Uma resposta breve a Miguel Cardoso Pereira (artigo de Manuel Sérgio, 60)

ÉTICA NO DESPORTO 17-12-14 10:56
Por Manuel Sérgio

Foi bem funda, ou até sísmica, a revolução intelectual que em mim se deu, em finais da década de 70 e princípios da década de oitenta, docente que era do ISEF de Lisboa, sendo certo, para mim, que. sem ela, não teria despertado para uma visão nova do desporto. E que revolução foi essa, que me empolgou e eu venho tentando sublinhar, desde esse tempo até hoje? Em pouco a resumo: a passagem, na práxis desportiva, do dualismo antropológico racionalista ao humano, na sua integralidade e no movimento intencional da transcendência. E daqui o anúncio, com muito atrevimento à mistura, de que o treino desportivo me parecia, então, obsoleto e caquético, porque centrado, quase exclusivamente, no físico e no fisiológico.

Não escondo que este meu despertar foi também tributário da generosidade de José Maria Pedroto, de David Monge da Silva e do Doutor Melo Barreiros (presidente do Conselho Diretivo do ISEF) os quais, cada qual à sua maneira, fizeram o favor de semear em mim o entusiasmo, a motivação de que tanto necessitava. O Sr. José Maria Pedroto descobriu mesmo, na minha pouquidade, a assunção do destino mítico de um dos promotores da abertura ao futuro, neste campo, chegando a confessar ao professor João Mota: “É um profeta!”. Como se sabe, o profeta foi ele e não eu, dividindo em dois, ao lado de Pinto da Costa, a história do FC Porto. Não sendo “portista”, pude assistir ao nascimento do “milagre” que é hoje este Clube, fruto da lucidez crítica, da infatigável atividade e do amor a uma causa de dois homens.

Mas (como ia dizendo) fiz um corte epistemológico, no seio mesmo da Educação Física. Demais, era um leitor assíduo de Bachelard e Althusser e uma “filosofia do não” entrou de guiar os meus estudos. Disse, de facto, “não” a todo o tipo de dualismos, desde os epistemológicos e ontológicos aos sociais e políticos, na linha aliás do cristão “amai-vos uns aos outros, como eu vos amei” e daqueloutra máxima (esta de Marx): “o Homem é para o Homem o ser supremo”. Portanto, meu caro Miguel Cardoso Pereira, jornalista de muitos méritos, aplaudo a tecnologia no desporto, desde que da sua práxis resulte mais Verdade, mais Solidariedade e mais Justiça. Para o desporto e para o homem todo e todos os homens!

Manuel Sérgio é Professor Catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto