, licenciado em Desporto pela Faculdade de Motricidade Humana e já com marca inapagável na história do Vitória de Guimarães, como treinador de futebol deste clube, o “estado de forma” assenta numa visão global, através do fator físico e do fator tático e do fator técnico e do fator mental. Assim o afirma num livrinho, A Arte da Guerra – para treinadores (TopBooks, Lisboa, 2014) que vivamente aconselho a qualquer treinador (ou candidato a treinador) de futebol. Mas vejamos o que nos ensina Rui Vitória: “Em cada treino, deveremos estabelecer objectivos, metas, para cada um destes factores. Fazemos exercícios específicos, que trabalhem ou no fundo cruzem, mais do que um factor. Devemos definir e transmitir claramente o que queremos que os jogadores façam em cada exercício, nos diversos factores”. O autor deste livro já leu, com toda a certeza, o Edgar Morin do Método V (Publicações Europa-América): “o homo sapiens só se realiza, como ser plenamente humano, mediante a cultura e na cultura”. E mais adiante: “O ser humano é plenamente físico e plenamente metafísico, plenamente biológico e plenamente metabiológico”. E por isso “as doenças corporais não são apenas corporais. As doenças psíquicas não são apenas psíquicas- Todas elas possuem três entradas: a entrada somática (…); a entrada psíquica (…); e a entrada ecológica” (pp. 31 ss.).

Mas continua o Rui Vitória, num estilo enxuto de adjetivos, com a precisão de um agudo conhecimento da sua profissão de treinador de futebol: “Num exemplo muito simples de um exercício de sete contra sete com guarda-redes, um pequeno jogo em que do ponto de vista táctico pretendo que se trabalhe a circulação de bola, jogar pelos corredores, encurtar o espaço ao portador da bola e trabalhar a zona pressionante, vou ter que definir, além destes, os diferentes objectivos de outras ordens. Do ponto de vista técnico, pedirei que se desenvolva o trabalho do passe, recepção e remate. Do ponto de vista físico, estabeleço que a finalidade é trabalhar a resistência específica. E do ponto de vista psicológico vou trabalhar a combatividade, o controlo emocional e o espírito de equipa. Estes sâo os objectivos ou metas que o treinador e a equipa técnica delineiam para determinado exercício” (p. 65). Por mais criteriosa que uma crítica se apresente, pode não evitar objeções, mormente por parte de quem é treinador mesmo e terá as suas razões de preferência. Por mim, quero dar relevo à noção de complexidade, que emerge da sua escrita. Porque os estádios das Salésias e do Restelo se encontram enlaçados à minha memória, sempre que me recordo como jovem ou adulto de juvenilíssimos anos, tenho diante de mim (e agora vou usar uma expressão simpática) o “positivismo” daqueles treinos, onde Claude Bernard (1813-1878) ainda parecia presente. Um jogador ilustrou a minha perplexidade, ao confessar-se: “Qualquer dia ainda tenho que me poupar nos treinos, durante a semana, para aguentar os jogos aos domingos”. A Rui Vitória jamais alguém se atreverá a acusá-lo de imobilizar-se perante os obstáculos erguidos por preconceitos ou rotinas paralizantes. É ele a dizê.lo: “Um treinador tem de estar permanentemente actualizado. Eu não gosto de repetir receitas, mesmo que sejam receitas de sucesso, pois considero que nenhuma é infalível e temos de adaptar.nos constantemente, procurar inovar e estar sempre na linha da frente. É a minha postura” (p. 69).

E, porque em trânsito permanente a uma constante atualização, o seu raciocínio sereno ao escrever: ”Hoje, o bom atleta é resultado de um desenvolvimento integral e harnonioso, que não se consegue apenas com as unidades de treino convencionais. Cabe, agora, ao treinador a definição dessas chamadas áreas de desenvolvimento, consoante o contexto em que trabalha (clube, condições físicas, recursos humanos, material, etc.)” (p.70). E, na evocação e na interpretação exatas do que, em poucas palavras, Rui Vitória pretende sublinhar, o seu apelo sempre vivo ao homo complexus: “O que é importante reter aqui é que a estrutura do treino é, desde o início, muito sistémica. Tudo está interligado. Mesmo nos momentos teoricamente mais simples, como o aquecimento, que tende a ser visto como uma mera preparação para o treino. Já não faz sentido ver as coisas assim. Desde o momento do aquecimento em que os jogadores estão a treinar de forma estrutural” (pp. 69/70). António Damásio, no seu livro Ao Encontro de Espinoza (Publicações Europa-América, 2003) sustenta que “os sentimentos são percepções e, nesse sentido, são comparáveis a outras percepções” (p. 105). Cito Roland Barthes, nos Fragmentos de um Discurso Amoroso (que eu vi, representados no palco, na cidade brasileira de Pelotas, pelo António Fagundes): “tudo o que sei qualquer outro o pode saber – o meu coração sou o único a tê-lo”. A linguagem corporal, a um treinador atento, revela bem os sentimentos de um jogador. E, por isso, “não podemos nunca perder de vista a noção de entusiasmo, criatividade e motivação e a última coisa que devemos fazer é impor um peso demasiado forte sobre as nossas tropas, um peso capaz de oprimir a sua liberdade e a sua autonomia, a sua capacidade criativa. Transmitir demasiada tensão antes de um jogo importante pode ter um efeito negativo, provavelmente o oposto da motivação que inicialmrnte desejávamos e portanto é natural que, no seu plano de treinos, o treinador tenha em consideração todos estes aspectos” (pp. 73/74).

Muito havia a escrever de um livro, com exemplos e lições que importa estudar e seguir. E que explica por que Rui Vitória (vou talvez simplificar demais) é um treinador de indiscutível talento e de uma íntima sofreguidão em relação ao mais e melhor saber. Muitas vezes se apresentam os “agentes do futebol” com banalidades de mau gosto e exageros retóricos. Servem-se de tudo o que possa reduzir um treinador ou um jogador a meros objetos (e não sujeitos) da nossa sociedade do espetáculo. A honradez tenaz, a força psicológica de Rui Vitória não o permitem: “No meu caso, sou por natureza uma pessoa que, por norma, não se desequilibra com nada. Mas isso não significa que não seja humano. Considero que, enquanto treinadores, devemos sempre manter a lucidez para destrinçar a parte mais emotiva da parte mais racional. É fácil escorregar, sobretudo em situações de grande tensão/pressão, para o lado mais emocional, é fundamental manter o equilíbrio. Ou seja: tenho de ser emotivo para transmitir essa emoção, essa “garra”, para dentro das quatro linhas. Mas também tenho de saber olhar para mim e perceber se essa emoção está a ser contraproducente, porque me retira racionalidade e retira racionalidade aos próprios jogadores” (p. 89). No Proémio ao Tractatus afirma Wittgenstein que “aquilo que se pode dizer, pode dizer-se claramente; aquilo de que não se pode falar, deve calar-se”. Que o mesmo é dizer: é preciso saber comunicar! E, no ato de comunicar, vai a formação cívica e moral, neste caso: do treinador que comunica. E lá voltamos nós ao homem, na sua integralidade, na sua complexidade. É o homem o radical fundante do futebol. É portanto o homem, que é o Rui Vitória, que explica o atual treinador do Vitória Sport Clube, de Guimarães, e o autor do livro A Arte da Guerra – para treinadores, o homem que viaja na palma do futebol e não perde a linha do amor pela sua profissão, nem a do respeito pelos seus jogadores. E nas horas dos triunfos mais apetecidos deixa no ar um longo e comovido adeus, porque sabe que os seus pais, lá nos céus, estão a chorar de alegria...

Por aqui se pode avaliar da força e da beleza e do saber deste livro que em cada página surpreende. Para o Rui Vitória o futebol é, de facto, uma guerra, mas... uma “guerra simbólica”, com um profundo sentido civilizacional! Afinal, uma solução ritual da agressividade que vive dentro de nós e que não pode confundir-se com um Islão impiedoso, brutal, componente fundamental de um trágico retrocesso. E que deve ser erradicado da face da Terra. Irrevogavelmente!... Mas, parabéns ao Rui Vitória, parabéns à editora que o acolheu.

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto.